
Como era de costume, colocava música clássica, sentava-se no sofá marrom e direcionava seu olhar para o balanço da cortina de tule. O incenso encontrava-se sobre a cabeceira, dentro de uma mini caneca do Bar do Alemão e exalava um aroma adocicado, campestre, zen pelas entranhas daquele ambiente que, há muito tempo, só testemunhava silêncio e violinos tristonhos. A poeira estava contra-luz, não muito diferente dela, que guardava a escuridão no peito como quem guarda uma pitanga no bolso. O pequeno universo de partículas de poeira contrastava-se com a fumaça do incenso indiano, o vento frio que vinha de fora penetrava por entre os pequenos furos da cortina, e de certo modo, era essa brisa amena que aquecia o recinto impassível de calor. Os dedos de sua mão esquerda roçavam a calça de veludo que vestia, com a direita segurava um cálice de vinho tinto. Foi quando a campainha soou, coisa que não se ouvia há tempos; do lado de fora, um homem magro, um senhor já, de bigode grisalho, chapéu de feltro cinza, terno azul marinho e sapatos bem lustrados, gritou: "Vizinha, hoje as laranja e os limão tão no ponto! Cinco pratas e nada mais". Ela, com a voz tão baixa que se perdia pelos acordes da música que vinha de dentro, respondeu: "Quero limões, os mais azedos que tiver, por gentileza".