31 de outubro de 2010

Música: "Velha Roupa Colorida" / Elis Regina

Hoje, domingo de eleições, dia decisivo na história do
Brasil. Mesmo evitando tanto, negando tanto, temos
de escolher aquele que mais se identifica com o perfil
dessa nação grandinha, com duzentos milhões de bocas
pra alimentar, meio bagunçada, mas bem encaminhada.
Escolhi um trecho de uma das minhas músicas favoritas da
Elis Regina,
pra expressar o que eu acho que falta no país:
renovação. Talvez nós sejamos os únicos mediadores disso.

(...)
Nunca mais teu pai falou: "She's leaving home"
E meteu o pé na estrada "like a Rolling Stone"
Nunca mais você buscou sua menina
Para correr no seu carro, loucura, chiclete e som
Nunca mais você saiu à rua em grupo reunido
O dedo em V, cabelo ao vento
Amor e flor, quede o cartaz?

No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais

Você não sente, não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer
(...)

Cinema: "A Suprema Felicidade"

Uma obra fascinante, e oportuna também. O filme de Jabor
surge com o número de salas reduzidas, mas com certeza,
com o primor devido ao Rio de Janeiro, afinal, por entre
tantas balas perdidas, capitães sanguinários e a pirataria,
existe um Rio que pode ser contado através daquilo que
mais lhe é sensato: uma história de amor, sexo e amor.
Marco Nanini no seu melhor momento, Jayme Matarazzo
(aquele que é neto da minha cantora brasileira favorita)
provando que não é seu berço que determinará seu
trabalho como ator, Maria Flor em uma intensa prova
de que ela pode dar vida a uma personagem fora do
"padrãozinho global", Elke Maravilha mostrando que não
é só uma ex-atriz de revista, sem falar nos inúmeros atores
e atrizes, consagrados ou não, que fizeram desse filme uma
das melhores coisas do meu sábado. Vale a pena conferir.

29 de outubro de 2010

O pedido de Bardot

Bardot pediu a Gainsbourg para escrever
A canção de amor mais bonita que podia imaginar
e ele escreveu Je t'aime moi non plus.

28 de outubro de 2010

Silêncio

Silêncio.
Pra que palavras ? Contemplaram a cidade de concreto que
crescia acerca de uma capelinha, que agora era uma catedral.
Voltados para seus próprios corações, sabiam a palavras
certas naquele momento, naquele bar escondido e sujo, mas
não as proferiram, talvez não fosse o momento, talvez nem
fossem palavras certas, mas palavras, só palavras. Olhe nos
meus olhos, disse um, talvez quisesse decifrar naqueles olhos
claros o que a clareza das palavras era incapaz de pronunciar.
Quando insistiu disse que não, que não era necessário saber
de coisas que não influenciariam aquele momento.
Momento de silêncio.

24 de outubro de 2010

Cinema: "Sem teto, nem lei"

"Sem teto, nem lei" é um filme francês de 1985, dirigido por
Agnés Varda. A história é interessante, uma garota andarilha
que tem sua história contada pelas pessoas com quem cruzou.
Desde a iludida amorosa até um agricultor da Tunísia, da
velhinha moribunda até um cafetão junkie. Agnés foi muito
inteligente nos cortes de cena, deixando assim o filme mais
dinâmico e direto. Não se sabe ao certo de onde vinha Mona,
a protagonista, mas podíamos perceber o seu fim, que é a
única certeza que temos sobre nossas vidas: a morte.

Para baixar: Megaupload

Mausoléu

Má
Mau
Mau só
Só Leu
Leu Mau
Mau leu o epitáfio
Do meu mausoléu
A música foi mais forte

