E hoje completaria sua 93ª primavera, louvando seu Deus e cantarolando corinhos, cantigas e marchinhas dos idos de 40. Se fizessem-lhe um almoço, seu bolso voltaria carregado de carne envolta no guardanapo, já que preferia não mastigá-la na frente dos outros pois seus dentes já não eram tão fortes. Tomaria algumas taças de vinho e acusaria, exaltada, os vivaldinos que denegrissem a imagem do seu maior ídolo, Roberto Requião, ou de qualquer outro emedebista de guerra. Se recordaria das bicas de Castro e das lavadeiras na margem do rio Iapó; das primas carolas que faziam de tudo pra arranjar um par de calças; da cretina Áurea, que roubou-lhe Terêncio, um bajulador que gostava de fazer dedicatória no hinário das moças da Congregação; do estouro da boiada vindo em sua direção que fez-lhe empoleirar numa árvore, deixando cair seus livros de inglês ao chão. E voltaria a falar de política, desta vez sobre aquele aumento do ordenado tão preterido: pauta de discussões longas entre as aposentadas da família. Será eterna a lembrança dos seus cabelos brancos — que eram cinzentos e isso não se discute — do seu charme provinciano ao cruzar as pernas e fugir da norma culta quando ia dizer. Inenarrável permanecerá a sua história que, na memória, reside num altar opulento onde és majestade e não passas de uma espevitada menina.
27 de setembro de 2012
25 de setembro de 2012
Cecílias de agosto
E suas memórias pareciam vãs, já que conseguiu ver-se livre daquilo que já não tinha utilidade. Mais precisamente quando não notou quem sempre fez-se presente, ausente de qualquer inclinação da sua parte. Nunca mais escreveu cartas. Trocou seu perfume pelos miasmas de eternos agostos. Despiu-se na porta da Igreja, causando enorme alvoroço. Ainda ontem merecia uma flor; hoje merece uma coroa de louros, pelo crescimento acentuado na taxa de desvalorização, apontada em levantamentos recentes. Verga-se compadecida por ter optado pela meia-volta e prossegue debatendo-se contra as paredes, derrubando os quadros e estragando a mobília, a expensas de um sossego fajuto que cruzou a ponte da amizade sem revista. Com sua mais inculta modéstia, pinta a boca e realça os cílios como se pintasse o mesmo quadro todo dia. Até parece que não precisa de mim.
Por
Willian Aust
20 de setembro de 2012
Eleições 2012: Quatro perguntas para Rafael Greca
Candidato à prefeitura de Curitiba, Rafael Greca é engenheiro, urbanista, poeta e historiador. Já foi deputado estadual e federal, ministro do Esporte e Turismo na segunda gestão FHC, secretário de Estado e prefeito de Curitiba entre 1993 e 1997. Entre suas principais realizações estão os Faróis do Saber, cartões postais como o Parque Tanguá e o Bosque do Papa e o primeiro restaurante popular do país. Greca respondeu-me algumas perguntas:
A geração nascida
nos anos 90 cresceu assistindo nos horários eleitorais projetos futuristas para
o metrô curitibano. Caso seja eleito, o senhor pretende colocá-lo finalmente em
funcionamento ?
O metrô curitibano pode ter 5
vezes mais rentabilidade se - ao invés de um túnel de 12 km entre o Pinheirinho
e o Centro - tiver 60 a 75 km de percurso aéreo ou de superfície. Claro que
quero fazer. A minha diferença do atual prefeito é que a obra dele é para 10 a
15 anos de conclusão. A nossa em 3 anos fica pronta.
Curitiba não tem praia, mas possui belos
bosques e parques. Na Fundação Cultural de Curitiba, o senhor idealizou dez
parques que hoje são cartões postais de beleza peculiar. Quais suas propostas
para o lazer do curitibano ?
