29 de dezembro de 2011

Água em pedra dura

Se lembra daquela vez que eu te descrevi como uma lua ? Hoje tenho certeza que eu me referia à uma das luas de Saturno. Eu sei que sua vida mais parece uma torta de maçã envenenada: quem dela provar, para sempre será sentenciado ao dissabor das lembranças tuas. Mas me recordo das suas promessas benevolentes de vida fácil, oferecendo grandes latifúndios e poder coronelista aos que seguissem, à risca, o teu passo desajeitado pelas encostas lodosas do teu miocárdio hesitante, notava seus medos tão externados que mais pareciam livros mofados colocados numa majestosa estante na sala de estar, e o teu brilho apagado, escondido atrás do novo penteado. Enquanto as bocas falam, o silêncio do seu descaminho te afronta com ímpeto, até que suas promessas descomedidas acabam se tornando meticulosos davaneios. Você sabe que ouvirá aquela música várias vezes, e que findada, os fantasmas ainda estarão ali lhe pedindo mais uma xícara de chá, quem sabe alguns biscoitinhos e alguns lençóis limpos. Parece que a estadia de apreciação do verão sulista foi prorrogada. Apesar das mãos cordiais, deve-se frisar que não detecta-se nenhuma ferida quando se está usando luvas. Deixe os espinhos para os ouriços e as roseiras, as luvas pra quando você for atender seu orquidário e as mãos cordiais, aceite-as. Bem sabemos que elas ainda irão segurar um buquê de rosas secas, atirado pela noiva que vestia preto.

28 de dezembro de 2011

Minha senhoria


Ela poderia não estar ali e mesmo assim estar sentada com as pernas cruzadas, segurando a primeira página do 
Estado do Paraná, lendo a notinha do Campana sobre mais um fiasco do Requião e depois proferindo um incontestável: “Seu vivaldino”. Hoje ela não estava ali. Fez falta ouvir a deixa “que nos ensinou a orar dizendo” para o Pai Nosso no término da sua profunda e agradecida prece. Fez falta não vê-la colocar um pedaço do peru dentro de um guardanapo e depois escondê-lo no bolso do seu casaco cinza. Curiosamente, esse ano teve strogonoff. Fez falta levar sua sobremesa, acariciar seus cabelos prateados e ver seu sorriso magistral esparramando-se pelo seu rosto amorenado e ouvir sua velha afirmação sobre seu hálito: “É o estômago”. Foi necessário não tê-la presente para sentir que ela sempre esteve ali; ela me sorriu esses dias num sonho e eu acordei rindo. Talvez ela esteja caminhando, sentindo o cheiro dos temperos que saem pelas janelas abertas, cantando cantigas singelas, escondendo no bolso alguma guloseima, um confeito, uma coxa de frango e sorrindo, como quando chorava.

14 de dezembro de 2011

A experiência taurina


Camuflava o seu vivo dourado com a cor do pecado e caminhava sem gentileza, esperando  a sexta-feira, quando encontraria seu amado num café aristocrático, atrás de um sofá de couro, numa daquelas três mesas. Uma risadinha leve, seus olhos contorcidos de incerteza, já não era ela quem cavava os buracos: eram eles que se abriam diante do seu passo sem firmeza. Os roedores insistiam em mastigar seu tempo, as loucas lhe pediam um momento, seus espectros je ne sais pas, embora eu soubesse que ela aguardava, ansiosa, a sobremesa que nunca chegava. Esmagada, revigorava-se com o brilho pueril das fotografias amaçadas, das noites abrasadas, dos lenços que viraram pano de chão e do vazio que tornara-se tão nítido quanto uma companhia. Não vendo outra forma de manter o recato, pintou de vermelho seus lábios, penteou o cabelo escarlate, pediu pra puxar o zíper do seu vestido bolchevista e perguntou “Estou bonita ?”. Fiz que sim com a cabeça e confessei “Tenho receio”, mas aí já era tarde. Ela preferia cuspir no prato do que lavá-lo com as últimas gotas d’água do seu cantil de cachaceira. Quando abriram a porteira, a multidão gritava alto, receptiva e lisonjeira. Cecília, que não era especialista na arte tauromática, percebeu logo que o bicho não era manso, muito pelo contrário, era o diabo que feito bovino, lhe fitava sem nenhuma sutileza. Ela então abriu os braços, prendeu os cabelos e vendo a fera tentou manter a calma, o que sempre era tido como uma incerteza. O animal correu no ato, atingiu em cheio seu peito cálido, agitando toda a arena. Foi quando acordou e viu que não se passava de um sonho mal educado que lhe afligira a noite inteira.

11 de dezembro de 2011

Honey Baby

Longe da sua morada, chorava por não haver nada que fosse, assumidamente, aquilo que seus olhos gostassem de ver. Embora as notícias não fossem boas e os remédios estivessem caros, sobravam resquícios de felicidade escondidos no canto dos olhos que não cansavam de vê-lo nas manhãs de domingo. O colchão afundado e a mão que permanecia aberta sob seu peito, o coração palpitando forte, sôfrego, ininterrupto. Tudo aquilo não era nada. O suficiente pra tornar os olhos castanhos, verdes.

