31 de outubro de 2011

Bossa Nossa

Irei despido ao samba que você me convidou, tomando cuidado pra cair não em buracos que já caímos e nos abismos que cavastes com teus pés. Como no cinema, te levarei uma rosa e um poema ou te amarei como se fosses a última antes que eu termine por agonizar no meio do Passeio Público. E rezarei Laia Ladaia Sabatana Ave-Maria, rasgarei uma camisa e enxugarei teu pranto, escreverei no quadro em palavras gigantes: Pérola Negra: te amo, te amo. Enquanto essas pessoas na sala de jantar só pensam em nascer e morrer, a menina dança. E se você fecha o olho, a menina ainda dança. E ela é minha menina, e eu sou o menino dela, ela é o meu amor e eu sou o amor todinho dela. De quimeras mil, um castelo ergui, seis horas, como era de se esperar, ela pega e me espera no portão e no seu olhar tonto de emoção, me beija com a boca de feijão. Se eu fingir e sair por aí na noitada, por ter perdido a calma, por ter vendido a alma ao diabo, a realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só tristeza e também posso chorar, mas tenho os olhos tranquilos de quem sabe seu preço. Coitado do homem que cai no canto de Ossanha, traidor. Pergunte pro seu orixá, o amor só é bom se doer. É pau, é pedra, é o fim do caminho e o resto é mar, são coisas que eu não sei contar. A minha gente sofrida despediu-se da dor pra ver a banda passar cantando coisas de amor, deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz. Minha cidade toda se enfeitou pra ver a banda passar cantando coisas de amor, toda rosa é rosa porque assim ela é chamada, toda bossa é nova e você não liga se é usada.

29 de outubro de 2011

Cecília e o zepelim prateado

Naquele prédio haviam sete andares, dois elevadores com capacidade para dezesseis pessoas ou oitocentos quilos, cada andar era vigiado por um policial com artilharia pesada suspensa no cinto que segurava as calças que, trivialmente, salientavam o preparamento físico rigoroso destes que visavam o cumprimento da ordem e disciplina dos que por ali cruzassem. Todos os aprendizes daquela Ordem trajavam uniformes de cor esverdeada; os mais evoluídos vestiam o preto, que representava o luto antecipado da próxima etapa de suas vidas: a realidade. Ela subia as escadas com seu passo pra dentro, suas madeixas louras, seu queixo engraçado, seu olhar também era desconfiado, mas que não afetava nenhum milímetro dos músculos faciais, seu uniforme preto destacava que era diferente, só não a tornava menos interessante. Não que esse seja o começo de uma história de amor, muito menos que eles tiveram final feliz algum dia. Pouco se via. Muito se questionava. Mal sabia ele que naquele três de novembro em que ela subia as escadas até o sétimo andar, que abrigava um grande auditório da Ordem e um modesto refeitório onde eram servidas iguarias do cardápio escolar, suas tentativas de ser poeta teriam algum significado. Mal sabia ele que esse significado seria ela, mal sabia ela que estava sendo observada por um indivíduo que achara nela algum significado para sua fuga adolescente. Foi quando por trás de uma porta dobrável com um triângulo de vidro ao meio, ela se virou para ele; com um olhar tímido e poético, os lábios estavam secos, a sombra e o rímel simétricos. Ele, de certa forma, teria se aproximado dela propositalmente e ela nunca haveria de saber disso. Seu cabelo estava bagunçado, seu uniforme era evidentemente verde, o que era visto como imoral àquelas horas no sétimo andar. "Oi", ela disse. Os efeitos do Picasa lhe faziam muito bem, tanto quanto o perfume de baunilha que usava. "Oi !!!!????", respondeu ele. Não era proibida a comunicação entre os indivíduos de uniformes de cores distintas, mas era atípico o contato entre eles. Nos dias seguintes, em todos os dias em que ela passasse na frente da sala dele, ele a veria fazendo um aceno pela vidraça da porta de madeira, sempre com um sorriso intrigante, com a impressão de que pra eternidade levaria o que naquele instante não passava de corriqueiro.

