30 de maio de 2012

O último fim

Embora exista, a saudade pode preferir o recato, a indiferença e aquele olhar caricato de vilã mexicana fitando um ponto fixo. Mas difícil é admitir o desconforto, a sensação de que já fomos amigos, o pesar de que já foi-se a hora e que agora, pra te olhar, é preciso ter alforria. Não foi mais forte o dissabor da presença de outrem, nem sua influência dominadora e desregrada que se amarga a cada mexida. Tampouco a falta de tempo, o "tenho um compromisso" ou as dores de cabeça, a coriza da facínora rotina. E pensar que se equilibrava em meus sapatos para batizá-los, não para enlaçar mais fácil seus braços por trás dos meus ombros, como acreditava.

26 de maio de 2012

Gesto ridículo

Velho companheiro das tardes amargas, dobrado em cinco, fica guardado no bolso esquerdo. Enxuga o lamento e seca a tristeza; por um momento faz parecer que nada há, mas a verdade é que as lágrimas de dentro ele não pode secar. Permanece suspenso abaixo das pálpebras desalinhadas o olhar apreensivo, carregado de chumbo e desalento que não quer cessar. Cada vez torna-se mais ávida a necessidade de trazer lá de dentro os suspiros de basta e deixar por lá mesmo o silêncio que, desalmado, cumpre sua nefasta obrigação de assustar. Ameaçado, o sorriso insiste em ficar preso; ao contrário do sol, que hoje programou pique-nique na varanda e nem pensou em te chamar.

25 de maio de 2012

Retrato falhado

Menino queria apanhar borboleta e esmagar mosca. Se pudesse fazer um pedido, pedia pra fazer mais três; se não fosse atendido, pedia a cabeça do gênio. Menino tinha unhas limpas, cadarços amarrados e cabelo pro lado, lambido. Adaptava lágrimas com a saliva; pelo menos haviam lhe ensinado a ser agradecido. Menino sabia olhar, assoviar estranho e soletrar de trás pra frente, mas não sabia o que tanto o mundo queria dele. Menino colocou o mundo dentro do bolso e saiu caminhando, acendeu um cigarro quebrado, se esvaiu na impetuosa neblina, não deixou e-mail, telefone para contato.

22 de maio de 2012

Não acabou chorare

Ela era capaz de amar, só não sabia disso. Não lhe faltava nada; trazia nos olhos miúdos um poema, em seus lábios ressecados a prosa de belos dias, seu jeito de andar lembrava o de bailarinas russas e no seu coração havia um poço fundo, cheio de moedas e desejos. Tão incógnita e irresoluta, esboçava no ensejo dos dias seu sorriso exigente que encantava os rapazes, deixando desencantadas as moças e esculpia-o nas retinas instigadas, causando risos acanhados, calafrios e melancolia. Também era prendada: sabia cozinhar, fazer arroz doce, pavê de bolacha maisena, biscoito da sorte e um café sabiamente adoçado, quentinho na garrafa térmica. Mesmo assim restava-lhe o abandono e a frieza das noites frias; aguardava o momento derradeiro para ceifar todo seu tormento, mas até então só conhecia três orações, desconhecia mantras, muito menos sua face era de madeira. Até hoje permanece em seu leito, pigarreando o infortúnio de não ser descoberta e suja a coberta com lágrimas amargas a alimentar os lençóis freáticos da hidrografia da sua solidão.

16 de maio de 2012

Estreito

Roubaram nosso ninho, Madalena. Nossas economias, nossos lençóis, os taleres da cozinha. Roubaram nosso telhado; em troca nos deixaram as estrelas. Quiseram ferir, espalhar pelo quintal nossas roseiras, fizeram até uma fogueira pra levar às cinzas os retratos teus. Mas Madalena, pense. Não levaram nosso amor, o cobertor, o cachorro ainda tem comida e os bandidos não se deram ao trabalho de averiguar o rodapé atrás da poltrona do vô Aloísio. Agora fecha os olhos e desfaça esse pavor, essa coisa ridícula. Não há porque o horror querer decorar nossas vidas.

Depois das 5

E a tarde se arrastava afobada, friorenta e resguardada. Francisco afogava-se em goles fartos de café e contava nos dedos as horas pro dia cair, as mãos esquentavam enquanto segurava a caneca, mas o semblante permanecia frio. Pensava nas alamedas do bairro da infância, na imponência das copas das árvores e suas raízes profundas que rachavam a calçada. Nos canteiros bem cuidados, na vizinha russa (ou polonesa) chamada Maria que preferia ser tratada como Mary, no seu Lino a acenar por trás da janela e nos comentários sacros da avó que criticava as espadas-de-são-jorge do jardim da vizinha espírita. E a tarde expirava com o cinza do dia nublado a transformar-se na escuridão da fria noite.