22 de outubro de 2010

O conto da Fera Selvagem Tropical

Parecia um canto místico, enigmático, vindo por trás daquela vegetação
litorânea. Por trás dela, muita luz, muito som, não aqueles sons que se
ouvem em lugares com muita gente onde o "tuc tuc" move as pessoas
de uma maneira incompreensível, mas algo meio tribal, talvez um ritual,
ritual de iniciação de mais um guerreiro das matas, de mais um homem
que será marcado com o fogo e o sangue de sua tribo fervorosa. Então,
me deparo com um filete de água que corre corre corre e me faz recorrer
até sua beira. A água é tão cristalina que nem água parece ser, o jeito
com que desfila entre as pedras acinzentadas no fundo raso parecem
dar-lhe a impressão de um tapete de cristais, onde o reflexo das árvores
de tronco fino e altitude incontável se fazem num quadro em movimento.
O som da tribo fica cada vez mais estridente, muita fumaça, muito
canto, muita dança (Sim, pode-se ouvir o som dos pés dançantes num
passo cordenado, simétrico. Ou seria o som de chocalhos ?), e a noite,
ah! A noite se faz presente ali como o sangue que corre nas veias. Um
homem corre corre corre, se distrai ao me ver, parece que num segundo
pensou em parar para me fitar com mais precisão. Mas não, ele segue
sua corrida infindável por entre as clareiras labirintícas da mata virgem.
Não consegui observá-lo com atenção também, mas reparei na sua
roupa simples, cor de areia, com manchas de barro nas pernas e nas
costas. Sua tez era preta preta preta, preta feito carvão. Seus olhos
eram tão pretos quanto sua pele, o olhar era fugitivo, petrificado. Outro
som me chama a atenção no norte de onde estava, decidi não ir,
poderia ser algum caçador ou posseiro determinado à exterminar toda
a propriedade coletiva que ali se fazia presente. O som se intensificava.
Aquele som parecia um ímã, o pólo oposto ao meu medo. E assim fui.
Fui sem saber ao certo o que viria a me acontecer. Mas acreditei.
Por entre as clareiras que abria com meus braços ensagüentados,
comecei a notar que muito além, muito além do que os meus olhos
esperavam ver, muito além do que meus olhos queriam me mostrar,
havia um grande campo, onde uma rapariga, uma gúria de cabelos
louros, de vestido de bailarina todo amarrotado, com uma rosa de
um vermelho tão vibrante quanto a noite estrelada nas mãos e os espinhos
encravados em suas mãos tão juvenis, delicadas. Ela me olhou. Olhou
com tal intensidade que nenhum músculo seu ousou mexer. Olhou tanto
que não havia mais dor em suas mãos e em nenhuma outra parte do
corpo. Olhou tanto que a noite estrelada não parecia me contemplar
como a intensidade do seu olhar. Mas continuou estática, morta, viva.
Não que estivesse paralisado também, mas eu também sentia meu
corpo entusiasmado em não deixar de observar seu olhar de análise,
olhar de astúcia, olhar de medo. E ficamos assim. Pausados no Tempo,
ininterruptos na noite, que naquele momento só queria ser ela mesma.
Por um instante percebi que o som que tanto me atormentava havia se
encerrado, mas agora ele não me era importante, não atrapalharia meu
olhar atento para cada semblante que bailarina de pernas cruzadas como
uma ninfa grega fazia. Depois de um certo tempo, noto que seus músculos
parecem fazer um movimento de desibernação, e quando me toco ela está
diante de mim, impávida, plácida, misteriosa. Agora posso ver seus olhos,
são olhos como mel, o mel mais saboroso que havia naquele lugar que se
assemelhava bastante com algum lugar secreto na Indonésia ou no Congo.
Agora posso ver os seus lábios, lábios de quem nunca tocou os lábios em
outros lábios, lábios feitos com o mel de seus olhos. E ficamos ali, em busca
algum resquício de coragem pra dizer alguma coisa, mas estavámos bem,
pelo menos eu estava. Não queria entender mesmo sabendo que no final
de tudo as coisas tem uma explicação. Os olhos e os lábios se completavam,
e eu continuava à fitá-los, se completavam como se fossem a continuação um
do outro. A face era clara, pálida, anêmica. A face era uma máscara que eu
não queria retirar, máscara que escondia beleza, profundidade ou feiura,
abismo. Um som de algum instrumento de cordas tocava ao fundo, talvez
algum explorador que deve ter se cansado do seu andar que mais parecia
o de uma formiga puxando um elefante, e resolveu parar repousar. Quem
sabe, o explorador com uma flanela vermelha no pescoço esteja com medo
da noite estrelada e por isso toca toca toca, toca pra que a noite estrelada
o proteja das potestades selvagens tropicais da floresta. E então aproximava,
ela se aproximava como um fera que domina sua presa com os olhos.
Nunca havia pensado que ser atacado por uma fera selvagem em forma de
mulher seria algo que passaria por minha cabeça. E então se aproximou,
cada vez mais perto, os olhos cada vez mais misteriosos e os lábios como
um buraco negro. Até que frente a frente ficamos. Eis que um ruído profundo
e terrível repercutiu pelo ambiente. Então acordei. Ela ia me beijar ou me
apunhalar ? Até que quis voltar para o sonho, mas já não era mais hora de
sonhar. Sonhos cansam. Preciso trocar o som do despertador, pensei.