O indecifrável desconhecido irreconhecível

Toda vez que ouvia falar dele eu o imaginava minuciosamente como um protótipo de herói charmoso de filme de quinta categoria, que mesmo com todas as adversidades da barata produção, conseguia oferecer alguma curiosidade derradeira. Sempre era retratado por seus longos pelos faciais, seu agasalho de lã vermelha, sua maneira intrínseca de esconder algum possível e surpreendente sentimento que viesse depois de um proferido "olá" de algumapessoa que ainda mantinha nos olhos uma secreta harmônia com os dele, e por último, pelas cicatrizes da sua alma, que ele parecia esconder enquanto fazia da sua vida um funeral com muitos copos-de-leite e rosas vermelhas espalhadas pelo ambiente asqueroso e fétido. Ele, de certa forma, parecia ser um sujeito legal. Embora sempre acabasse sendo visto como um indivíduo com poderes sobrenaturais na arte de ser questionado. As pessoas encostariam suas cabeças nos travesseiros de penas de cisnes brancos das lagoas artificiais de uma das muitas fábricas de almofadas e travesseiros, e dividiriam qualquer pensamento pré-importante com a imagem dele exposta em mais de 51% dos seus cérebros congestionados de fumaça e pensamentos nocivos à decadente população de neurônios. A origem de toda essa minha besta curiosidade é incerta, talvez fosse por obra de algum comentário ou vários deles que contam por aí. "Às vezes não é muito difícil adivinhar que ele seria o mais difícil de ser adivinhado" -pensei eu, enquanto adivinhava ele, novamente, numa roda de prosa um tempo atrás. A adolescência ao fim chegaria, com ela a lembrança de um jovem segredo, que tinha corpo de homem e que estava ali pra cumprir a missão de ser segredo pra todos que ousassem achá-lo indecifrável.

27 de outubro de 2011

Enquanto Ella cantava

Desafiava as leis da física quântica quando partia sem rumo pra outra interrogação que fincava sua bandeira sob aquele peito tão cálido, tão ferido. Enquanto Ella seperdia por entre as partículas de gás carbônico e suspiros fragmentados, a cortina de tule se movimentada tímida o suficiente pra anunciar que logo viria chuva, mas mesmo assim Ella continuava a entoar seu canto magnífico por entre os quatro metros quadrados mais irrisórios na bagunça daquele mundo. Enquanto Ella contava-lhesuas agruras em seus ouvidos, seus olhos fitavam os pássaros que deveriam cantar: "Vem chuva!". Seu coração mandou-lhes um recado: "Diga ao meu amor pra não se preocupar, embora esteja no meu canto, penso nele sem parar". Sua alma lhe indagava: "Você poderia ser um pássaro ?", seu córtex específico pra guardar lembranças e datas comemorativas afirmava: "Chega de nostalgias baratas". Depois de pular corda com salto agulha, seus conceitos pareciam se fortificar daquilo que já fazia parte da rotina e que já havia perdido o encanto fazia tempo, afinal, agora partia para o fundamental: a realidade. Perguntados sobre a situação decorrente, os conceitos não quiseram se manifestar, apenas lançaramsorrisos autoexplicativos e um demasiado rubor nas bochechas. E no fim da história, todos haveriam de ser felizes, afinal, logo viriam as festas, os suspiros do fim de solstício, os espumantes gelados, as taças de cristal chinês cheias de desejos de felicidade vindoura e vinho Campo Largo, o silêncio das orações e a velha constatação de que aquela era uma das últimas oportunidades de conviver com os seus. Seus, uma definição íntima e definitiva de família, seja elade sangue ou de amor, faca ou dissabor. E as interrogações ainda o incomodavam,faziam cócegas indesejadas e corriqueiras, mas mesmo assim as mantinha presas ao pé da mesa e só as alimentava com as migalhas dos farelos de sua atenção.