8 de dezembro de 2011

Marechal de Ferro

Seria de extremo mau gosto cultivar a ilusão de encontrar alguém que pudesse tomar conta de todas as suas fraquezas e frustrações. O objetivo nunca havia sido esse, é claro, ela só tinha alguns medos bobos, as unhas desfeitas e um copo de café bem adoçado. A paisagem estava bonita e limpa. Alguns estranhos passavam à sua frente, dois vieram pedir-lhe uma moedinha, um outro o seu isqueiro e outro alheio queria saber como chegava no Terminal do Guarda Lupe. Mantinha em seus pensamentos aquele que fazia seus dias felizes; ela sabia que precisava deixá-lo também sentir medo. O gesto involuntário de amá-lo enaltecia o desejo de tê-lo ainda mais no dia seguinte, mesmo que este fosse um domingo chuvoso, com os colegas do vizinho sentindo-se em casa e berrando, gorfantes, pelo condomínio a vitória do time do peito. Desejou boas festas ao Marechal de Ferro, imortalizado num busto em pedra-sabão que também servia como toalete de ovíparos voadores, cumprimentou Tiradentes, que de longe parecia um guerreiro farrapo, atravessou a rua distraída e só se deu conta da sua desatenção quando um automóvel vermelho freou bruscamente, vindo em sua direção. Escutou três estridentes buzinadas e alguns insultos comumente entoados por motoristas que deveriam fazer autoescola nas ruas de Nova Délhi. Ela continuou andando, sem virar para trás. Enquanto isso, aquele que fazia seus dias felizes construía uma canoa para duas pessoas.

6 de dezembro de 2011

Ilustre desconhecida

Tudo parecia muito caricato sem o mal súbito da sua mente suspeita de suicídio. Foi então que seu corpo despencou de si mesma, como se sua própria mente furtasse todo o equilíbrio que a mantinha em pé. Suas mãos trêmulas apertavam, inseguras, qualquer pedaço de matéria que viesse assegurar a prudência que naquele momento inexistia, suas pernas contorciam-se de medo, o chão parecia confortável o suficiente para acomodar suas mágoas e dilaceramentos. Seu acompanhante, com um heroísmo que não lhe era de praxe, acomodou-a em seus braços e defendeu-lhe dos monstros e das potestades noturnas, embora parecessem fadas e teletubbies diante dos enclausurados fantasmas que habitavam o inconsciente cada vez mais consciente da moça. Depois da sua alma ter descido ao submundo, sua respiração parecia recuperada, os olhos encharcados de lágrima e pudor escondiam qualquer vestígio de falta de lucidez que, por ventura, pudesse ter sido perpetrado. Quem cultiva bomba-relógio, colhe bomba atômica – e ela sabia muito bem disso, inclusive especulava-se que sua safra deste ano seria recorde.

3 de dezembro de 2011

Pequena Angel-a

O olhar mais utópico que já vi, era tão real quanto o mistério que o rodeava. A peculiaridade em seus trejeitos faciais se perdia na profundidade das suas olheiras adolescentes cobertas por uma fina camada de base. Por ventura, rodava uma fita do T. Rex no vídeo cassete. A voz dela de estrangeira erradicada competia com a sonoplastia imoral do ambiente, lá de fora o nublado enaltecia sua palidez que levemente se ruborizava por causa do ketchup ardido colocado no misto quente que acabara de ingerir. Tínhamos somente um guarda-chuva, alguns assuntos em comum e umas oito quadras até a próxima estação-tubo, era fim de tarde e a melancolia de domingo fora substituída pelo tédio construtivo de caminhar pela ciclovia compartilhada. Atravessando uma rua, um palhaço enganchou seus braços raquíticos nos polidos braços dela. Ele era uruguaio, parecia mal humorado – um palhaço em dias chuvosos – que cobrava singelos cinco reais para registrar para a posterioridade um retrato histórico com ele. De braços dados, ela chegou ao shopping com aquele que, apesar de ser o mais triste, foi o palhaço mais educado que já segurou seus braços.

1 de dezembro de 2011

Rainha do deserto


Tinha a boca vermelha. Elegantes cílios postiços emolduravam seus pudicos olhos juvenis. Seu casaco de general, sua calça dins rasgada, seu perfume de baunilha, os batidos sapatinhos vermelhos. Sua missão: navegar ao Novo Mundo. Não que ela tivesse espírito colonizador, nem mesmo o fato dela ter cometido massacres devem ser relevados. Ela só queria mesmo era fugir dos terremotos e furacões subtropicais, dos cruéis sapateiros, das daguerreótipistas loucas, das roupas na piscina, dos príncipes desamparados e das terrificantes tarjas pretas. Colocou dentro da mala seu mundo, surpreendeu-se ao verificar que não era muita coisa, escondeu as chaves debaixo do tapete com pegadas de barro, vislumbrou com melancolia o alaranjado imóvel que abrigou sua vida, partiu sem deixar rastros e esqueceu-se de levar a escova de dentes.

22 de novembro de 2011

Autoscopia

Sentados à mesa, maquiados com pincéis atômicos, tintas guache e delineadores à prova d'água, regavam suas abastadas vidas com cerveja barata. Uma característica que tinham em comum era o hábito de sempre estarem rindo, mesmo que por bobagens aristocráticas ou por devaneios da juventude alcólica. Mantinham princípios mesopotâmicos, vestiam a carapuça que mais conviesse para com a justiça e os bons costumes do que com os sentimentos que pudessem estar envolvidos, e lógico, esqueciam que por trás dos sofisticados casacos de couro e das camisetas de linho também haviam seres tão corruptos e malfazejos quanto os que seus dedos apontavam. Mas isso já não importava mais para ela, afinal, as festas estavam chegando.