21 de outubro de 2010

Sorrir, sorrir, só rir.

Ser feliz ao acordar, sem se esforçar para isso.
Acordei com essa frase na cabeça, pra quem sabe aplicá-la numa dessas
manhãs vazias que costumo ter. Talvez um dia eu acabe descobrindo que
um primeiro sorriso, por causa de um passarinho que bica a janela ou pela
manchete sensacionalista do programa de rádio, sempre atrai algum outro
sorriso. O negócio mesmo é sorrir, não existe lei, legislação, convenção
cultural que não permita fazer isso e que tenha alguma retaliação. Do jeito
que as coisas andam, o jeito é fechar os olhos e fingir que ali, sem nenhuma
obrigação, a felicidade se toma da bica e se respira mesmo estando asfixiado.
A primavera está quente, os dias parecem mais curtos e as noites intensas.
Não demora a chegada do verão que aquecerá corações gelados, viciados
em agosto, nicotina e cafeína. Não demora, embora pareça o contrário.
Ser feliz ao acordar, sem se esforçar para isso.
Dormirei com essa frase na cabeça.

19 de outubro de 2010

Pincel atômico vermelho

Os mesmos passos, os mesmos trajetos, o mesmo fim.
É tudo tão circular, saímos de um ponto para chegar de
volta a ele dizendo que fizemos uma boa viagem. Embora
não arrancadas todas as páginas do calendário, imaginamos
o que esconderão as páginas do ano sucessor. Será que
ganharei na loteria, será que farei uma longa viagem, será
meu último ano em vida, ou o primeiro. Será ?
Atordoado com tantos serás, o que resta é cumprir o
velho exercício de simplesmente esperar. Esperar.
Talvez a obrigação de riscar cada dia com um pincel
atômico vermelho seja esquecida e substituída pela
obrigação de viver cada dia sem riscos, riscos de pincel.
Divagando, esperando, divagando, esperando.
O mesmo fim.

12 de outubro de 2010

Frustações

Certas pessoas vivem brigadas consigo mesmas,
brigadas com a vida. Então, elas começam a criar uma
espécie de peça teatral na cabeça delas, e escrevem
o roteiro de acordo com suas frustrações.

Paulo Coelho

11 de outubro de 2010

Nas margens da sarjeta

Nas margens da sarjeta, sentei.
A noite tinha sido longa, longa também a distância percorrida.
As estrelas suspensas no céu ainda eram provas de que não
estava adormecido. O cálice transbordava, só não se sabia que
seu conteúdo era letal e seu poder mortífero era devastador.
É necessário provar certos cálices, por mais que causem certo
desconforto ou deixem a cabeça um pouco zonza. Também é
necessário não julgar certos cálices pela quantidade ou pelo
aroma, a princípio eles podem parecer vistosos e sedutores,
mas depois podem revelar sua identidade venenosa, indócil
e enganadora. Apóio a criação de filtros que contenham todo
o veneno presentes nos cálices que nos são apresentados.
Nas margens da sarjeta, chorei.

8 de outubro de 2010

Como canção de ninar















C: Vou sempre te ouvir. Você sabe.
F: Mesmo ? Promete ? Jura ? Jura por Deus ?
C: Eu preciso mesmo responder ?
F: Toda pergunta merece uma resposta, concorda ?
C: Toda pergunta bem formulada merece.
F: Por que você está me olhando ?
C: Porque eu te olho.
F: E por que você tanto me olha ?
C: Por que eu te guardo, guardo no fundo do meu peito.
F: Eu te sigo, mesmo com alguns solavancos.
C: Também te sigo, o caminho não é lacônico.
F: Se tanto me olha, e também me segue, me faz um favor ?
C: Sim, claro.
F: Me faz dormir ?

