29 de setembro de 2011

Sentada numa cadeira de balanço, ela estava. Estava com uma fisionomia angelical, seu sorriso se esparramava pelo rosto fazendo as bochechas salientarem-se, deixando os olhos pequeninos como os de uma gueixa. Ela sorria, sorria, sorria. Não dizia nada, apenas sorria. Enquanto a mãe fazia uma oração, olhei pra ela e agradeci por ela ter sido tudo o que foi e no fundo, quis novamente estar com ela. Quando voltava da aula fiquei contente em olhar pro seu retrato, ainda em tinta a óleo, escondido no alto da parede do corredor. Fazia meses que não olhava pra ele.

Cruzados os dedos

Ainda que parecessem estranhos e temerosos quanto à sua pessoa, Penélope demonstrava interesse em roer menos unhas e suportar o medo que também era produzido por ela. Às vezes a tentativa de mostrar-se desarmado, em meio à situações adversas, pode confundir-se com os antagonismos cultivados sob um campo de prévias constatações, muitas vezes irrefletidas. A questão é que muitas vezes julgamos mais os anéis que os dedos; não oferecemos nossos narizes para certos perfumes e nos atamos no medo de sermos incompreendidos. Por mais que fossem tortuosos os caminhos, os dias eram de primavera e isso já era um grande motivo para se despreocupar. Haveriam paineiras carregadas, troncos de flamboyant mais retorcidos, corais de sábias mais audíveis e motivos sinceros pra não deixar de viver aquela efêmera eternidade. Pimenta nas unhas, amuleto no bolso, Penélope somente queria felicidade em dobro.

28 de setembro de 2011

Joelhos ao pé da cama

Vai à tristeza e diga-lhe que triste não vou ficar
pode parecer incerteza
beleza, não precisa acreditar
só não espante se a frieza atingir-te em cheio
os dias nublados tomados de breu
deveras por descuido ou porque assim
escreveu o destino teu

Palavras podem ser doces
extraídas do peito como se fossem mel
adocicadas no sabor daqueles lábios
que um dia me foram a fel

Sobre a mesa deixou um trocado, escreveu
um recado no canto do guardanapo amassado
meu amor, não me resta outro regalo a não ser
o sorriso teu

Vai à ela e diga-lhe que sobrou um espaço
que não é fácil sua ausência suportar
e que quando volta resta a certeza
de que muitos abraços irei lhe dar
espanta a frívola tristeza
esconde-me debaixo das saias da condessa
livra-me do mal e das cruéis segundas-feiras

Amém.

26 de setembro de 2011

Benevolentes, pois

Agora imagine se olhássemos, naqueles dias, pelo buraco da fechadura os dias atuais, será que realmente no futuro, que é hoje, teríamos alguma paz ? Seríamos loucos então, sem perceber o quão alva e rija é a interpretação do teu ser, choraríamos mares de crocodilo e nos banharíamos em lágrimas turvas, nos questionaríamos, inexatos, que outra razão poderia haver para a existência do tamanho magnetismo que existe entre a desgraça e o karma teu ? Pudera eu levar-te rosas, um poema e meus cumprimentos, olhar nos teus olhos e dizer que és meu contentamento. Entregar-te-ia uma carta na qual exponho minhas sinceras saudades, mesmo sabendo que tuas mãos não mereçam segurar as palavras minhas. Calçaria em teus pés sapatinhos cravejados de rubi, sob o palco luzes a nos seguir, dançaríamos desajeitados, esbanjaríamos desgraça e descompasso, mas afinal, nunca precisamos acertar o passo pra fazer da nossa valsa um espetáculo.

Fragmentos

O tempo lá fora não era dos melhores. A chuva caía fina, pontiaguda e atingia os guarda-chuvas de dez reais e as cabeças dos desprevenidos. Tudo que Cecília queria era uma anestesia de efeito duradouro que a mantivesse intacta dentro de seu casulo, no abrigo de suas incertezas e âmago de sua tristeza. Irreparável como era, tornava aquele dado momento em um dos piores encontros com o espelho que já tivera em toda a vida, salpicava suas dores com o último volume das suas músicas que mais pareciam gemidos. Alternava as horas de óbito moral com encontros com um cantor orelhudo, de charme incógnito e que amava todas as mulheres, o qual ela gostaria que ele a fizesse como tal. O cantor estava na programação do cinema e ficaria poucos dias ali, os suficientes para oferecer a ela lenços enquanto lhe fizesse companhia. Dentro de sua cabeça outro filme estava em cartaz, ela quem o dirigia e não contava com grande elenco; o necessário para chamar de arte aquilo que todo dia aparentava ser uma obra de ficção. Com o tempo esqueceu-se do tempo, das promessas de não ouvir tal música, de que era auto-suficiente sobre seus sentimentos e de que a primavera reinava, absoluta, na praça Osório. Também começara a policiar suas idas à janela, tinha medo de terminar como a prostituta apaixonada ou de abrir as asas e partir, como desejava havia um bom tempo.