Com escárnio

Estava mais preocupado com o que comeria no dia seguinte do que com alguma viagem requintada que pudesse fazer. Não sabia, por exemplo, se era necessário segurar-se nos corrimãos do metrô enquanto o veículo estivesse em movimento, também não sabia a diferença entre um cálice de vinho tinto e seco, embora soubesse que ambos poderiam levá-lo à boca da patente. Um dos momentos mais mágicos de sua candongueira vida havia sido no dia em que a província comemorava os trinta anos do seu último registro de neve, deveras algo aparentemente superficial a ser regozijado, mas uma máquina de neve artificial enchera seu olhar com alguma esperança de que aquilo era muito real para ser inexato. Pensava constantemente nas promessas largadas em cima da estante ou escondidas debaixo da cama em alguma caixa de sapatos, ele queria ter provado todos os sorvetes do cardápio da Sorveteria Formiga. E por trás da porta ouvia alguém dizendo que faria um longo cruzeiro pela costa norueguesa num navio de bandeira sueca, enquanto ele se recordava da primeira vez em que andou de ferry boat. Seu rosto contra o vento, o arrepio que o levava a esmo, as orações bem baixinhas, a proteção sigilosa e a estrela mais brilhante fitando-lhe, estática. As cartas sangrentas e os bilhetes rasgados que na fornalha viraram brasa e no silêncio viraram pó.

15 de novembro de 2011

Desenho livre

Os dedos deslizavam sob o vidro temperado. O vapor palmilhava sob as inscrições escritas. A verdade se fragmentava em gotículas de água tornando seu significado cada vez mais difícil de ser decifrado. Verdades cegas que ladrilhavam as veredas da disritmia. Cego seria se não visse além do vidro temperado; talvez algumas montanhas, uma casinha com chaminé e um sol sorridente a iluminar pessoas-palito de expressões amistosas. Verdades como o vapor: que salientava as bordas, acomodava as linhas verticais e reforçava o contorno das curvas. Enquanto em silêncio, ainda ajoelha-se, faz uma prece. Esquece do mundo. Vai deitar.

10 de novembro de 2011

Circular Sul

Os dez reais que tinha no bolso seriam suficientes pro vt e para uma carteira de cigarros mentolados. O cabelo estava bagunçado, os olhos cheios d'água, os pensamentos em algum lugar onde a reflexão não conseguia atingi-los. Era uma viagem longa para a civilização que morava nos arredores do Boqueirão, bairro com o maior número de conjuntos habitacionais por quilômetro quadrado da província. Até chegar lá, teria que pegar um ligeirinho e um expresso, os quais estavam abarrotados de almas quietas segurando o corrimão de ferro, olhando pros seus desertos internos. Enquanto fitava a janela, esquecia um pouco do seu óbito moral. A linha verde mais parecia vermelha. Quando ele chegou lá, foi recepcionado por aquela que, preocupada, fez questão de abraçá-lo como se fosse sua mãe, levando-o em sigilo para um quarto nos fundos da residência. Ele não hesitou em acariciar Madonna, uma amigável cocker que alegrava um pouco a confusão daquele lar. O que ele disse ou deixou de dizer a ela naquele momento hoje já não importa mais, mas o semblante angelo-materno da garota, o quarto com as portas fechadas, os quadros da Marilyn, as apostilas pro vestibular, o espelho que também servia de cortina, o closet que guardava roupas, seus filmes tristes, sua coleção completa de Gossip Girl e seus segredos, guardados nas estantes mais altas estariam guardados num dos altares mais vistosos que já havia feito. Fazia por ele, como se fosse pra si, encontrava algum porto seguro naqueles olhos de águas turvas e agitadas. No dia seguinte, sem saber porque, ela esparramou-se no sofá e assistia um show do Chico com um semblante de dor, uma dor que de longe notava-se que não ser física. Escutava João e Maria. Foi a primeira vez que ele a viu como nunca quisera ver. Bom, depois que essa situação se repetiu pela segunda vez, daí era rotina e todos já haveriam de estar conformados. Ela pedia silêncio da forma mais indiferente possível. Suas pupilas se contorciam com tanto desprezo que a trilha sonora mais parecia resgatar sua restante vontade de viver, esquecida em alguma estante alta do seu closet.

3 de novembro de 2011

Senhor D.

                                          

Senhor D. queria comer chocolate. Sua memória fazia questão de relembrá-lo das mordidas que estimulavam possíveis pensamentos arbitrários à sua própria vontade: ou mordia um grande pedaço e o mastigava com ímpeto enquanto a pasta alimentícia composta de cacau e açúcar se dissolvia no interior de sua boca ou mordia fragmentos menores e os mastigava como se fosse comida oriental, visando o bom aproveitamento da pasta alimentícia composta de cacau e açúcar. Senhor D. era um homem feliz. Sobretudo quando conseguia limpar 90% do pó acumulado da sua casa sem janelas pra algum quintal verdejante com alguma horta com cebolinhas, abóboras gigantes e um banco de praça decorativo debaixo de algum flamboyant de troncos retorcidos. Senhor D. conseguiria fixar o cartaz que pretendia em cima da cômoda da tevê. Ele ficaria muito feliz com isso.

