5 de dezembro de 2013

Rebaixada


Não bastando viver no país onde se constroem mais arenas que escolas e hospitais, tinha que morar cidade onde a reforma — reforma — de um estádio para a Copa do Mundo, era a mais problemática dentre as doze cidades-sede do mundial. Toda vez que vou ao Centro, passo em frente à Arena da Baixada. Até agora, o seu entorno continua o mesmo. A Getúlio Vargas ainda tem ares de Transamazônica... uma camada de asfalto não precisa ser colocada às vésperas do evento para transparecer a impressão de estar mais fresquinha. E a praça Afonso Botelho? Um grande espaço de lazer, deteriorado pelo lavar-das-mãos do poder público — talvez cansado de melhorar as condições da praça e ver que é o vandalismo quem toma a decisão. Curitiba parece já ter tido mais sorte no desenvolvimento de projetos eficazes e inovadores. Hoje consta em vexatórias manchetes, se fazendo de qualquer-cidade entre São Paulo e Porto Alegre.

15 de agosto de 2013

Paul, o mais brasileiro dos alemães

Era sempre o último a chegar à sala. Com sua corpulência toda, esparramava-se no sofá e dava o play num reggae ou hiphop alemão. Descabelado, ele contava como fora o seu dia, como era o pessoal da faculdade, o que tinha achado de tal guria ou daquele piá, as diferenças entre sua pátria amada Alemanha e o sucateado e insuspeitadamente gelado Brasil. Por alguns minutos, mantinha-se em silêncio, atento à tela do seu notebook, então levantava-se do sofá e voltava ao seu quarto, às vezes sem despedir-se. Durante o dia, geralmente dormia e só despertava de noite, com fome. Comia arroz com shoyu, arroz com legumes, macarrão alho e óleo, pão baguete chafurdado no requeijão. Quando em uma churrascaria, deleitava-se ao ver o garçom, vindo em sua direção, com um majestoso pedaço de alcatra à mão. Nas noitadas, ele era ponto de referência: um vistoso totem louro que atraía o olhar de todos, fosse pela fisionomia incomum ou pela sua grandeza. Embora não fosse de evidenciar seus sentimentos, era impossível não afeiçoar-se a ele. Teve uma vez que ele falou para um amigo que chegava à sua casa: "que bom que você veio, saudade!". O amigo deteve-se pensativo: nunca que um alemão desse tamanho poderia sentir saudades minhas. O prazer da companhia dele superava quaisquer entraves idiomáticos. Seus ouvintes eram atingidos por um misto de graça e orgulho, quando, instável, ele arriscava falar português. As frases eram um pouco inexatas, mas compreensíveis, e o sotaque, genuinamente gringo. Ontem, o dia da partida dele chegou. Era sabido que cedo ou tarde aconteceria isso nessa vida cheia de prazos. Acreditando que o veria antes do seu voo programado para às 19h50, dei-lhe um abraço que considerava ser o penúltimo. Ele acabara de emocionar-se ao receber uma bandeira brasileira contendo dezenas de dedicatórias saudosistas dos amigos que conheceu aqui, e, insolitamente, lágrimas se esvaíram dos seus pacíficos olhos. O penúltimo abraço foi difícil, afinal, antes dele, outras coisas ele havia feito pela última vez, como cozinhar seu macarrão apimentado, sujar a cozinha, executar uma música da sua playlist de músicas brasileiras, sentar-se à mesa, acariciar o gato, etc. Ninguém desejava aquilo, mas ele levantou-se, despediu-se e foi para o seu quarto, levando consigo a cintilante e rasurada bandeira do Brasil. Na tarde seguinte, receberia a trágica notícia de que o voo dele havia sido adiantado pela companhia aérea, o que obrigava-o a viajar antecipadamente. Com isso, não seria mais possível acompanhá-lo até o aeroporto para aquela despedida mexicana e emotiva. O penúltimo abraço foi eleito o derradeiro, à contra gosto. Agora, gostaria de estar sentado no sofá da sala dele, aguardando ele chegar, para dizer: "Estava com saudades. Trouxe cerveja?"