24 de outubro de 2011

Roma

E sua função iria além de esquentar pés, estalar dedos, pegar um copo de coca e fazer cafuné debaixo da orelha. Suas mãos iriam além das curvas incertas, dos cabelos medusos, das sobrancelhas espessas e dos céus imaginários que surgiam conforme a intensidade de suas nostalgias quando as contava deitado. Suas expressões de amabilidade e simpatia seriam suficientes para abismar quaisquer sentimentos algozes que pudessem aparecer com suas agulhas, foices e machados suspensos na farda suja do soldado. No silêncio do quarto: um dilema profano. A luz amarela, os restos de sono nos restos de olho, perdia-se a fumaça no vasto teto, achava-se uma teia de aranha atrás da porta. Os dedos descobertos e as canelas de fora, os olhos atentos enquanto outra melodia tocava lá fora, a seiva escorria criando uma nova rota por entre a secura da casca. Nesses dias ainda acreditava-se que as estrelas eram pequenos furos da pavimentação do céu. Nesses dias ainda acreditava-se em Roma invertida.

21 de outubro de 2011

Tina Modotti


O ideal de um país representado em poucos elementos.
Tina Modotti, fotografia, revolução, México.

18 de outubro de 2011

5:48

ao lado do isqueiro branco, no silêncio brando
frente ao lenço dobrado e ao perfume acabado
um certo chico cantarolava sua joana francesa
matando-lhe de rir falando-lhe de amor
fita seus olhos e beija-lhe a testa
inclina-se para o lado e observa sem pressa a festa
por uma fresta modesta da patética porta do salão
lá dentro há senhoras e meninas rapazes e varões
a se embriagar pelo ópio e beijar o chão
suas almas tão vazias como seus copos sem licor
seus segredos desbotados nas retinas
tudo que se via era simulacro
embora bem cantasse o jovem cantor

13 de outubro de 2011

17, 18...

Típico pensamento de quando nada se tem a pensar enquanto se tem dezessete anos: daqui a pouco chegarão os teus dezoito e mesmo que todo mundo tenha mania de torná-los alguma coisa chata de se viver, levantando os olhos em tom de nostalgia e sempre concluindo as frases com uma voz pessimista e áspera, você se fará ouvir por uma voz: "os teus serão diferentes". Em cada palmeira da estrada se deparará com uma espada e uma bandeira hasteada postas em nome do meu amor, que deixou mais dor que qualquer outro amor, que trouxe torpor e partiu sem levar nada. Peça ao grande Rei que não nos mate, não temos ouro algum, somos velhos mascates. E mesmo que ainda se pareçam muitos, são poucos e nem chegam a igualar o número de dedos de um corpo, não que isso seja alguma novidade, mas deveras isso seja necessário para torná-los um pouco mais apreciáveis, sem a obrigatoriedade de torná-los incríveis; isso deveria vir de dentro, coisa natural.

12 de outubro de 2011

Versos soltos

Esses dias havia ido tomar um pouco de sol no jardim, ao som de algum som veranil que vinha da janela do quarto. Quando me sentei, pensei que era justo aumentar o som da música, afinal, o sol estava árduo e vivo, se integrando ao meu corpo pálido, cálido por seus raios vívidos, retumbantes. Liguei o volume ao máximo, voltei à minha esteira imaginária, me aconcheguei na parede úmida e estiquei as pernas sob os ladrilhos vermelhos da varanda e disparei um olhar certeiro para o sol que, impiedosamente, havia sido substituído por colônias de nuvens nebulosas bandidas que não me satisfariam nenhum pouco sequer. Foi então que me indaguei se era assim também com o amor; seria ele a diretriz que nos salpica com raios de profundo torpor e paixão, nos aquece no zêlo de um abraço e nos torna mais rijos nas fotossínteses e mutações do dia-dia ? Talvez fosse. Eu não tinha o sol ali, mas sabia que de algum lugar ele enviava raios que fulminavam na minha existência, assim como o amor que se esconde atrás das nuvens pra trazer-me uma sombra que seja.