31 de outubro de 2011

Bossa Nossa

Irei despido ao samba que você me convidou, tomando cuidado pra cair não em buracos que já caímos e nos abismos que cavastes com teus pés. Como no cinema, te levarei uma rosa e um poema ou te amarei como se fosses a última antes que eu termine por agonizar no meio do Passeio Público. E rezarei Laia Ladaia Sabatana Ave-Maria, rasgarei uma camisa e enxugarei teu pranto, escreverei no quadro em palavras gigantes: Pérola Negra: te amo, te amo. Enquanto essas pessoas na sala de jantar só pensam em nascer e morrer, a menina dança. E se você fecha o olho, a menina ainda dança. E ela é minha menina, e eu sou o menino dela, ela é o meu amor e eu sou o amor todinho dela. De quimeras mil, um castelo ergui, seis horas, como era de se esperar, ela pega e me espera no portão e no seu olhar tonto de emoção, me beija com a boca de feijão. Se eu fingir e sair por aí na noitada, por ter perdido a calma, por ter vendido a alma ao diabo, a realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e também posso chorar, mas tenho os olhos tranquilos de quem sabe seu preço. Coitado do homem que cai no canto de Ossanha, traidor. Pergunte pro seu orixá, o amor só é bom se doer. É pau, é pedra, é o fim do caminho e o resto é mar, são coisas que eu não sei contar. A minha gente sofrida despediu-se da dor pra ver a banda passar cantando coisas de amor, deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz. Minha cidade toda se enfeitou pra ver a banda passar cantando coisas de amor, toda rosa é rosa porque assim ela é chamada, toda bossa é nova e você não liga se é usada.

29 de outubro de 2011

Cecília e o zepelim prateado

Naquele prédio haviam sete andares, dois elevadores com capacidade para dezesseis pessoas ou oitocentos quilos, cada andar era vigiado por um policial com artilharia pesada suspensa no cinto que segurava as calças que, trivialmente, salientavam o preparamento físico rigoroso destes que visavam o cumprimento da ordem e disciplina dos que por ali cruzassem. Todos os aprendizes daquela Ordem trajavam uniformes de cor esverdeada; os mais evoluídos vestiam o preto, que representava o luto antecipado da próxima etapa de suas vidas: a realidade. Ela subia as escadas com seu passo pra dentro, suas madeixas louras, seu queixo engraçado, seu olhar também era desconfiado, mas que não afetava nenhum milímetro dos músculos faciais, seu uniforme preto destacava que era diferente, só não a tornava menos interessante. Não que esse seja o começo de uma história de amor, muito menos que eles tiveram final feliz algum dia. Pouco se via. Muito se questionava. Mal sabia ele que naquele três de novembro em que ela subia as escadas até o sétimo andar, que abrigava um grande auditório da Ordem e um modesto refeitório onde eram servidas iguarias do cardápio escolar, suas tentativas de ser poeta teriam algum significado. Mal sabia ele que esse significado seria ela, mal sabia ela que estava sendo observada por um indivíduo que achara nela algum significado para sua fuga adolescente. Foi quando por trás de uma porta dobrável com um triângulo de vidro ao meio, ela se virou para ele; com um olhar tímido e poético, os lábios estavam secos, a sombra e o rímel simétricos. Ele, de certa forma, teria se aproximado dela propositalmente e ela nunca haveria de saber disso. Seu cabelo estava bagunçado, seu uniforme era evidentemente verde, o que era visto como imoral àquelas horas no sétimo andar. "Oi", ela disse. Os efeitos do Picasa lhe faziam muito bem, tanto quanto o perfume de baunilha que usava. "Oi !!!!????", respondeu ele. Não era proibida a comunicação entre os indivíduos de uniformes de cores distintas, mas era atípico o contato entre eles. Nos dias seguintes, em todos os dias em que ela passasse na frente da sala dele, ele a veria fazendo um aceno pela vidraça da porta de madeira, sempre com um sorriso intrigante, com a impressão de que pra eternidade levaria o que naquele instante não passava de corriqueiro.

O indecifrável desconhecido irreconhecível

Toda vez que ouvia falar dele eu o imaginava minuciosamente como um protótipo de herói charmoso de filme de quinta categoria, que mesmo com todas as adversidades da barata produção, conseguia oferecer alguma curiosidade derradeira. Sempre era retratado por seus longos pelos faciais, seu agasalho de lã vermelha, sua maneira intrínseca de esconder algum possível e surpreendente sentimento que viesse depois de um proferido "olá" de algumapessoa que ainda mantinha nos olhos uma secreta harmônia com os dele, e por último, pelas cicatrizes da sua alma, que ele parecia esconder enquanto fazia da sua vida um funeral com muitos copos-de-leite e rosas vermelhas espalhadas pelo ambiente asqueroso e fétido. Ele, de certa forma, parecia ser um sujeito legal. Embora sempre acabasse sendo visto como um indivíduo com poderes sobrenaturais na arte de ser questionado. As pessoas encostariam suas cabeças nos travesseiros de penas de cisnes brancos das lagoas artificiais de uma das muitas fábricas de almofadas e travesseiros, e dividiriam qualquer pensamento pré-importante com a imagem dele exposta em mais de 51% dos seus cérebros congestionados de fumaça e pensamentos nocivos à decadente população de neurônios. A origem de toda essa minha besta curiosidade é incerta, talvez fosse por obra de algum comentário ou vários deles que contam por aí. "Às vezes não é muito difícil adivinhar que ele seria o mais difícil de ser adivinhado" -pensei eu, enquanto adivinhava ele, novamente, numa roda de prosa um tempo atrás. A adolescência ao fim chegaria, com ela a lembrança de um jovem segredo, que tinha corpo de homem e que estava ali pra cumprir a missão de ser segredo pra todos que ousassem achá-lo indecifrável.

