21 de dezembro de 2012

Doce tortura

Gulosa, ela abocanhava um pomposo brigadeiro e pensava, melancólica, no seguinte. Foi loucura dela entrar naquela confeitaria lotada, sabido que não gostava de compartilhar a mesa, dirigir-se ao balcão refrigerado, ter uma epifania e pedir três éclairs de chocolate e uma coca. Apesar disso, nada lhe era mais doce que uma bala de goma achada no bolso, uma porção de torteletes de limão deixadas pelo último cliente ou a metade do brigadeiro numa dentada apenas. Observava na parede  inúmeros diplomas de melhor confeitaria do ano, expostos e bem emoldurados, a contentar o instante em que atulharia na boca guloseimas tão blasfemadoras. As vorazes garfadas e goles de coca alternavam-se e com a língua hábil, sortia em êxtase quando encontrava resquícios melosos nos dentes, sempre vigilante caso a fulana ao lado se distraísse com o seu show glutão. Em seu dedo não tinha aliança, mas um  pouco de creme, desferido no penúltimo doce.

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