29 de dezembro de 2011

Água em pedra dura

Se lembra daquela vez que eu te descrevi como uma lua ? Hoje tenho certeza que eu me referia à uma das luas de Saturno. Eu sei que sua vida mais parece uma torta de maçã envenenada: quem dela provar, para sempre será sentenciado ao dissabor das lembranças tuas. Mas me recordo das suas promessas benevolentes de vida fácil, oferecendo grandes latifúndios e poder coronelista aos que seguissem, à risca, o teu passo desajeitado pelas encostas lodosas do teu miocárdio hesitante, notava seus medos tão externados que mais pareciam livros mofados colocados numa majestosa estante na sala de estar, e o teu brilho apagado, escondido atrás do novo penteado. Enquanto as bocas falam, o silêncio do seu descaminho te afronta com ímpeto, até que suas promessas descomedidas acabam se tornando meticulosos davaneios. Você sabe que ouvirá aquela música várias vezes, e que findada, os fantasmas ainda estarão ali lhe pedindo mais uma xícara de chá, quem sabe alguns biscoitinhos e alguns lençóis limpos. Parece que a estadia de apreciação do verão sulista foi prorrogada. Apesar das mãos cordiais, deve-se frisar que não detecta-se nenhuma ferida quando se está usando luvas. Deixe os espinhos para os ouriços e as roseiras, as luvas pra quando você for atender seu orquidário e as mãos cordiais, aceite-as. Bem sabemos que elas ainda irão segurar um buquê de rosas secas, atirado pela noiva que vestia preto.

28 de dezembro de 2011

Minha senhoria


Ela poderia não estar ali e mesmo assim estar sentada com as pernas cruzadas, segurando a primeira página do 
Estado do Paraná, lendo a notinha do Campana sobre mais um fiasco do Requião e depois proferindo um incontestável: “Seu vivaldino”. Hoje ela não estava ali. Fez falta ouvir a deixa “que nos ensinou a orar dizendo” para o Pai Nosso no término da sua profunda e agradecida prece. Fez falta não vê-la colocar um pedaço do peru dentro de um guardanapo e depois escondê-lo no bolso do seu casaco cinza. Curiosamente, esse ano teve strogonoff. Fez falta levar sua sobremesa, acariciar seus cabelos prateados e ver seu sorriso magistral esparramando-se pelo seu rosto amorenado e ouvir sua velha afirmação sobre seu hálito: “É o estômago”. Foi necessário não tê-la presente para sentir que ela sempre esteve ali; ela me sorriu esses dias num sonho e eu acordei rindo. Talvez ela esteja caminhando, sentindo o cheiro dos temperos que saem pelas janelas abertas, cantando cantigas singelas, escondendo no bolso alguma guloseima, um confeito, uma coxa de frango e sorrindo, como quando chorava.

14 de dezembro de 2011

A experiência taurina


Camuflava o seu vivo dourado com a cor do pecado e caminhava sem gentileza, esperando  a sexta-feira, quando encontraria seu amado num café aristocrático, atrás de um sofá de couro, numa daquelas três mesas. Uma risadinha leve, seus olhos contorcidos de incerteza, já não era ela quem cavava os buracos: eram eles que se abriam diante do seu passo sem firmeza. Os roedores insistiam em mastigar seu tempo, as loucas lhe pediam um momento, seus espectros je ne sais pas, embora eu soubesse que ela aguardava, ansiosa, a sobremesa que nunca chegava. Esmagada, revigorava-se com o brilho pueril das fotografias amaçadas, das noites abrasadas, dos lenços que viraram pano de chão e do vazio que tornara-se tão nítido quanto uma companhia. Não vendo outra forma de manter o recato, pintou de vermelho seus lábios, penteou o cabelo escarlate, pediu pra puxar o zíper do seu vestido bolchevista e perguntou “Estou bonita ?”. Fiz que sim com a cabeça e confessei “Tenho receio”, mas aí já era tarde. Ela preferia cuspir no prato do que lavá-lo com as últimas gotas d’água do seu cantil de cachaceira. Quando abriram a porteira, a multidão gritava alto, receptiva e lisonjeira. Cecília, que não era especialista na arte tauromática, percebeu logo que o bicho não era manso, muito pelo contrário, era o diabo que feito bovino, lhe fitava sem nenhuma sutileza. Ela então abriu os braços, prendeu os cabelos e vendo a fera tentou manter a calma, o que sempre era tido como uma incerteza. O animal correu no ato, atingiu em cheio seu peito cálido, agitando toda a arena. Foi quando acordou e viu que não se passava de um sonho mal educado que lhe afligira a noite inteira.

11 de dezembro de 2011

Honey Baby

Longe da sua morada, chorava por não haver nada que fosse, assumidamente, aquilo que seus olhos gostassem de ver. Embora as notícias não fossem boas e os remédios estivessem caros, sobravam resquícios de felicidade escondidos no canto dos olhos que não cansavam de vê-lo nas manhãs de domingo. O colchão afundado e a mão que permanecia aberta sob seu peito, o coração palpitando forte, sôfrego, ininterrupto. Tudo aquilo não era nada. O suficiente pra tornar os olhos castanhos, verdes.