27 de outubro de 2011

Enquanto Ella cantava

Desafiava as leis da física quântica quando partia sem rumo pra outra interrogação que fincava sua bandeira sob aquele peito tão cálido, tão ferido. Enquanto Ella seperdia por entre as partículas de gás carbônico e suspiros fragmentados, a cortina de tule se movimentada tímida o suficiente pra anunciar que logo viria chuva, mas mesmo assim Ella continuava a entoar seu canto magnífico por entre os quatro metros quadrados mais irrisórios na bagunça daquele mundo. Enquanto Ella contava-lhesuas agruras em seus ouvidos, seus olhos fitavam os pássaros que deveriam cantar: "Vem chuva!". Seu coração mandou-lhes um recado: "Diga ao meu amor pra não se preocupar, embora esteja no meu canto, penso nele sem parar". Sua alma lhe indagava: "Você poderia ser um pássaro ?", seu córtex específico pra guardar lembranças e datas comemorativas afirmava: "Chega de nostalgias baratas". Depois de pular corda com salto agulha, seus conceitos pareciam se fortificar daquilo que já fazia parte da rotina e que já havia perdido o encanto fazia tempo, afinal, agora partia para o fundamental: a realidade. Perguntados sobre a situação decorrente, os conceitos não quiseram se manifestar, apenas lançaramsorrisos autoexplicativos e um demasiado rubor nas bochechas. E no fim da história, todos haveriam de ser felizes, afinal, logo viriam as festas, os suspiros do fim de solstício, os espumantes gelados, as taças de cristal chinês cheias de desejos de felicidade vindoura e vinho Campo Largo, o silêncio das orações e a velha constatação de que aquela era uma das últimas oportunidades de conviver com os seus. Seus, uma definição íntima e definitiva de família, seja elade sangue ou de amor, faca ou dissabor. E as interrogações ainda o incomodavam,faziam cócegas indesejadas e corriqueiras, mas mesmo assim as mantinha presas ao pé da mesa e só as alimentava com as migalhas dos farelos de sua atenção.

24 de outubro de 2011

Roma

E sua função iria além de esquentar pés, estalar dedos, pegar um copo de coca e fazer cafuné debaixo da orelha. Suas mãos iriam além das curvas incertas, dos cabelos medusos, das sobrancelhas espessas e dos céus imaginários que surgiam conforme a intensidade de suas nostalgias quando as contava deitado. Suas expressões de amabilidade e simpatia seriam suficientes para abismar quaisquer sentimentos algozes que pudessem aparecer com suas agulhas, foices e machados suspensos na farda suja do soldado. No silêncio do quarto: um dilema profano. A luz amarela, os restos de sono nos restos de olho, perdia-se a fumaça no vasto teto, achava-se uma teia de aranha atrás da porta. Os dedos descobertos e as canelas de fora, os olhos atentos enquanto outra melodia tocava lá fora, a seiva escorria criando uma nova rota por entre a secura da casca. Nesses dias ainda acreditava-se que as estrelas eram pequenos furos da pavimentação do céu. Nesses dias ainda acreditava-se em Roma invertida.

21 de outubro de 2011

Tina Modotti


O ideal de um país representado em poucos elementos.
Tina Modotti, fotografia, revolução, México.

18 de outubro de 2011

5:48

ao lado do isqueiro branco, no silêncio brando
frente ao lenço dobrado e ao perfume acabado
um certo chico cantarolava sua joana francesa
matando-lhe de rir falando-lhe de amor
fita seus olhos e beija-lhe a testa
inclina-se para o lado e observa sem pressa a festa
por uma fresta modesta da patética porta do salão
lá dentro há senhoras e meninas rapazes e varões
a se embriagar pelo ópio e beijar o chão
suas almas tão vazias como seus copos sem licor
seus segredos desbotados nas retinas
tudo que se via era simulacro
embora bem cantasse o jovem cantor

13 de outubro de 2011

17, 18...

Típico pensamento de quando nada se tem a pensar enquanto se tem dezessete anos: daqui a pouco chegarão os teus dezoito e mesmo que todo mundo tenha mania de torná-los alguma coisa chata de se viver, levantando os olhos em tom de nostalgia e sempre concluindo as frases com uma voz pessimista e áspera, você se fará ouvir por uma voz: "os teus serão diferentes". Em cada palmeira da estrada se deparará com uma espada e uma bandeira hasteada postas em nome do meu amor, que deixou mais dor que qualquer outro amor, que trouxe torpor e partiu sem levar nada. Peça ao grande Rei que não nos mate, não temos ouro algum, somos velhos mascates. E mesmo que ainda se pareçam muitos, são poucos e nem chegam a igualar o número de dedos de um corpo, não que isso seja alguma novidade, mas deveras isso seja necessário para torná-los um pouco mais apreciáveis, sem a obrigatoriedade de torná-los incríveis; isso deveria vir de dentro, coisa natural.

12 de outubro de 2011

Versos soltos

Esses dias havia ido tomar um pouco de sol no jardim, ao som de algum som veranil que vinha da janela do quarto. Quando me sentei, pensei que era justo aumentar o som da música, afinal, o sol estava árduo e vivo, se integrando ao meu corpo pálido, cálido por seus raios vívidos, retumbantes. Liguei o volume ao máximo, voltei à minha esteira imaginária, me aconcheguei na parede úmida e estiquei as pernas sob os ladrilhos vermelhos da varanda e disparei um olhar certeiro para o sol que, impiedosamente, havia sido substituído por colônias de nuvens nebulosas bandidas que não me satisfariam nenhum pouco sequer. Foi então que me indaguei se era assim também com o amor; seria ele a diretriz que nos salpica com raios de profundo torpor e paixão, nos aquece no zêlo de um abraço e nos torna mais rijos nas fotossínteses e mutações do dia-dia ? Talvez fosse. Eu não tinha o sol ali, mas sabia que de algum lugar ele enviava raios que fulminavam na minha existência, assim como o amor que se esconde atrás das nuvens pra trazer-me uma sombra que seja.