1 de julho de 2013

Não foi um junho qualquer

                                                                (foto: Amanda Queiroz)
Um triunfante mês de junho trouxe ao Brasil as esperanças que haviam sido extraviadas há muito tempo e uma estação de flores após um inverno que parecia ter sido eterno. Haviam nas ruas mais cartazes de protesto do que bandeirinhas juninas e as quadrilhas não eram de dança, mas de arruaceiros depredando o patrimônio público. Mais delicioso que vencer a Espanha na final da Copa das Confederações, foi ver a sociedade brasileira, a plenos pulmões, entoar a mudança que queria assistir. O preço da passagem de ônibus que paga todos os dias até a hora que fica adoentada e sofre para ser atendida no postinho, surtiu na inundação humana das ruas mais simbólica desde os tempos da recém-nascida democracia. Antes, o jogo da seleção brasileira era desculpa para transferir a votação de um projeto nas duas casas do Congresso Nacional para outra data. O que mais importava o Governo era articular a todo custo sua permanência no poder e produzir campanhas publicitárias mostrando 'um Brasil róseo', como falou um líder da oposição. Mas o patrão ficou furioso; cansou cada biênio ter que contemplar o sorriso trampolineiro dos candidatos na urna eletrônica e continuar enfrentando os rotineiros ônibus custosos e lotados, assistindo alunos a escrever piadas em redações e não amargarem um redondo zero, o atendimento subsaariano no hospital onde faltam gazes, seringas, médicos. O mesmo grito valia para a oposição —que também governa—, contra a discrepante distância entre os anseios do povo e os ouvidos dos políticos. Até contra o PSTU, que já é contra tudo. Prestes a cair na goela do lobo, o Congresso cedeu à voz do povo e apressou a votação de projetos há anos engavetados, fazendo o jogo da seleção brasileira parecer menos importante do que nada mais que a obrigação. Dilma, que ordena o comandante do seu avião oficial fazer longos desvios de rota para evitar turbulências, não imaginava que seu cálice transbordaria tanto numa convulsão em terra firme. Dito e feito. Nunca leu-se uma sequência de manchetes tão bem-vindas numa mesma semana: recompensa justa para quem trocou o ativismo virtual pelo presencial. Foi bonito o país vibrar uma impensada vitória no futebol, em casa, numa das grandiosas arenas que dispensam fossos e grades entre a arquibancada e o campo. Entretanto, os protestos dos últimos dias deixaram evidentes a vontade dos brasileiros em serem árbitros do próprio futuro e o lembrete de que nesse campo só admitirão quem tiver chances de emplacar um gol certeiro.

10 de junho de 2013

São, São Paulo

São Paulo tem cheiro de comida, além de escapamento e flatulência em alguns pontos. A fartura não se restringe às opções nos cardápios dos bons restaurantes e está presente em tudo: na quantidade de usuários do metrô, nas largas calçadas da Avenida Paulista, na altura dos arranha-céus, enfim, São Paulo é multiplicada por 10 para olhos acostumados com a pequenez de outras grandezas. Num restaurante da Augusta com a Luís Coelho, as massas faziam fila e geravam um congestionamento no estreito corredor do lugar só para tirar fotografia com um Jack Sparrow bem caracterizado, que compensava no figurino a semelhança que seu rosto não exibia. Na cidade onde tem-se de tudo, é sabido que o tudo não é para todos, o que não impede um morador de rua de ler um livro debaixo de uma marquise, aquecido por um cobertor de mudança e iluminado pela iluminação pública e os faróis dos carros presos no engarrafamento. Embora não seja uma regra, a simpatia brasileira é mais inerente acima do Trópico. Aos que vivem abaixo dele, chega trazer rubor a mais inesperada atenção dada por alguém. Um desses momentos foi quando, após eu comentar com um amigo que gostava de ouvir a canção que tocava na rádio, a funcionária de uma loja de conveniências de um posto disse que havia colocado a música só por minha causa. Após contemplar meu misto de admiração e surpresa, subitamente ela disse: "Brincadeira! A rádio toca boas músicas mesmo". De perto, vislumbrei os traços de Anita Malfati, Almeida Júnior, Portinari e Di Cavalcanti. Também ouvi jazz na praça da Luz, badalado endereço da prostituição da terceira idade. Num cubículo intitulado "La Peju", as mesas sobravam e os frequentadores caíam no samba que ia de Elza Soares à (infelizmente) desconhecidos; num mural de isopor, brincos e palitos de dente fixavam amistosos bilhetes amarelados da década passada. São Paulo é um sonho que exige máscara de oxigênio. Foi tudo azul, na melhor cidade da América do Sul.   