Curitiba pode ter mais 50 parques, pois tem 99 bosques nativos preservados desde 1970. Quero fazer pelo menos 2 parques espaços culturais: um dedicado ao continente de Godwana, nossa América quando era unida à África. Temos aqui o acervo geológico de Reinhardt Maack, alemão com família curitibana, explorador tanto da Namíbia - onde descobriu grutas pré-históricas - quanto do Rio Ivaí, do Rio Tibagi, do Rio Piquiri, do Rio Paraná e do nosso Rio Iguaçú. Em Godwana, antes do Dilúvio, já frutificavam e floresciam as araucárias, nossas árvores pré-históricas. O outro parque que quero fazer evocará os 100 anos da Universidade Federal do Paraná, a primeira do Brasil, glória de Curitiba. Que tal uma universidade de arame, sugerindo o prédio com cúpula de Bergonsen e Baeta de Farias que foi demolido para dar lugar ao atual prédio monumento da praça Santos Andrade?
Curitiba pode ter mais 50 parques, pois tem 99 bosques nativos preservados desde 1970. Quero fazer pelo menos 2 parques espaços culturais: um dedicado ao continente de Godwana, nossa América quando era unida à África. Temos aqui o acervo geológico de Reinhardt Maack, alemão com família curitibana, explorador tanto da Namíbia - onde descobriu grutas pré-históricas - quanto do Rio Ivaí, do Rio Tibagi, do Rio Piquiri, do Rio Paraná e do nosso Rio Iguaçú. Em Godwana, antes do Dilúvio, já frutificavam e floresciam as araucárias, nossas árvores pré-históricas. O outro parque que quero fazer evocará os 100 anos da Universidade Federal do Paraná, a primeira do Brasil, glória de Curitiba. Que tal uma universidade de arame, sugerindo o prédio com cúpula de Bergonsen e Baeta de Farias que foi demolido para dar lugar ao atual prédio monumento da praça Santos Andrade?
O centro histórico da cidade, a colina do alto de São Francisco. Ali, fui coroinha nas igrejas. Ali joguei bafo disputando figurinhas premiadas nas esquinas. Ali corri de carrinho de rolimã, o avô do skate, ladeira da Almirante Barroso abaixo. Ali saboreei as delícias da padaria América nos tempos do padeiro Bruda e de dona Elza Engelhardt. Ali dancei meus primeiros bailes nos salões vienenses do Clube Concórdia. Ali vi o mercado de carroças com as colonas oferecendo hortaliças em seus últimos dias.
Qual sua mensagem para a juventude e o que ela pode esperar do Rafael de Curitiba ?
Uma cidade confortável para os jovens, onde os jovens serão protagonistas, sujeitos da sua própria história. Uma cidade divertida e culta, moderna e justa. Wi-fi, Hi-tech, wireless ligadona.
9 de setembro de 2012
Zelo
Amou de verdade
Como se não houvesse a parte
Em que tivesse que se rasgar
Simetricamente
Pela metade
Como se não houvesse a parte
Em que tivesse que se rasgar
Simetricamente
Pela metade
Amará, zeloso
Inteiramente
Inteiramente
Como se fosse gozozo
Viver eternamente
Assim, clemente
Assim, clemente
4 de setembro de 2012
Os novos dias do senhor D.
Senhor D. gostou de sua nova casa, sobretudo da varanda. Esticado na rede, sentiu-se legitimamente paranaense tendo no quintal uma araucária imponente. Seus dedos palmilhavam texturas novas, seus olhos vislumbravam o vermelho das cadeiras e de todos os objetos em madeira e até sentiu-se íntimo dos pássaros que folgavam nos fios do poste e nos galhos corpulentos do pinheiro. Em cima da cabeceira, colados quatro cartazes de filmes, estava decretado: ali repousava Senhor D., outras provas disso eram a escova de dentes sobre a pia do banheiro, a cópia genérica de Roy Lichtenstein na sala de jantar, o banner do Senhor dos Anéis na parede da sala e a noiva do Kill Bill, em papelão, atrás do abajur estilo iluminação pública. Seus olhos se debruçavam copiosamente sobre os novos dias, com o sol adentrando pela janela e secando as roupas no varal.
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