9 de outubro de 2011

O esquisito

Não era like a rolling stone, nem tinha as melhores notas da sala. Sua cabeça era um tanto quanto grande, suas orelhas pareciam duas folhas de parreira prontas para o abano, tinha o sorriso metálico, mais mesmo assim admirava-nos com seus esforços contínuos e otimistas de pronunciar as palavras corretamente. Sempre era o primeiro a chegar na aula, afinal, sua residência não ficava mais que duzentos metros da escola, caminhada suficiente para ruborizar suas enormes bochechas e deixá-lo arfante por alguns minutos, os quais ele preferia passar sozinho, olhando pra algum ponto fixo da sala ou lendo algum livro de ficção científica. Tocado o sinal do intervalo, ele era o último a respeitá-lo; após cinco minutos levantava seu traseiro gordo e rastejava-se até o bebedouro mais próximo, encarava com certa altivez as pessoas que lhe fitavam com ar de desprezo ou inconformidade, ele entendia muito bem o que se passava ali e até brincava, pensava que pelo menos as pessoas o olhavam pelo que ele era, e não tão somente pelas suas roupas, seus calçados e outros artigos essenciais no julgamento de uma pessoa nos tempos modernos. Me lembro de quando apliquei uma redação onde pedia que fossem descritos os sonhos de cada um, podia ser qualquer coisa, exceto a paz mundial e um dia com seu cantor favorito. Estranhei sua rapidez em terminar a prova, pois geralmente ele levava duas, três vezes mais tempo que os outros alunos. Foi quando resolvi verificar o que acontecera. De fato, a prova continha um ponto final, o estranho é que o ponto se localizava pouco antes do fim da primeira linha das outras vinte e cinco que vinham atrás. Ele havia escrito pela primeira vez à lápis, coisa que sempre fazia visando levar mais tempo na realização da prova, talvez motivado pelo medo de ficar mais de três minutos fora da sala. Com a caneta, contornou: "Dois de creme, um de nata e outro de goiabada, por favor."

6 de outubro de 2011

A rapariga loura e seus sushis

Ao mesmo tempo que eram unha e carne, também eram unha na carne. O faqueiro da casa não possuía lâminas tão afiadas quanto as dos maldizeres proferidos a cada conclusão de ciclo, nem as rosas eram tão cheirosas quanto o perfume das palavras contidas nas cartas de reconciliação. E era de fato assim, o néctar daquele sentimento não existiria se não houvessem podas regulares com pequenas primaveras a ordenar sua nova redenção. Aquele amor, servido pela garçonete do restaurante japonês e apreciado pela rapariga de cabelos louros, fugia de toda e qualquer interpretação. Como podia ser feito de amor, dor, torpor, temor e ainda ditar regras, caminhar na chuva, levar na estação-tubo, dizer que ama e mesmo assim dizer que não ? E toda vez que se abraçavam de volta é como se estivessem voltando ao primeiro dia em que se abraçaram mais forte, talvez um abraço tímido, mas com o desejo de cumprir no segundo o que deixaram de demonstrar no primeiro. Mesmo sabendo que why she had to go, I don't know, she wouldn't say, partiam inseguras e discretas pro ato final, que logo voltaria a ser prólogo e assim por diante. Pelas armadilhas do tempo, ainda há quem questione: será que a rapariga loura só queria comer sushis ?

1 de outubro de 2011

Desconhecidos

Um dia passarás do outro lado da alameda, caminhando com os passos pra dentro, teu velho all star vermelho e o cheiro de baunilha a dissipar pelo poluído ar. Não me olharás como preverei antes de ver-te, esquecerei dos infortúnios do passado e em questão de segundos pensarei que poderias naquele segundo lançar um olhar em direção a mim, o qual seria suficiente pra fazer daqueles segundos os melhores do dia. Todavia não me olharias, nem que fosse de relance, não dando chance pro destino insistir em resistir ao que já havia perdido força há muito tempo. No entanto, me alegraria a sensação de ter te visto, embora soubesse que era o ingresso para outro dilema a se argumentar com os botões antes de dormir. Minuciosas e sorrateiras seriam as lembranças tuas: o teu cabelo com talco, os teus mais obscuros segredos, o teu karma desregrado. Você.

29 de setembro de 2011

Sentada numa cadeira de balanço, ela estava. Estava com uma fisionomia angelical, seu sorriso se esparramava pelo rosto fazendo as bochechas salientarem-se, deixando os olhos pequeninos como os de uma gueixa. Ela sorria, sorria, sorria. Não dizia nada, apenas sorria. Enquanto a mãe fazia uma oração, olhei pra ela e agradeci por ela ter sido tudo o que foi e no fundo, quis novamente estar com ela. Quando voltava da aula fiquei contente em olhar pro seu retrato, ainda em tinta a óleo, escondido no alto da parede do corredor. Fazia meses que não olhava pra ele.