24 de abril de 2013

Trilhos do regresso


Problema crônico que não poderia ser admitido na sétima economia mundial, o caos do sistema de transportes só salienta o despreparo do Planalto em realizar grandes obras estruturais; projetos de primeiro mundo inundam as campanhas publicitárias do PT e fazem geminar no coração dos brasileiros a esperança de novos tempos na locomotiva do desenvolvimento. No fim das contas, brasileiros persistem empilhados uns sobre os outros nos ônibus urbanos, as rodovias concessionadas se mantêm tão custosas quanto congestionadas e os trens, trens-bala, metrôs de superfície e VLTs não passam de sonhos bons, ao passo que o gasto para transportar a fatura das nossas lavouras aumenta ano a ano. 
Em breve, o norte do Paraná será interligado pelo "Trem Pé-Vermelho", uma ligação ferroviária regional que transportará passageiros entre as regiões metropolitanas de Londrina e Maringá. A ministra Gleisi da Casa Civil, braço direito da presidenta e provável candidata ao governo do estado, obviamente torce para a consolidação do projeto, afinal, esses trilhos podem ajudá-la a chegar com mais tranquilidade ao Palácio Iguaçu. Serão aproximadamente 150 km que atenderão 36 mil passageiros por dia, beneficiando uma das mais férteis e desenvolvidas regiões do país. Interesses políticos à parte, é importante salientar os benefícios que obras como esta trazem a uma região, seja na geração de empregos, na mobilidade dos passageiros ou no saturado trânsito rodoviário.  Além desse, com menos avanços, outra dezena de projetos ferroviários regionais estão em estudo. Uma pena que o Brasil se locomova pelos trilhos da incerteza sustentado pelos dormentes do não-se-sabe-quando.

28 de março de 2013

A grande festa brasileira

Finalmente o ano começou no país das antas, refrões sem nexo e da desnorteada Glória Perez. Enquanto a novela das nove caminha pelas trevas teledramatúrgicas, as minorias se esgoelam na vida real para não serem representadas por um fundamentalista que chegou ao poder como a Morena na Turquia. Direto da bancada que mais atrasa o avanço dos direitos civis no país, Feliciano caminha sorridente pelos corredores do parlamento como caminham corruptos, ladrões e aspones, achando que não devem nada a ninguém, muito menos pra 190 milhões. Tem papa novo no pedaço e é do país da Kirschner: além de pedir sua bênção e proferir que nunca foi beijada por um papa, a presidente argentina ainda pediu ajuda ao conterrâneo na política externa do seu país, "a Europa das Américas". Regina Casé não te chamou pro programa dela? Tudo bem, embarqueis num Inter 2 lotado e aguardeis sempre o desembarque. E o Beto Richa mão de vaca, não querendo dar o embalsamado subsídio pro busão de todo dia? Na gestão passada, só faltou construir 400 metros de telefone sem fio interligando o Palácio Iguaçu ao Palácio 29 de março, a fim de combinar com o bairrista Ducci um whisky ou um churrasquinho de povo. Continuemos sendo jocosos com o sobrenome do nosso atuante e neoliberal governador. Renan Calheiros deve ter enviado um cartão de agradecimento ao Marco Feliciano junto com bombons de licor e flores colhidas nos campos de bulbo da Holanda, pagos com o cartão corporativo, é claro. A tarifa, a popularidade da Dilma, o tabaco, a tara do Silvio Santos e o furor contra o Planalto aumentaram, ao contrário da paciência do brasileiro, que tem cruzado a congestionada Ponte da Amizade pra ver se encontra uma nova, com menos impostos. O ano só começa mesmo quando o BBB acaba, felizmente não vimos Arlindo Cruz sentado na bancada do Jornal Nacional, cantarolando seu samba da globalização. 

4 de fevereiro de 2013

Âmago

Nada mais necessito
Quando em seus braços existo
Tudo que mais desejo
São infindáveis beijos
Nada mais entristece
Quando a dor enaltece
Pudera eu, tão modesto
Curar seu ferimento
Roubava uma estrela
Só para enfeitar sua cabeceira