9 de outubro de 2011

O esquisito

Não era like a rolling stone, nem tinha as melhores notas da sala. Sua cabeça era um tanto quanto grande, suas orelhas pareciam duas folhas de parreira prontas para o abano, tinha o sorriso metálico, mais mesmo assim admirava-nos com seus esforços contínuos e otimistas de pronunciar as palavras corretamente. Sempre era o primeiro a chegar na aula, afinal, sua residência não ficava mais que duzentos metros da escola, caminhada suficiente para ruborizar suas enormes bochechas e deixá-lo arfante por alguns minutos, os quais ele preferia passar sozinho, olhando pra algum ponto fixo da sala ou lendo algum livro de ficção científica. Tocado o sinal do intervalo, ele era o último a respeitá-lo; após cinco minutos levantava seu traseiro gordo e rastejava-se até o bebedouro mais próximo, encarava com certa altivez as pessoas que lhe fitavam com ar de desprezo ou inconformidade, ele entendia muito bem o que se passava ali e até brincava, pensava que pelo menos as pessoas o olhavam pelo que ele era, e não tão somente pelas suas roupas, seus calçados e outros artigos essenciais no julgamento de uma pessoa nos tempos modernos. Me lembro de quando apliquei uma redação onde pedia que fossem descritos os sonhos de cada um, podia ser qualquer coisa, exceto a paz mundial e um dia com seu cantor favorito. Estranhei sua rapidez em terminar a prova, pois geralmente ele levava duas, três vezes mais tempo que os outros alunos. Foi quando resolvi verificar o que acontecera. De fato, a prova continha um ponto final, o estranho é que o ponto se localizava pouco antes do fim da primeira linha das outras vinte e cinco que vinham atrás. Ele havia escrito pela primeira vez à lápis, coisa que sempre fazia visando levar mais tempo na realização da prova, talvez motivado pelo medo de ficar mais de três minutos fora da sala. Com a caneta, contornou: "Dois de creme, um de nata e outro de goiabada, por favor."

6 de outubro de 2011

A rapariga loura e seus sushis

Ao mesmo tempo que eram unha e carne, também eram unha na carne. O faqueiro da casa não possuía lâminas tão afiadas quanto as dos maldizeres proferidos a cada conclusão de ciclo, nem as rosas eram tão cheirosas quanto o perfume das palavras contidas nas cartas de reconciliação. E era de fato assim, o néctar daquele sentimento não existiria se não houvessem podas regulares com pequenas primaveras a ordenar sua nova redenção. Aquele amor, servido pela garçonete do restaurante japonês e apreciado pela rapariga de cabelos louros, fugia de toda e qualquer interpretação. Como podia ser feito de amor, dor, torpor, temor e ainda ditar regras, caminhar na chuva, levar na estação-tubo, dizer que ama e mesmo assim dizer que não ? E toda vez que se abraçavam de volta é como se estivessem voltando ao primeiro dia em que se abraçaram mais forte, talvez um abraço tímido, mas com o desejo de cumprir no segundo o que deixaram de demonstrar no primeiro. Mesmo sabendo que why she had to go, I don't know, she wouldn't say, partiam inseguras e discretas pro ato final, que logo voltaria a ser prólogo e assim por diante. Pelas armadilhas do tempo, ainda há quem questione: será que a rapariga loura só queria comer sushis ?

1 de outubro de 2011

Desconhecidos

Um dia passarás do outro lado da alameda, caminhando com os passos pra dentro, teu velho all star vermelho e o cheiro de baunilha a dissipar pelo poluído ar. Não me olharás como preverei antes de ver-te, esquecerei dos infortúnios do passado e em questão de segundos pensarei que poderias naquele segundo lançar um olhar em direção a mim, o qual seria suficiente pra fazer daqueles segundos os melhores do dia. Todavia não me olharias, nem que fosse de relance, não dando chance pro destino insistir em resistir ao que já havia perdido força há muito tempo. No entanto, me alegraria a sensação de ter te visto, embora soubesse que era o ingresso para outro dilema a se argumentar com os botões antes de dormir. Minuciosas e sorrateiras seriam as lembranças tuas: o teu cabelo com talco, os teus mais obscuros segredos, o teu karma desregrado. Você.