5 de outubro de 2010

Como um sussuro

Frágil. Rude. Louca. Pacífica. Pequena. Enorme.
Loura. Careca. Fantasiosa. Realista. Sociável. Apática.
Interessante. Misteriosa. Silenciosa. Estrondosa.
Atormentada. Corrompida. Indecente. Imoral.
Doce. Sentinela. Lúcida. Ingênua. Formosa.
Brigitte. Audrey. Marilyn. Ingrid. Cecília.
Cecília. Cecília. Cecília. Ceclília. E Cecília.

3 de outubro de 2010

Festa da Democracia: fomos convidados?

Enfim, o tão esperado dia da "festa da Democracia" chegou. Bom,
convenhamos que "Brasil" e "democracia" não cabem na mesma frase,
mas fazer o que. Enquanto buscamos essa tão comentada "democracia",
notamos o surgimento de pessoas dispostas a tornar essa palavra um
pouco mais real e viva na história desse país. No dia 16 de agosto de
2009, comentei aqui mesmo sobre o lançamento da ex-Ministra do Meio
Ambiente à presidência da República. Hoje, ela está lá, nas bandeiras
por toda a cidade, nos noticiários tendenciosos, nas páginas de revistas
e jornais, e na urna eletrônica como candidata para trazer a democracia
de volta para o Brasil. Na verdade, acho que a democracia nunca deu as
caras por aqui, e talvez seja hora ideal de convidá-la para reinar por aqui.
O interessante de Marina é a criação de um estilo totalmente fora do
padrão, esse espírito de lançar uma candidata de uma região esquecida
do país e que, quando é lembrada, só fala dos passarinhos em extinção
e da floresta que é devastada cada dia que pelo olho gordo dos
malditos latifundiários e posseiros. O Brasil não vai mudar, pode tomar
pó Royal na economia e crescer à moda chinesa, mas sempre vai seguir
os mesmos passos, passos que nunca foram destrados. O Brasil não
vai mudar da noite pro dia, não com discursos poéticos e promessas tolas.
Sempre é hora de acordar, só basta escolher o despertador certo.

1 de outubro de 2010

Literatura: Chico Buarque


Sem dúvidas, um dos melhores livros que eu tive a oportunidade de ler.
Sabe aquele tipo de livro que não merece ser provado, mas devorado ?
Pois então. A forma despadronizada e repetitiva que Chico Buarque usa,
consegue provocar o leitor, deixando-o cada vez mais esfomeado a cada
página virada. Mesmo moribundo, encravado numa cama de
hospital
e morando na periferia,
a personagem principal mantém a finesse
e suas exigências dos tempos em que
vivia num casarão requintado,
onde viu
dia após dia, a decadência de sua família de descendentes
da nobreza europeia.
Sua desilusão amorosa prova que por trás de
sua máscara de arrogância e
prepotência, havia sim, um homem
apaixonado que faria loucuras para fazer da amada uma princesa,
uma rainha. Extremamente profundo, sem ser apelativo e piegas.

Do outro lado da linha

E tocava, tocava. Não sabia se era bom atender, poderia ser
mais uma
daquelas atendentes de telemarketing estressadas
devido as suas cargas
horárias escravistas, ou quem sabe algum
daqueles tolos que perguntavam
se gostaria de adquirir o mais novo
modelo de filtrador de água, o mais cobiçado
pelas donas de casa de
plantão, por um precinho camarada, senhor,
cobrimos qualquer oferta
anunciada pela concorrência. Poxa, existe
concorrência entre filtradores
de água ? O mundo anda muito capitalista
mesmo. Também poderia
ser aquela pessoa e tal, será que ela se
importaria comigo numa
hora dessas, será que eu finjo ou me torno
a pessoa mais sincera
e me arrependo depois disso, e tomado por tantos “serás”,
tirou
o telefone do gancho, respirou fundo — Alô ? — Era ela, sim.