Frívolas sensações

Enquanto isso, no lustre do castelo, buscamos apoio em superfícies frágeis. Escorregamos com frequência nas cascas de banana que a vida insiste em espalhar pelos corredores das galerias que expõe nossos mais chafurdados desgostos, agruras e sofrimentos. Rebelados os sonhos, revoltam-se contra a realidade que não oferece sequer uma mínima sensação de lucidez resiliente ou doçura localizada, descarregam seus desprazeres como caminhões de lixo-que-não-é-lixo, abarrotados de resíduos sólidos urbanos, fazem no lixão. Nos algemamos ao pé de Cristo, colecionamos receitas de remédio e números de médicos, alguém que consiga resolver essa situação. Censuramos a nostalgia, dizemos que chega, que não aguentamos mais tamanha violação, tudo em vão embora pareça uma mera vertigem da nossa vil interpretação. Então começamos a acender incensos, a esquecer em bolsos e bolsas pimentas do reino, a colecionar talismãs e patas de coelho, a responder"amém" pra cada "Deus te abençoe" que ouvimos e a achar que o mundo está mais intuitivo do que nunca. Depois disso começam as seções de terapia e os retiros no interior, todos justificados como manutenção da auto-estima, a forma encontrada para reduzir o estresse da cidade grande, a fuga para uma nova tentativa de redenção. Até nos depararmos no canto do quarto, estupefatos e exauridos, contando mais uma ferida que fizemos no coração.

23 de setembro de 2011

Intimidade furtiva

Como era de costume, colocava música clássica, sentava-se no sofá marrom e direcionava seu olhar para o balanço da cortina de tule. O incenso encontrava-se sobre a cabeceira, dentro de uma mini caneca do Bar do Alemão e exalava um aroma adocicado, campestre, zen pelas entranhas daquele ambiente que, há muito tempo, só testemunhava silêncio e violinos tristonhos. A poeira estava contra-luz, não muito diferente dela, que guardava a escuridão no peito como quem guarda uma pitanga no bolso. O pequeno universo de partículas de poeira contrastava-se com a fumaça do incenso indiano, o vento frio que vinha de fora penetrava por entre os pequenos furos da cortina, e de certo modo, era essa brisa amena que aquecia o recinto impassível de calor. Os dedos de sua mão esquerda roçavam a calça de veludo que vestia, com a direita segurava um cálice de vinho tinto. Foi quando a campainha soou, coisa que não se ouvia há tempos; do lado de fora, um homem magro, um senhor já, de bigode grisalho, chapéu de feltro cinza, terno azul marinho e sapatos bem lustrados, gritou: "Vizinha, hoje as laranja e os limão tão no ponto! Cinco pratas e nada mais". Ela, com a voz tão baixa que se perdia pelos acordes da música que vinha de dentro, respondeu: "Quero limões, os mais azedos que tiver, por gentileza".

22 de setembro de 2011

Sonhos primaveris

Confundia a ilusão de viver com a ilusão de morrer. Assim, morria quase todos os dias; dias taquicárdicos, hepáticos, antipáticos, apáticos. Nem os novos dias primaveris a surpreendiam mais. No máximo, conseguiam dar a deixa aos pensamentos de outrora: aqueles nostálgicos que remetiam uma infância decorada com personagens Disney, florzinhas amarelas, samambaias carregadas e os reclames da mãe inconformada com a sujeira que a beleza da natureza deixava na calçada irregular. Também desfiou da memória os fios que costuravam os panos de prato que voltemeia rasgava, propositalmente, para costurar depois. O trabalho não era dos melhores, mas a mãe sempre agradecia pelo feito. Naquela época, um sonho de valsa custava cinquenta e cinco centavos e o mundo todo sorria quando ela conseguia juntar um real e dez centavos; o primeiro ela comia no caminho, como se fosse um fruto proibido, o segundo ela comia enquanto assistia Castelo Rá-tim-bum, sempre às quatro da tarde.

