29 de junho de 2012

Desvelada

No glamour das noites de gala, seu sorriso resgatava o brilho pueril de quando, despreocupada, se enfeitava com a maquiagem da mãe. O vermelho a destacava; assim como as fofocas das inimigas, os comentários dos leigos machistas, a coluna social do Bessa e as marcações repetitivas no Facebook. Impávida e colossal, desfilava com suas inseparáveis amigas enquanto os flashes das câmeras confundiam-se com a iluminação estroboscópica do Castelo do Batel. Com as costas retas, o corpo de lado, a barriga chupada e as mãos na cintura, um espontâneo sorriso invadia seu rosto acafelado de Mary Kay. Depois de observar o retrato ordenou que o fotógrafo tirasse mais um, quem sabe outros três e como se supunha, seu desejo era ordem. Ordenar não só era seu nicho ecológico, seu papel social, seu passatempo preferido como também era uma prática que lhe dava ares de sinhazinha, a mais ardilosa das filhas do coronel. O que dispunha em beleza, desprovia em singeleza; ao contrário de quando brincava com bonecas, as suas melhores amigas, sinceramente feitas de plástico.

22 de junho de 2012

O pedestre

A Curitiba planejada, dos imponentes arranha-céus da Visconde, das vias exclusivas do expresso, dos bosques que vibram saúde com suas ciclovias compartilhadas que ladeiam grandes lagos. A Corityba esquecida, das ruelas do Largo, dos cines pornô e dos antigos antros da Riachuelo, do feio arrumado a fim de impressionar o gringo e tapar a insatisfação do habitante. Quando caminhava pela calçada da antiga rua Lisboa, à sua frente uma rechonchuda senhora aparentemente dançava; dos brechós de roupa seminova e lojas de casaco de pelo sintético se ouvia uma melodia intitulada Ai, se eu te pego. Embalada pela pitoresca música, a gordinha se alegrava com a sorte de todas as lojas do quarteirão estarem difundindo a mesma emissora de rádio. Na Voluntários da Pátria, um rapazote de roupa batida e semblante ultrajante lhe aponta uma banana e em tom de macheza, exclama: "Cala boca, se não te dou um tiro de banana!"; "Mas eu não falei nada", pensou, antes de ser tomado por uma discreta galhofa. E continuou caminhando pela calçada irregular, considerada a terceira melhor da nação.

Dom

Certa vez, perguntaram à Helena Kolody: "Daquilo que foi escrito, o que a senhora considera mais importante em poesia, resumindo o que foi sua vida, a sua trajetória ?" - com firmeza, a poetisa paranaense respondeu: "Talvez o que o pessoal gosta muito, que é Dom:

Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la".

20 de junho de 2012

Cecília Braun

Ah, se eu pudesse eu te ofereceria novamente uma rosa, um poema ou um buquê delas e uma coletânea deles. Pediria conselhos ao grande Chico pra entender o seu tipo, se fico ou se pisco, se escondo meu amor ou me arrisco, se viro o disco ou peço bis. Quando penso em dormir você aparece com os cabelos vermelhos  não tanto quanto os lábios   e tão bem se esconde na bagunça do quarto que da sua procura me faz desistir. Me perturba então saber que está por perto e que é certo desesperar-me enquanto você nada diz. São cartas marcadas, mas resta entusiasmo pra fingir que tudo passa, que a rosa pode ainda ser feliz mesmo maltratada num canto do jardim.


Parabéns, Grande Chico.

15 de junho de 2012

Brasil lindo e trigueiro

Mais importante que elevar o poder aquisitivo é oferecer o poder de pensar. Enquanto medidas econômicas elevam os índices de popularidade dos governantes, o brasileiro leva mais tempo na volta pra casa e se estressa, culpando o motorista da frente por ser devagar. A geração sortuda vê o Brasil ter prestígio estrangeiro, mas pode ser curta a bonança se bobear nessa dança onde fulana calça salto agulha, beltrano havaianas azul celeste remendada e sicrana reza para que a sola do pé pare de rachar. Mas é tempo de festejar, jogar confete pra cima, rir do ridículo, beijar a sogra, abraçar o bandido e quem haveria de se importar ?

6 de junho de 2012

G.

Seu brilho esquisito contrastava-se com o cinza concreto do Bigorrilho. De noite, vestida para matar, fantasiava-se para interpretar seus sonhos reais. De dia, vestida para viver, cruzava corredores perfumados de Victoria's Secret, bem lustrados e com lixeiras recicláveis a cada cinco metros. Por mais que fossem domados e penetrantemente castanhos, seus olhos não conseguiam evitar o bom olhado, ainda mais se fosse digno de estudo mais aprofundado, quer dizer, se valia a pena fitá-lo novamente. Também possuía elaboradas artimanhas para atrair-lhe um pouco de atenção; não que ela se vangloria-se com isso, apenas era incrível vê-la emitindo canto de golfinho, por exemplo. Mas nada supera o charme de quando tomava capuccino com chantilly.  Na esquina da Praça da Espanha, nos despedimos. Incrível como ela me rejuvenesce. 

1 de junho de 2012

Sob pálidas estrelas

E a noite sangrava em seu complexo de hora maldita. Sob o brilho de pálidas estrelas (nenhuma cadente e inferiores às capciosas do carnaval passado, na areia da praia), a única opção era admirar a iluminação pública. Esquentado o leite quente com uma colher de açúcar, suas mãos dispensavam luvas se abrasando na quentura da caneca; relembrou do dia chuvoso, de que não trocara as meias, das quais palavras deveria procurar significado... do guarda-chuva na biblioteca. Era sempre assim, de esquecer guarda-chuva e a cabeça, sobretudo o guarda-chuva. Mas tudo bem, no dia seguinte seria sexta-feira e o segundo dia útil do mês: data estratégica para a aquisição de alguns vinténs daqueles que vos querem bem. A noite se abraçava em neblina, desperdiçando mais uma oportunidade de ser bendita.