30 de dezembro de 2011
29 de dezembro de 2011
Água em pedra dura
28 de dezembro de 2011
Minha senhoria
Ela poderia não estar ali e mesmo assim estar sentada com as pernas cruzadas, segurando a primeira página do Estado do Paraná, lendo a notinha do Campana sobre mais um fiasco do Requião e depois proferindo um incontestável: “Seu vivaldino”. Hoje ela não estava ali. Fez falta ouvir a deixa “que nos ensinou a orar dizendo” para o Pai Nosso no término da sua profunda e agradecida prece. Fez falta não vê-la colocar um pedaço do peru dentro de um guardanapo e depois escondê-lo no bolso do seu casaco cinza. Curiosamente, esse ano teve strogonoff. Fez falta levar sua sobremesa, acariciar seus cabelos prateados e ver seu sorriso magistral esparramando-se pelo seu rosto amorenado e ouvir sua velha afirmação sobre seu hálito: “É o estômago”. Foi necessário não tê-la presente para sentir que ela sempre esteve ali; ela me sorriu esses dias num sonho e eu acordei rindo. Talvez ela esteja caminhando, sentindo o cheiro dos temperos que saem pelas janelas abertas, cantando cantigas singelas, escondendo no bolso alguma guloseima, um confeito, uma coxa de frango e sorrindo, como quando chorava.
14 de dezembro de 2011
A experiência taurina
Camuflava o seu vivo dourado com a cor do pecado e caminhava sem gentileza, esperando a sexta-feira, quando encontraria seu amado num café aristocrático, atrás de um sofá de couro, numa daquelas três mesas. Uma risadinha leve, seus olhos contorcidos de incerteza, já não era ela quem cavava os buracos: eram eles que se abriam diante do seu passo sem firmeza. Os roedores insistiam em mastigar seu tempo, as loucas lhe pediam um momento, seus espectros je ne sais pas, embora eu soubesse que ela aguardava, ansiosa, a sobremesa que nunca chegava. Esmagada, revigorava-se com o brilho pueril das fotografias amaçadas, das noites abrasadas, dos lenços que viraram pano de chão e do vazio que tornara-se tão nítido quanto uma companhia. Não vendo outra forma de manter o recato, pintou de vermelho seus lábios, penteou o cabelo escarlate, pediu pra puxar o zíper do seu vestido bolchevista e perguntou “Estou bonita ?”. Fiz que sim com a cabeça e confessei “Tenho receio”, mas aí já era tarde. Ela preferia cuspir no prato do que lavá-lo com as últimas gotas d’água do seu cantil de cachaceira. Quando abriram a porteira, a multidão gritava alto, receptiva e lisonjeira. Cecília, que não era especialista na arte tauromática, percebeu logo que o bicho não era manso, muito pelo contrário, era o diabo que feito bovino, lhe fitava sem nenhuma sutileza. Ela então abriu os braços, prendeu os cabelos e vendo a fera tentou manter a calma, o que sempre era tido como uma incerteza. O animal correu no ato, atingiu em cheio seu peito cálido, agitando toda a arena. Foi quando acordou e viu que não se passava de um sonho mal educado que lhe afligira a noite inteira.
11 de dezembro de 2011
Honey Baby

8 de dezembro de 2011
Marechal de Ferro

6 de dezembro de 2011
Ilustre desconhecida

3 de dezembro de 2011
Pequena Angel-a

1 de dezembro de 2011
Rainha do deserto
Tinha a boca vermelha. Elegantes cílios postiços emolduravam seus pudicos olhos juvenis. Seu casaco de general, sua calça dins rasgada, seu perfume de baunilha, os batidos sapatinhos vermelhos. Sua missão: navegar ao Novo Mundo. Não que ela tivesse espírito colonizador, nem mesmo o fato dela ter cometido massacres devem ser relevados. Ela só queria mesmo era fugir dos terremotos e furacões subtropicais, dos cruéis sapateiros, das daguerreótipistas loucas, das roupas na piscina, dos príncipes desamparados e das terrificantes tarjas pretas. Colocou dentro da mala seu mundo, surpreendeu-se ao verificar que não era muita coisa, escondeu as chaves debaixo do tapete com pegadas de barro, vislumbrou com melancolia o alaranjado imóvel que abrigou sua vida, partiu sem deixar rastros e esqueceu-se de levar a escova de dentes.
22 de novembro de 2011
Autoscopia

Com escárnio

15 de novembro de 2011
Desenho livre

10 de novembro de 2011
Circular Sul
3 de novembro de 2011
Senhor D.
31 de outubro de 2011
Bossa Nossa

29 de outubro de 2011
Cecília e o zepelim prateado

O indecifrável desconhecido irreconhecível

27 de outubro de 2011
Enquanto Ella cantava

24 de outubro de 2011
Roma

21 de outubro de 2011
18 de outubro de 2011
5:48
frente ao lenço dobrado e ao perfume acabado
um certo chico cantarolava sua joana francesa
matando-lhe de rir falando-lhe de amor
fita seus olhos e beija-lhe a testa
inclina-se para o lado e observa sem pressa a festa
por uma fresta modesta da patética porta do salão
lá dentro há senhoras e meninas rapazes e varões
suas almas tão vazias como seus copos sem licor
seus segredos desbotados nas retinas
tudo que se via era simulacro
embora bem cantasse o jovem cantor
13 de outubro de 2011
17, 18...

12 de outubro de 2011
Versos soltos

9 de outubro de 2011
O esquisito
6 de outubro de 2011
A rapariga loura e seus sushis

1 de outubro de 2011
Desconhecidos

29 de setembro de 2011
Vó

Cruzados os dedos

28 de setembro de 2011
Joelhos ao pé da cama
beleza, não precisa acreditar
só não espante se a frieza atingir-te em cheio
os dias nublados tomados de breu
deveras por descuido ou porque assim
escreveu o destino teu
Palavras podem ser doces
extraídas do peito como se fossem mel
adocicadas no sabor daqueles lábios
que um dia me foram a fel
Sobre a mesa deixou um trocado, escreveu
um recado no canto do guardanapo amassado
meu amor, não me resta outro regalo a não ser
o sorriso teu
Vai à ela e diga-lhe que sobrou um espaço
e que quando volta resta a certeza
de que muitos abraços irei lhe dar
esconde-me debaixo das saias da condessa
livra-me do mal e das cruéis segundas-feiras
Amém.
26 de setembro de 2011
Benevolentes, pois

Fragmentos

Frívolas sensações

23 de setembro de 2011
Intimidade furtiva

22 de setembro de 2011
Sonhos primaveris

Sorriso de bolso

19 de setembro de 2011
Janela, janelinha

Queixas

17 de setembro de 2011
Carruagem estelar