Sorriso de bolso

E seu sorriso brilhava mais que os cristais que segurávamos nas mãos, suas bochechas salientavam uma espécie de doçura de espírito e me cativava com seus olhos tão humildes, tão misericordiosos. A conversa sobre os temas que eu não entendia, persistia; disparei olhares para os quadros do bar, para o avião suspenso no teto e ao busto de Elvis Costello animado. E ela estava ao meu lado, meio injustiçada por ter que interagir com assuntos que geralmentesão discutidos numa segunda-feira nublada, mas mesmo assim seus dedos preenchiam as juntas dos meus, montando uma espécie de quebra-cabeça. Quando ela sorria, nunca perdia seu encanto; quando ela não sorria, sabíamos que era hora de voltar ao oftalmologista.

19 de setembro de 2011

Janela, janelinha

A lua estava bem no centro da janela-de-teto e a luz do luar iluminava seu rosto insone: era acinzentado e transparente. Blin blon.

Alpine - Villages

Queixas

Não é com um botão desligado que evitaremos um curto-circuito, não é encurtando a história que nos livraremos do lobo mau, não é silenciando o que um dia deu certo que garantirá um futuro pacífico, não é a melhor moldura que fará invisível o pior dos retratos, não é segurando a velha mão que trará a felicidade que um dia existiu, não é a melhor foto que determinará a melhor imagem. Não existe rima pra pior das realidades, não existe antídoto pro próprio veneno, não existe cura pro câncer da alma, não existe meia-entrada de um funeral completo, não existe suíte presidencial no inferno, não existe banheira do Gugu na Al Jazeera. O cinema foi mudo antes de falar tudo o que pensa.

Gotye ft. Kimbra - Somebody that I used to know

17 de setembro de 2011

Carruagem estelar

Confortável é a nuvem que me carrega pelos céus nublados que traçam sua rota pelo meu calendário. Daqui de cima vejo pássaros, tapetes voadores, senhoras de vestido preto em suas vassouras, anjos distraídos e semi-deuses que atiram trovões sobre a cabeça dos transeuntes. Também consigo ver a Muralha da China, Atlanta e Machu-Pichu; escuto constantemente as orações dos que, lá de baixo, pedem auxílio dos céus na resolução das suas pendengas. Abaixo de mim cruzam aeronaves impacientes, jatinhos metidos e gigantescos balões, de vez em quando vejo até até disco voador, mas nisso ninguém acredita. Acima de mim, reside o infinito. Infinito que começa assim que termina o Universo. Lá, esferas de plasma, buracos negros, campos magnéticos e satélites russos também são visíveis, sem falar nos cometas exibidos e nas estrelas de-cadentes. A nuvem não é de parar, não tem freios e sua velocidade é inconstante, voltemeia ela corre pra ver auroras boreais ou estaciona pra não enfrentar furacões tropicais. Não é feita de algodão e também não é doce, inclusive é um pouco amarga e insossa. Ela está em constante crescimento, afinal, é mais do que comum o transporte de cruzes pesadas, tomadas pelo cupim e pela degradação. A nuvem que me carrega, um dia virará vapor da locomotiva desse céu. Espero que até lá eu tenha asas pra voar.

3 de setembro de 2011

Inebriados ouviremos

E ele continuava a falar dos seus amores partidos, da sua labuta exaustiva, do seu chefe emotivo e de como era forte, ambicioso e implacável. Naquele instante, era muito mais interessante observar o movimento dos seus lábios do que realmente prestar atenção no que eles proferiam; eu disparava caretas de conformidade a cada final de frase e resmungava palavras que poderiam englobar todos os temas que ele entrava, os quais geralmente se relacionavam aos dissabores de sua escabrosa vida de merda. Ele molhava a boca com a cerveja barata, como se lambeasse, voraz, um prato de comida tendo desnutrição, o mais interessante foi vê-lo não vergar-se ao êxtase da embriaguez, continuava a contar suas histórias trágicas com personagens facínoras, monstros em forma de gente e fadas-madrinhas de uma ordem maligna. Me encolhi dentro do meu estado absorto e pensei na vida.