Cruzados os dedos

Ainda que parecessem estranhos e temerosos quanto à sua pessoa, Penélope demonstrava interesse em roer menos unhas e suportar o medo que também era produzido por ela. Às vezes a tentativa de mostrar-se desarmado, em meio à situações adversas, pode confundir-se com os antagonismos cultivados sob um campo de prévias constatações, muitas vezes irrefletidas. A questão é que muitas vezes julgamos mais os anéis que os dedos; não oferecemos nossos narizes para certos perfumes e nos atamos no medo de sermos incompreendidos. Por mais que fossem tortuosos os caminhos, os dias eram de primavera e isso já era um grande motivo para se despreocupar. Haveriam paineiras carregadas, troncos de flamboyant mais retorcidos, corais de sábias mais audíveis e motivos sinceros pra não deixar de viver aquela efêmera eternidade. Pimenta nas unhas, amuleto no bolso, Penélope somente queria felicidade em dobro.

28 de setembro de 2011

Joelhos ao pé da cama

Vai à tristeza e diga-lhe que triste não vou ficar
pode parecer incerteza
beleza, não precisa acreditar
só não espante se a frieza atingir-te em cheio
os dias nublados tomados de breu
deveras por descuido ou porque assim
escreveu o destino teu

Palavras podem ser doces
extraídas do peito como se fossem mel
adocicadas no sabor daqueles lábios
que um dia me foram a fel

Sobre a mesa deixou um trocado, escreveu
um recado no canto do guardanapo amassado
meu amor, não me resta outro regalo a não ser
o sorriso teu

Vai à ela e diga-lhe que sobrou um espaço
que não é fácil sua ausência suportar
e que quando volta resta a certeza
de que muitos abraços irei lhe dar
espanta a frívola tristeza
esconde-me debaixo das saias da condessa
livra-me do mal e das cruéis segundas-feiras

Amém.

26 de setembro de 2011

Benevolentes, pois

Agora imagine se olhássemos, naqueles dias, pelo buraco da fechadura os dias atuais, será que realmente no futuro, que é hoje, teríamos alguma paz ? Seríamos loucos então, sem perceber o quão alva e rija é a interpretação do teu ser, choraríamos mares de crocodilo e nos banharíamos em lágrimas turvas, nos questionaríamos, inexatos, que outra razão poderia haver para a existência do tamanho magnetismo que existe entre a desgraça e o karma teu ? Pudera eu levar-te rosas, um poema e meus cumprimentos, olhar nos teus olhos e dizer que és meu contentamento. Entregar-te-ia uma carta na qual exponho minhas sinceras saudades, mesmo sabendo que tuas mãos não mereçam segurar as palavras minhas. Calçaria em teus pés sapatinhos cravejados de rubi, sob o palco luzes a nos seguir, dançaríamos desajeitados, esbanjaríamos desgraça e descompasso, mas afinal, nunca precisamos acertar o passo pra fazer da nossa valsa um espetáculo.

Fragmentos

O tempo lá fora não era dos melhores. A chuva caía fina, pontiaguda e atingia os guarda-chuvas de dez reais e as cabeças dos desprevenidos. Tudo que Cecília queria era uma anestesia de efeito duradouro que a mantivesse intacta dentro de seu casulo, no abrigo de suas incertezas e âmago de sua tristeza. Irreparável como era, tornava aquele dado momento em um dos piores encontros com o espelho que já tivera em toda a vida, salpicava suas dores com o último volume das suas músicas que mais pareciam gemidos. Alternava as horas de óbito moral com encontros com um cantor orelhudo, de charme incógnito e que amava todas as mulheres, o qual ela gostaria que ele a fizesse como tal. O cantor estava na programação do cinema e ficaria poucos dias ali, os suficientes para oferecer a ela lenços enquanto lhe fizesse companhia. Dentro de sua cabeça outro filme estava em cartaz, ela quem o dirigia e não contava com grande elenco; o necessário para chamar de arte aquilo que todo dia aparentava ser uma obra de ficção. Com o tempo esqueceu-se do tempo, das promessas de não ouvir tal música, de que era auto-suficiente sobre seus sentimentos e de que a primavera reinava, absoluta, na praça Osório. Também começara a policiar suas idas à janela, tinha medo de terminar como a prostituta apaixonada ou de abrir as asas e partir, como desejava havia um bom tempo.

Frívolas sensações

Enquanto isso, no lustre do castelo, buscamos apoio em superfícies frágeis. Escorregamos com frequência nas cascas de banana que a vida insiste em espalhar pelos corredores das galerias que expõe nossos mais chafurdados desgostos, agruras e sofrimentos. Rebelados os sonhos, revoltam-se contra a realidade que não oferece sequer uma mínima sensação de lucidez resiliente ou doçura localizada, descarregam seus desprazeres como caminhões de lixo-que-não-é-lixo, abarrotados de resíduos sólidos urbanos, fazem no lixão. Nos algemamos ao pé de Cristo, colecionamos receitas de remédio e números de médicos, alguém que consiga resolver essa situação. Censuramos a nostalgia, dizemos que chega, que não aguentamos mais tamanha violação, tudo em vão embora pareça uma mera vertigem da nossa vil interpretação. Então começamos a acender incensos, a esquecer em bolsos e bolsas pimentas do reino, a colecionar talismãs e patas de coelho, a responder"amém" pra cada "Deus te abençoe" que ouvimos e a achar que o mundo está mais intuitivo do que nunca. Depois disso começam as seções de terapia e os retiros no interior, todos justificados como manutenção da auto-estima, a forma encontrada para reduzir o estresse da cidade grande, a fuga para uma nova tentativa de redenção. Até nos depararmos no canto do quarto, estupefatos e exauridos, contando mais uma ferida que fizemos no coração.

