31 de janeiro de 2011

Lei do Silêncio

Ela era quieta, seu silêncio já dizia tudo sem que eu precisasse movimentar os músculos do lábio. Tinha um brilho invejável, seus olhos cor-de-mel e o cabelo sem nenhuma química, lisos que iam até a metade das costas finas, e aquele jeito peculiar de andar sem precisar de ensaios pra andar de salto alto. Ela me pediu um drink, eu fiz que sim, e perguntei sua idade, acho que eram vinte, não lembro. Abaixou a cabeça, envergonhada, para o balcão com cascas de limão e sal, e voltou a fitar meus olhos. Você é uma gracinha, disse, e ela, sem se importar com o momento, me beijou. Foi doce, inconsequente, impulsivo, doce. Tomou seu drink, manteve o silêncio inviolável, escondeu o colar com uma pequena imagenzinha de alguma santa por debaixo da camiseta cinza, e segurava o copo com tamanha firmeza como se quisesse pedir mais um. Se quiser mais um pode pedir, não exitei. Ela fez que não, não aqui. Perguntei se ela queria que a levasse para casa, ou se gostaria de fazer outra coisa. Ela disse: Preciso de algum dinheiro pra voltar pra casa, minha mãe nem sabe onde estou. Vim pra cá atrás de alguém e vou voltar pra mim mesma. Depois que o ônibus partiu, nunca mais a vi. Não sei seu nome, seu telefone, seu maior sonho, maior medo. Só sei que ela era quieta e o seu silêncio me atormentava.

30 de janeiro de 2011

É possível um rio secar completamente ?


É possível um rio secar completamente?
— Claro que é.
— Mas será que ele não enche depois? Nunca mais?
— Alguns sim, outros não.
— Mas nunca mais?
— Sei lá, acho que não.
— Você tem certeza?
— Certeza eu não tenho. Só estou dizendo que acho. Afinal não sou nenhuma especialista em matéria de rios, secos ou não.
— Sabe?
— O quê?
— Eu tinha esperança que o rio voltasse a encher um dia.
Caio F.

29 de janeiro de 2011

Tudo que começa num domingo termina num sábado

É sempre assim.
O destino os havia enganado bem, o que restava eram dois corpos que a partir dali, seguiriam caminhos diferentes e talvez irreversíveis. Foram muitas cervejas baratas, panquecas vegetais, cachaças tropicais, alfajores chilenos, rosas bicolores, chás de morango, salgados de frango e tempo perdido. Ainda sobraram algumas cartas sem remetente, umas músicas bobas e algumas lembranças aleatórias. Tudo que começa num domingo, acaba num sábado.
Sempre será assim.

28 de janeiro de 2011

Cinema: "O Discurso do Rei"

Sim, é uma produção ousada, muito bem feita e com um elenco extremamente capacitado, mas não consegui sentir totalmente a grandeza e o poderil da Coroa britânica, que é tratada no filme, pois acho fundamental numa história onde se tem um rei, contar como e onde ele vive. Pareceu-me que a direção do filme se ateve, sobretudo, no problema que a personagem de Colin Firth tinha, e deixou escapar detalhes que poderiam ter sido oportunos em dados momentos. É interessante a maleabilidade que o Colin tem, mas a personagem que ele fez em "Mamma Mia!" (2008) ainda é a minha favorita, e digo isso não só como eterno fã do musical. Um dos pontos fortes do filme é a participação de Geoffrey Rush, que conseguiu dar vida a uma personagem impávida e cética, mas no fundo, um tanto sentimental. Até o momento, dos indicados ao Oscar, só vi este e "Cisne Negro", e se fosse pra apontar um favorito, escolheria a segunda opção.