11 de maio de 2012

Bom dia, Senhor D.

Então Senhor D. acordou. Colocou o despertador no soneca e resolveu embrenhar-se novamente em seu tão limitado sono. Quando finalmente dormiu o suficiente para pensar que estava atrasado, Senhor D. levantou-se como se aquilo fosse um ato de sobrevivência. Acariciou H., um felino que alegrava seus dias e as madeixas daquela que roubava seu travesseiro, o cobertor e três quartos da cama. Vinte minutos depois, Senhor D. já desfrutava de gélidas brisas contra seu rosto, que descascava de frio.

10 de maio de 2012

da Luz

A neblina esconde a noite da cidade pungente
que depois das onze horas se camufla na cerração
e sem opção, os desocupados dão suas caras


Forasteiros das vilas dos judas que perderam a noção
as botas, os crocs, os chinelos de plástico, as anabelas,
os de língua vistosa azuis celeste, os niques e os rebotes


E pensar que há pouco João degolou Maria

roubou uns trocados e fugiu pela porta dos fundos
deixando degolados o amor e Maria sob o colchão
e as digitais na Tramontina enterrada no quintal


A cidade que abraça o cinza e vive no preto

vigora em dias de pré-carnaval
suspende o sorriso para inclinar o narizinho
e brilha pálida e linda 
em suas auroras intrínsecas

7 de maio de 2012

Tecendo a fazenda

Quando eu sair daqui vamos casar na fazenda onde tão feliz foi minha infância. Daremos um trato na casa de alvenaria, pintaremos as paredes de tons claros e escolheremos com cuidado os quadros da sala. De manhã cedo garantirei que teu café esteja no ponto: as torradas com sua geleia favorita, o seu achocolatado na caneca certa e pra não ser clichê, a rosa cheirosa eu só darei quando estiver se arrumando frente ao espelho, depois de abraçar-te por trás e sussurrar em teu ouvido: bom dia. O meu cavalo também será teu, assim poderás cavalgar até o pé da serra pela estradinha estreita, cortada por um ribeirão de águas límpidas e pedras velhas. Cuidarei do jardim com garbo. Nele terá rosas graúdas, tulipas vermelhas, azuis e amarelas, camélias, gira-sóis, margaridas e aquelas pequeninas, que tem um cheiro deslumbrante. Todas invejaram a tua beleza, mas também desejarão ser colocadas atrás das tuas orelhas. De noite, não sobrará dúvidas de que serei teu por inteiro. O calor do forno a lenha a contrastar com a brasa nossa.

6 de maio de 2012

Adalberto a pensar

Foi então que Adalberto começou a pensar. Seria loucura deixar que seus desgostos dominassem tão absolutistas sua vontade de viver. Essas histórias de evitar falar sobre, de policiar os julgamentos, de sofrer sem ter aprendido toda a lição da frustração só enchem a cabeça de pormenores tão indelicados e dispensáveis que deveriam seguir o mesmo rumo das cascas de banana e bitucas de cigarro. Adalberto franzia a testa, lambia os lábios ressecados pelo frio e estalava os dedos, exceto os indicadores. O corte no abastecimento de água tornava-o uma personagem de "Vidas Secas", só que ambientado no eixo Curitiba-Antártida. Era dia de Atletiba, pensou. Pra que mais confrontos ? Deixasse de ser a unha que atiça o ferimento e permitisse o tempo usar seu kit de primeiros socorros neste paciente que lateja, impaciente. Talvez não fosse tão fácil assim, afinal, era homo sapiens e coisas piores aconteciam no mar. Foi quando seus peitos estufaram, os ombros solevaram-se e uma corriqueira altivez quis estampar em seu semblante. Adalberto só não conseguiu por ter sido vítima de um espasmo no pescoço, fruto das noites mal dormidas.

3 de maio de 2012

A bonança dos aflitos

A menina sardenta, desleixada e masculina, a provinciana à mais nova baronesa da capital de Guanabara. Quando caminha pelas alamedas, nota-se seu passo descompensado, o equilíbrio incerto de ariana roxa, uma cicatriz charmosa na perna esquerda, os olhos de sono ou ressaca e a insensatez em ser tão doce e amarga na medida errada e certa. Em seus lábios resta a saudade dos lábios que ainda não beijou. Nas suas orelhas, brincos modernos. Em sua companhia, sobra-me inspiração. Desvendar dia após dia os dias que com ela não se viveu é constatar que poderiam ser mais belos os dias dela se estes fossem meus. A menina fiteira, com ascendente em capricórnio e o ativismo feminista, a mais cobiçada do interior à uma resistente nostalgia.