8 de dezembro de 2011

Marechal de Ferro

Seria de extremo mau gosto cultivar a ilusão de encontrar alguém que pudesse tomar conta de todas as suas fraquezas e frustrações. O objetivo nunca havia sido esse, é claro, ela só tinha alguns medos bobos, as unhas desfeitas e um copo de café bem adoçado. A paisagem estava bonita e limpa. Alguns estranhos passavam à sua frente, dois vieram pedir-lhe uma moedinha, um outro o seu isqueiro e outro alheio queria saber como chegava no Terminal do Guarda Lupe. Mantinha em seus pensamentos aquele que fazia seus dias felizes; ela sabia que precisava deixá-lo também sentir medo. O gesto involuntário de amá-lo enaltecia o desejo de tê-lo ainda mais no dia seguinte, mesmo que este fosse um domingo chuvoso, com os colegas do vizinho sentindo-se em casa e berrando, gorfantes, pelo condomínio a vitória do time do peito. Desejou boas festas ao Marechal de Ferro, imortalizado num busto em pedra-sabão que também servia como toalete de ovíparos voadores, cumprimentou Tiradentes, que de longe parecia um guerreiro farrapo, atravessou a rua distraída e só se deu conta da sua desatenção quando um automóvel vermelho freou bruscamente, vindo em sua direção. Escutou três estridentes buzinadas e alguns insultos comumente entoados por motoristas que deveriam fazer autoescola nas ruas de Nova Délhi. Ela continuou andando, sem virar para trás. Enquanto isso, aquele que fazia seus dias felizes construía uma canoa para duas pessoas.

6 de dezembro de 2011

Ilustre desconhecida

Tudo parecia muito caricato sem o mal súbito da sua mente suspeita de suicídio. Foi então que seu corpo despencou de si mesma, como se sua própria mente furtasse todo o equilíbrio que a mantinha em pé. Suas mãos trêmulas apertavam, inseguras, qualquer pedaço de matéria que viesse assegurar a prudência que naquele momento inexistia, suas pernas contorciam-se de medo, o chão parecia confortável o suficiente para acomodar suas mágoas e dilaceramentos. Seu acompanhante, com um heroísmo que não lhe era de praxe, acomodou-a em seus braços e defendeu-lhe dos monstros e das potestades noturnas, embora parecessem fadas e teletubbies diante dos enclausurados fantasmas que habitavam o inconsciente cada vez mais consciente da moça. Depois da sua alma ter descido ao submundo, sua respiração parecia recuperada, os olhos encharcados de lágrima e pudor escondiam qualquer vestígio de falta de lucidez que, por ventura, pudesse ter sido perpetrado. Quem cultiva bomba-relógio, colhe bomba atômica – e ela sabia muito bem disso, inclusive especulava-se que sua safra deste ano seria recorde.

3 de dezembro de 2011

Pequena Angel-a

O olhar mais utópico que já vi, era tão real quanto o mistério que o rodeava. A peculiaridade em seus trejeitos faciais se perdia na profundidade das suas olheiras adolescentes cobertas por uma fina camada de base. Por ventura, rodava uma fita do T. Rex no vídeo cassete. A voz dela de estrangeira erradicada competia com a sonoplastia imoral do ambiente, lá de fora o nublado enaltecia sua palidez que levemente se ruborizava por causa do ketchup ardido colocado no misto quente que acabara de ingerir. Tínhamos somente um guarda-chuva, alguns assuntos em comum e umas oito quadras até a próxima estação-tubo, era fim de tarde e a melancolia de domingo fora substituída pelo tédio construtivo de caminhar pela ciclovia compartilhada. Atravessando uma rua, um palhaço enganchou seus braços raquíticos nos polidos braços dela. Ele era uruguaio, parecia mal humorado – um palhaço em dias chuvosos – que cobrava singelos cinco reais para registrar para a posterioridade um retrato histórico com ele. De braços dados, ela chegou ao shopping com aquele que, apesar de ser o mais triste, foi o palhaço mais educado que já segurou seus braços.

1 de dezembro de 2011

Rainha do deserto


Tinha a boca vermelha. Elegantes cílios postiços emolduravam seus pudicos olhos juvenis. Seu casaco de general, sua calça dins rasgada, seu perfume de baunilha, os batidos sapatinhos vermelhos. Sua missão: navegar ao Novo Mundo. Não que ela tivesse espírito colonizador, nem mesmo o fato dela ter cometido massacres devem ser relevados. Ela só queria mesmo era fugir dos terremotos e furacões subtropicais, dos cruéis sapateiros, das daguerreótipistas loucas, das roupas na piscina, dos príncipes desamparados e das terrificantes tarjas pretas. Colocou dentro da mala seu mundo, surpreendeu-se ao verificar que não era muita coisa, escondeu as chaves debaixo do tapete com pegadas de barro, vislumbrou com melancolia o alaranjado imóvel que abrigou sua vida, partiu sem deixar rastros e esqueceu-se de levar a escova de dentes.