Te amo porque me desprezas

Cara, não vou aqui ficar dando explicações que exijam o que chamam de “bom senso” e todo aquele discurso racional. Nunca me foi útil, não será agora que vou me apropriar de um comportamento que eu nunca tive Eu comecei desse jeito aquela conversa que até o dia de hoje foi a mais intensa e perturbadora que já tive. Eu não sabia como começar e só previa um fim: eu levantando daquela mesa, a aliança, que eu comprara, ficaria intacta aonde a tivesse deixado, ele olharia pro teto procurando saber se aquilo era um sonho ou algo assim, e o ônibus ainda passaria diante de mim, sem me resgatar daquela paura. Sem saber o que restava daquele sonho, eu disse — Cara, eu sei que posso estar sendo muito infantil, mas eu preciso discutir algumas coisas com você, eu preciso enterrar o cadáver que estou carregando, eu preciso. Se lembra do nosso papo de amor, aquela palavra que a gente estava em busca de um significado, essa coisa que a gente acha que carrega no peito enquanto carrega uma aliança no dedo, essa porra que vira tema-central de novela, filme, manchete policial, etc ? Eu tô aqui pra isso, por isso — Naquele instante, o garçom nos interrompeu, a voz grave do moço perguntava se queríamos tomar ou comer alguma coisa, ele pediu um cappuccino e eu pedi um chá de morango. Voltando, eu disse — Eu não sei como começar a explicar essa coisa. Mas tá, vou me esforçar pra ser clara, direta e sóbria. Cara, eu te amo, mas é um amor doentio. Não que eu seja louca por você, longe disso. É loucura porque só te amo porque espero que algum dia você chegue aos pés do meu ouvido sussurrando que me ama, que seus melhores momentos são e foram ao meu lado, que vai me fazer uma surpresa e essas coisas de bobo alegre. Não, você nunca fez surpresa alguma pra mim! Sair mais cedo do trabalho por estar com dor de cabeça e me encontrar pra tapar o buraco da sua tarde é muito fácil. A gente tinha sonhos, se lembra ? As mãos dadas em Paris, piquenique no Central Park, tango em Buenos Aires, retiro zen na Índia, trilhas na Indonésia, passar dias sem sair da cama e todas essas coisas idiotas que os casais fazem pra camuflar suas vidas, afinal, o amor é um instrumento pra fazer as pessoas sonharem um pouco, saírem do seu mundinho estático. Mas sabe, acho que esses são apenas nada mais do que os meus sonhos, e você sempre fazia o favor de concordar comigo e, desconfiado, apoiava minhas sugestões ousadas e muitas vezes insenstas — Então, ele me olhou e me perguntou se era só aquilo que eu queria dizer, eu fiz que sim com a cabeça — Vou contigo até perto da sua casa, é tarde e a cidade anda perigosa, pode ser ? Quanto ao que me disse, eu faço o que eu sempre faço: concordo contigo e terminamos essa conversa por aqui — Disse ele. Olhei pra ele e disse — Vamos logo, então.

Rio de Janeiro de 2011


13 de janeiro de 2011

Música: "Amor em Si Bemol" / Giovanni Caruso e o Escambau


Não quero falar nada com você, me deixe só
Prefiro me calar a ter expor os nossos nós
Eu sei que nem você sabe ao certo o que aconteceu
E o amor na bagunça desse quarto se perdeu
E tornou sem fim, um costume, um festin
Um amor em si bemol

São cinco da manhã, eu continuo sem dormir
Tentando compreender aonde foi que me perdi
Cantando ao sonhar, ao acordar e não tiver
Quem sabe ainda pudesse consertar e ficar bem
Mas a dor de então me consome a razão
E o amor é bem menor.

Deixei de lado aquele affair
Mas ela nem me beija mais
Eu como carne, ela detesta
Não sobra grana pro motel

Ultimamente anda estressada
Gasto meu tempo com a tv
Prefere gatos eu cachorro
Não temos carro pra sair
Além do mais tem outras coisas
Me perco em meio a reticências

12 de janeiro de 2011

Suspicious Minds

Pra gente saber que tudo vai voltar a ser como sempre
foi. Sei seu perfume, seu refrigerante, sua música, seu
filme, seu amor, sua dor, seu tempo, seu momento.
Cecília, também te vejo dormir.

