21 de dezembro de 2012

Doce tortura

Gulosa, ela abocanhava um pomposo brigadeiro e pensava, melancólica, no seguinte. Foi loucura dela entrar naquela confeitaria lotada, sabido que não gostava de compartilhar a mesa, dirigir-se ao balcão refrigerado, ter uma epifania e pedir três éclairs de chocolate e uma coca. Apesar disso, nada lhe era mais doce que uma bala de goma achada no bolso, uma porção de torteletes de limão deixadas pelo último cliente ou a metade do brigadeiro numa dentada apenas. Observava na parede  inúmeros diplomas de melhor confeitaria do ano, expostos e bem emoldurados, a contentar o instante em que atulharia na boca guloseimas tão blasfemadoras. As vorazes garfadas e goles de coca alternavam-se e com a língua hábil, sortia em êxtase quando encontrava resquícios melosos nos dentes, sempre vigilante caso a fulana ao lado se distraísse com o seu show glutão. Em seu dedo não tinha aliança, mas um  pouco de creme, desferido no penúltimo doce.

10 de dezembro de 2012

A novela de Nilza

Nilza estava ansiosa pela re-re-re-re-reestreia da sua novela latina favorita e resolveu arrumar serviço só pra poder assisti-la em seu quartinho de passar roupas, sossegada. A patroa, do alto da sua tirania, ordenou que  retirasse as inconvenientes folhas que cresceram mais do que as outras no gramado, disse que era pra ontem e reclamou do café, que estava muito aguado, que não se brinca com café arábico. Desolada, a doméstica não sabia o que fazer. Após cinco anos, Carlos Daniel, que já foi Luiz Fernando, Valério e Jesús García, seria exibido tal como Nilza gostava: bom moço, pai de família, carro conversível, fazendo par com a personagem da Gabriela Spanic. Fazer o que se sua vida não era como a de Lalinha, personagem do núcleo de serviços gerais da trama, que não precisava ter noções de jardinagem e economia dos produtos de limpeza. Nilza nem sequer tinha uniforme. Só um avental florido, presente da patroa no Natal retrasado. Subitamente, vasculhou seu repertório de mentiras, pensou em Carlos Daniel, deu um suspiro fatídico e desmaiou. A patroa quando a viu estirada ao chão, pôs-se a gritar: "Você não me está grávida, infeliz!?". Ela manteve-se deitada, intacta, temerosa por sua faceta custar-lhe o emprego. Mas que fosse às favas; patroa ruim era o que não faltava. Dois minutos depois, entortando a boca e com o pedido de misericórdia lapidado num trágico olhar, Nilza levantou, disse que sentiu um mal estar e pediu pra sair mais cedo, vai que ainda estivessem distribuindo senhas no postinho. Como uma ávida adoradora de tramas açucaradas vespertinas, a patroa fitou a fisionomia abatida da sua secretária e sentiu compaixão. Direcionou sua mão cheia de anéis não-declarados para o fundo da bolsa de pele de raposa (uma ova) e tirou uma nota de cinquenta para o carro de praça. Nilza, a caminho da vila, só pensou no cheiro do café no coador e em Carlos Daniel, abraçando outra.