26 de março de 2012

Manoela

Merece sorrisos, acenos sensíveis e flores da serra, um par de brincos pra adornar suas orelhas e um rouge nas bochechas pra que os marmanjos se encantem por ela. Desce Manoela com descuido pelas ladeiras e ruelas, o vestido ousado ressalta um corpo franzino, as pernas tão magrinhas, abóbora é a cor do cabelo dela. Quando atravessa a rua, atrai suspiros e espanto, no entanto, é impossível desfrutar todo seu encanto só numa olhadela. Entreolho e ela vai, fulgurante a emergir sob o aspecto opaco da praça deserta, contrastando-se com folhas secas, bancos vazios e poesias concretas. Quando seu vulto perde-se por trás do chafariz, o que resta é rezar por Manoela. Pra que possa encontrar o que tanto procura, sem que precisem procurar por ela. 

25 de março de 2012

Erato

Você é uma graça, com todo respeito. Sentada na praça, penteando o cabelo, comentando a desgraça dos desamores fiteiros. Percebi de longe seu rubor, seus lábios polposos e seu olhar candongueiro, enquanto isso suas mãos delicadas traziam-me uma cerveja gelada e alguns biscoitinhos. Sem rodeios, ela logo adentrava e me fazia acreditar que a conhecia há tempos, devia ser o jeito  que ela em mim completava, devia ser uma coincidência astrológica ou quem sabe isso não devesse ser discutido. E depois de instalar mil refletores e soletrar o mesmo nome no escuro, seria franciscano acreditar que novas musas queriam apreço, já que as antigas pareciam entrevadas em seu eterno silêncio.

16 de março de 2012

21 de março

E parecia ontem que ela estava sentada naqueles gélidos degraus de uma escada predial que servia como esconderijo da última tentativa frustrada de lutar por uma provável felicidade plena. Esquecida e oprimida, enlouquecia no afinco das premissas do seu maior receio: permanecer apática a e censurada por suas dúvidas temíveis de como prosseguir. Buscava decorar frases previamente formuladas para enaltecer seus argumentos de fragilidade e busca de compreensão, por mais insólita que permitisse ser empregada. Na exuberante reflexão do desespero, contrariou toda e qualquer faculdade mental ao querer entender seu incompreensível coração, cujos objetivos estabelecidos eram incompatíveis às exigências de outrem, sendo assim, inadmissível prosseguir, mesmo com todas os esfolos e reticências dadas a temas relevantes. Hoje permanece ininteligível, carente de desejo de interpretação, irresoluta e ao mesmo tempo faz pensar se.

O poeta

Poeta é aquele que se entrega, sendo vítima do próprio desespero que impregna, que o seduz, que solemente se resume em dar trela pr'aquilo que tanto lhe afeta, que lhe deixa ruborizado ou transtornado diante daquilo que lhe reluz, introduz ou reverbera. Com tantas musas e desculpas, o poeta se faz de preguiçoso e incorpora o que lhe resta; sejam migalhas de amor ou regalos de uma festa. Por hora, sabe-se que ele não tem pressa, mas enquanto houverem refrões musicais persuasivos, especularão quanto tempo lhe resta. O poeta não pede perdão, escrevinha. Em suas preces faz poesia, de sua vida faz verbetes, em seus receios planeja rubra solidão, no recreio observa o destempero dos coleguismos em vão. Ora ele chora, ora ele ri, é feito de encanto e de eternos fins, tem coração franciscano e admite que é inseguro, mas não resiste em expressar o que lhe deveras é astuto. Afina o dissonante esfarrapado e compreende seu consoante anseio de ser mal interpretado. Ruboriza bochechas alheias, enche de lágrimas olhos ressecados, na mata densa abre clareira e em corações gelados promete afável afago. 

15 de março de 2012

Ano dos dragões

Depois das insanidades do carnaval, Cecília precisava de um pouco mais de folia pra camuflar seu samba-canção desafinado. Como era do seu feitio, tornou a ajustar suas relações bilaterais com as lacunas de sua psique, resgatou antigos costumes como abraçar seu velho amigo Ludovico e, como se não bastasse, resolveu virar consumista. Agora além de desafiar as leis da física quântica, ela também desafiava o limite do cartão de crédito e das suas taras de garota inserida. Quem sabe assim ela pudesse se refugiar em páginas novas, bem longe das histórias mofadas que estava acostumada, cujos finais infelizes eram sempre felizes. Enquanto folhas novas chegavam prensadas, folhas velhas iam se desquitando das suas bainhas e deixando empregadas estupefatas de tanto varrer a calçada. O tempo lá fora parecia feio. Acostumada com tempestades e em esquecer a capa de chuva, ela resolveu dançar sob as poças d’água da avenida. Encheu os pulmões e quando gritou, tossiu. 

13 de março de 2012

A donzela da janela

Ele só queria ter uma janela frente à dela, para que nos dias de inverno ele pudesse dormir quentinho e quietinho, pensando no retrato da face dela. Ele precisava somente de um suspiro, mas pensativo, quedou-se também necessitado dos beijos da donzela, que de tão bela, fazia-o abraçar o travesseiro. Ela sabia ser gentil, suas mãos eram afamadas pela maciez de sua doçura juvenil e no conjunto da obra também expunha lindos olhos pacíficos pactuados com um sorriso que debutava uma nova primavera a cada gracejo do seu recato pueril. Ele só queria fazer morada no jardim da moça, para abrir-se em flor a cada olhar disparado por retinas tão sublimes e sem regimes, dizer que era dela seu desajeitado coração.

11 de março de 2012

Quem diz é o espelho, quem chora é que peca

A palidez da pele envelhecida camuflada pelo rouge e os mil cosméticos, ofereciam-lhe certo prazer pretensioso diante do espelho. Em seus pulsos, pulseiras suntuosas de preço exorbitante logo de cara e nas orelhas carregava o triunfo, sua nova aquisição no mercado de joias. Dos seus lábios a madame era perita, não poupava o carmesim e o aspecto envernizado. Das curvas incorretas do seu corpo caído ela extraía pretexto pra enfurecer-se com o mundo que outrora exaltava seus seios, cada perímetro de suas pernas, a maciez dos seus louros cabelos, outrora preferia essas volúveis que estampam revistas de fofoca e dieta. O sorriso ensimesmado dissimulava seu eterno desgosto de nunca ter sido interpretada, cansara de ter sido personagem da cantiga de um mudo, estrela de uma constelação imodesta. Em sua reta final, não sabia afinal qual era seu público, se era o de nobres eruditos ou de empregadas domésticas.

6 de março de 2012

Filipa

Pétala de margarida a voar
Bem querendo ou não
Despedaçada ficará
Estrela minguada
Apaixonada e sem tempo
Vaga pela eterna noite
Do seu efêmero momento
Recatada princesa
Musa de trovas e poemas
De manhã senta-se à mesa
Com seu robe florido
De noite joga-se na poltrona
Com seus sonhos entre os dedos