E lá se foram eles

E lá se foram eles, os tão cobiçados dezesseis anos já se foram. Não vou bancar uma de experiente homem vivido, até porque os dezesseis estão fresquinhos ainda, mas já é uma sensação gostosa e nostálgica essa coisa de se tornar mais velho. Não sei o que esperar desses dezessete, na verdade, acho que não devo esperar nada. Sabe aquela velha história de "não espere, deixe que as coisas acontecem naturalmente" ? Então. Acho que não sou capaz de não esperar certas coisas que se foram e podem não voltar mais, acho que é difícil pra todo mundo, mas sempre tem uns que possuem uma garganta mais "espaçosa" e conseguem engolir essas coisas com mais facilidade. Tenho percebido, aos poucos, que o nosso tempo por aqui é curto. Um dia, a mãe acorda o filho dorminhoco e passa o tempo, o filho toma rumo, diz que vai ser livre, que vai arriscar a sorte e pede a última benção pra mãe. Um tempo depois, três despertadores fazem o trabalho daquela mãezinha que sorria, mesmo sabendo que os dedos estavam escorregadios e não poderiam segurar aquela pequena mãozinha para sempre. E a vida continua, com ou sem mão pra segurar, ela continua, árdua e exigente. Adeus aos meus dezesseis anos que não voltam mais.

11 de janeiro de 2011

Lição de Van Gogh

"Vincent van Gogh sempre pintava as árvores tão grandes que elas iam além das estrelas. As estrelas eram pequenas, o Sol e a Lua eram pequenos e as árvores eram imensas… Alguém perguntou a ele: “Você é maluco? Por que nunca pára de pintar árvores tão grandes? A estrela mais longínqua fica a milhões e milhões de anos-luz e as suas árvores sempre vão além das estrelas! Que maluquice é essa?” E Van Gogh riu e disse: “Eu sei! Mas sei de outra coisa também, da qual você não se dá conta. As árvores são os anseios da terra para transcender as estrelas. Eu estou pintando os anseios, não as árvores. Estou mais preocupado com a fonte, não com o objetivo. E irrelevante se elas alcançam as estrelas ou não. Eu pertenço à terra, sou parte dela e compreendo o anseio da terra. Esse é o anseio da terra expresso através das árvores — ir além das estrelas.”
(Osho)

2 de janeiro de 2011

Marasmo dominical

Domingo de tarde de mais um daqueles domingos em que a gente desperdiça oportunidades importantes de respirar ares menos urbanos, de gastar dinheiro com alguma bobagem dominical ou de poder estar com que a gente gosta. Acho que uns domingos não tão recentes, talvez uns trezentos e doze atrás, ainda eu conseguia aproveitar esse dia com mais astúcia. Almoços familiares, passeios pelo Centro quieto e com aqueles "como você está gordinho" que eu ganhava da minha vó. Mas ah, o tempo passa, e com o tempo a gente começa a perceber que o problema não são os domingos, somos nós. A gente fica tão chato, que até os domingos começam a respeitar nosso "estado natural de achar que tudo é chato". É começo de ano também, ainda virão outros domingos pra que, arbitrariamente, achemos que eles não passam de um simples "D" impresso no começo de cada semana. Sem querer, nós levamos todo esse marasmo dominical para os outros dias da semana, e quando notamos: Pá! quantos dias se passaram e não fizemos nada que nos valesse a pena. Hoje estou cansado demais pra fazer esse domingo valer a pena, quem sabe no próximo ou no próximo ou no próximo. Sempre assim.

1 de janeiro de 2011

Uma janela depois de tantas fechaduras

Faz uma hora de um ano novo, uma nova janela se abre.
Sejamos capazes de admirar o que ela nos mostrar, ao
invés de nos atirarmos para fora dela. Não adianta
colocar grade alguma, temos de ser fortes para não
querer experimentar o chão lá de baixo. Não digo
"feliz ano novo", pois ele não será só de felicidade.
A maior felicidade é acordar a cada dia e poder se
olhar no espelho, mesmo com o rosto cheio de rugas
e espinhas, e dizer: "Feliz dia pra você". Tomara que
seja possível também aprender com o espelho, se
não a gente inventa outra história.