23 de setembro de 2011

Intimidade furtiva

Como era de costume, colocava música clássica, sentava-se no sofá marrom e direcionava seu olhar para o balanço da cortina de tule. O incenso encontrava-se sobre a cabeceira, dentro de uma mini caneca do Bar do Alemão e exalava um aroma adocicado, campestre, zen pelas entranhas daquele ambiente que, há muito tempo, só testemunhava silêncio e violinos tristonhos. A poeira estava contra-luz, não muito diferente dela, que guardava a escuridão no peito como quem guarda uma pitanga no bolso. O pequeno universo de partículas de poeira contrastava-se com a fumaça do incenso indiano, o vento frio que vinha de fora penetrava por entre os pequenos furos da cortina, e de certo modo, era essa brisa amena que aquecia o recinto impassível de calor. Os dedos de sua mão esquerda roçavam a calça de veludo que vestia, com a direita segurava um cálice de vinho tinto. Foi quando a campainha soou, coisa que não se ouvia há tempos; do lado de fora, um homem magro, um senhor já, de bigode grisalho, chapéu de feltro cinza, terno azul marinho e sapatos bem lustrados, gritou: "Vizinha, hoje as laranja e os limão tão no ponto! Cinco pratas e nada mais". Ela, com a voz tão baixa que se perdia pelos acordes da música que vinha de dentro, respondeu: "Quero limões, os mais azedos que tiver, por gentileza".

22 de setembro de 2011

Sonhos primaveris

Confundia a ilusão de viver com a ilusão de morrer. Assim, morria quase todos os dias; dias taquicárdicos, hepáticos, antipáticos, apáticos. Nem os novos dias primaveris a surpreendiam mais. No máximo, conseguiam dar a deixa aos pensamentos de outrora: aqueles nostálgicos que remetiam uma infância decorada com personagens Disney, florzinhas amarelas, samambaias carregadas e os reclames da mãe inconformada com a sujeira que a beleza da natureza deixava na calçada irregular. Também desfiou da memória os fios que costuravam os panos de prato que voltemeia rasgava, propositalmente, para costurar depois. O trabalho não era dos melhores, mas a mãe sempre agradecia pelo feito. Naquela época, um sonho de valsa custava cinquenta e cinco centavos e o mundo todo sorria quando ela conseguia juntar um real e dez centavos; o primeiro ela comia no caminho, como se fosse um fruto proibido, o segundo ela comia enquanto assistia Castelo Rá-tim-bum, sempre às quatro da tarde.

Sorriso de bolso

E seu sorriso brilhava mais que os cristais que segurávamos nas mãos, suas bochechas salientavam uma espécie de doçura de espírito e me cativava com seus olhos tão humildes, tão misericordiosos. A conversa sobre os temas que eu não entendia, persistia; disparei olhares para os quadros do bar, para o avião suspenso no teto e ao busto de Elvis Costello animado. E ela estava ao meu lado, meio injustiçada por ter que interagir com assuntos que geralmentesão discutidos numa segunda-feira nublada, mas mesmo assim seus dedos preenchiam as juntas dos meus, montando uma espécie de quebra-cabeça. Quando ela sorria, nunca perdia seu encanto; quando ela não sorria, sabíamos que era hora de voltar ao oftalmologista.

19 de setembro de 2011

Janela, janelinha

A lua estava bem no centro da janela-de-teto e a luz do luar iluminava seu rosto insone: era acinzentado e transparente. Blin blon.

Alpine - Villages

Queixas

Não é com um botão desligado que evitaremos um curto-circuito, não é encurtando a história que nos livraremos do lobo mau, não é silenciando o que um dia deu certo que garantirá um futuro pacífico, não é a melhor moldura que fará invisível o pior dos retratos, não é segurando a velha mão que trará a felicidade que um dia existiu, não é a melhor foto que determinará a melhor imagem. Não existe rima pra pior das realidades, não existe antídoto pro próprio veneno, não existe cura pro câncer da alma, não existe meia-entrada de um funeral completo, não existe suíte presidencial no inferno, não existe banheira do Gugu na Al Jazeera. O cinema foi mudo antes de falar tudo o que pensa.

Gotye ft. Kimbra - Somebody that I used to know

17 de setembro de 2011

Carruagem estelar

Confortável é a nuvem que me carrega pelos céus nublados que traçam sua rota pelo meu calendário. Daqui de cima vejo pássaros, tapetes voadores, senhoras de vestido preto em suas vassouras, anjos distraídos e semi-deuses que atiram trovões sobre a cabeça dos transeuntes. Também consigo ver a Muralha da China, Atlanta e Machu-Pichu; escuto constantemente as orações dos que, lá de baixo, pedem auxílio dos céus na resolução das suas pendengas. Abaixo de mim cruzam aeronaves impacientes, jatinhos metidos e gigantescos balões, de vez em quando vejo até até disco voador, mas nisso ninguém acredita. Acima de mim, reside o infinito. Infinito que começa assim que termina o Universo. Lá, esferas de plasma, buracos negros, campos magnéticos e satélites russos também são visíveis, sem falar nos cometas exibidos e nas estrelas de-cadentes. A nuvem não é de parar, não tem freios e sua velocidade é inconstante, voltemeia ela corre pra ver auroras boreais ou estaciona pra não enfrentar furacões tropicais. Não é feita de algodão e também não é doce, inclusive é um pouco amarga e insossa. Ela está em constante crescimento, afinal, é mais do que comum o transporte de cruzes pesadas, tomadas pelo cupim e pela degradação. A nuvem que me carrega, um dia virará vapor da locomotiva desse céu. Espero que até lá eu tenha asas pra voar.