31 de dezembro de 2010

2010, as últimas palavras

Minhas últimas palavras de 2010.
Na verdade, nem sei quais são, e também não quero saber. Esse foi um ano diferente pra mim, tanta coisa mas tanta coisa, que não caberiam em algum texto ou poema. Tudo vai ficar dentro do peito, segredado, intacto. Ficar falando de passado é tão fácil, daqui quase três horas tudo isso será parte dele. Minha gratidão a todos que fizeram ou deixaram de fazer esse ano ser interessante ou não fica aqui. Mas não conseguiria deixar de citar que recuperei coisas muito importantes pra minha noção de existência e aprendi outras, mesmo aos trancos, mas aprendi. Cecília está de volta, não só nos meus textos, mas na minha vida, mesmo distante. O que resta são as lembranças e três horas de um 2010 que não foi 10 e não vai voltar, embora eu não seja tão indiferente, seco e frio assim. A música continua, o baile também, os ternos e os vestidos já estão sujos, mas ainda temos muito do que nos embriagar. Queria dizer essas palavras, só isso.
Minha últimas palavras de 2010.

Cabeça firme e sapatos confortáveis

Para cruzar pelos dias de 2011 sem ser esmagado por eles é necessário cabeça firme, sapatos confortáveis e uma carteira de cigarros. Muitos ainda chegarão ao pé do ouvido e dirão que é incapaz e fraco, outros tentarão diminuir seus sonhos e te deixarão chorando ao pé da escada na espera de que alguém bata sua porta. Ainda irá esperar por aquilo que ainda não veio e que nunca vai chegar, ou esperar voltar o que nunca devia ter ido. Vai se dar por vencido por achar que está na batalha errada, mesmo sem saber que dessa sairá vitorioso. Para cruzar pelos dias de 2011 sem ser esmagado por eles é preciso ter equilíbrio, dispensa cheia e a adega entupida. Provavelmente, a conta do telefone surpreenda, a barba cresça mais rápido e as roupas sujem mais fácil. Sobreviverá de uma quase-morte ou de um assalto e talvez dê um pouco de valor pra vida, talvez não, o que é mais comum. Talvez ouça mais Chico Buarque ou Rita Lee, enquanto se atira na cama desarrumada se perguntando porque, porque, por que ? Para cruzar pelos dias de 2011 sem ser esmagado por eles é importante frizar que não será um ano fácil, que é só mais um ano, que ano que vem tem mais.

Pessoa inteligente

Conta-se que numa cidade do interior um grupo de pessoas se divertia com um idiota da aldeia. Um pobre coitado, de pouca inteligência, vivia de pequenos biscates e esmolas. Diariamente eles chamavam o idiota ao bar onde se reuniam e ofereciam a ele a escolha entre duas moedas: uma grande de 400 réis e outra menor, de 2.000 réis. Ele sempre escolhia a maior e menos valiosa, o que era motivo de risos para todos. Certo dia, um dos membros do grupo chamou-o e lhe perguntou se ainda não havia percebido que a moeda maior valia menos. "Eu sei" - respondeu o tolo assim: "Ela vale cinco vezes menos, mas no dia que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e não vou mais ganhar minha moeda.

Pode-se tirar várias conclusões dessa pequena narrativa. A primeira: Quem parece idiota, nem sempre é. A segunda: Quais eram os verdadeiros idiotas da história? A terceira: Se você for ganancioso, acaba estragando sua fonte de renda. Mas a conclusão mais interessante é: A percepção de que podemos estar bem, mesmo quando os outros não têm uma boa opinião a nosso respeito. Portanto, o que importa não é o que pensam de nós, mas sim, quem realmente somos. O maior prazer de uma pessoa inteligente é bancar o idiota, diante de um idiota que banca o inteligente.

Arnaldo Jabor

28 de dezembro de 2010

Rabiscos

Obrigado por ainda se lembrar disso, Giulia.

Eu e ela: só nós e ponto


Os mesmos sonhos podem ter a mesma realidade ? Sei não. Será que a gente tá preparado pra tudo isso ? Acho que sim. Ainda me lembro das suas bochechas salientadas enquanto seus dentes amarelados se encarregavam de sorrir pra mim, nunca vou me esquecer. Parecia o fim do mundo, aquele cachorro quente com ares de desfecho infeliz de dramalhão mexicano nem imaginava ser mais uma das reticências da nossa história, meu bem. Nós temos sonhos grandes, às vezes maiores que nós mesmos, mas somos tão pequenos, tão ingênuos, tão infelizes, tão telepáticos e completos de nós mesmos que dava pra escrever um filme. Eu já te contei que você é uma das mulheres da minha vida ? Se não, saiba desde já. Acho que nunca precisamos de aliança, registro no cartório, divisão de bens e todas essas burocracias-sociais-culturais-modernas pra provar que nosso amor não é desses de novela das nove, de fotonovela ou de vitrine. Relutamos pra saber se somos anjos um do outro, eu digo que sim, só que as asas são dispensáveis e os rostinhos angelicais ficaram pra decorar alguma igreja do Vaticano. Dispostos a sonhar, sonhar o mesmo sonho, tornar esse sonho em realidade (ou vice-versa), a gente vai. Não duvide. Só quero te dizer uma coisinha: amores como o nosso são escritos pela mesma Mão, amores como os nosso dispensam finais, pois eles são eternos.

Para Aranath.

27 de dezembro de 2010

Personalidade do ano, na minha opinião

Certamente, Marina Silva conquistou muitos corações no ano de 2010. Inclusive o meu. Acreana, negra, de corpo frágil, mas de força surpreendente, ela se tornou a aposta de quase vinte milhões de eleitores. Em agosto do ano passado, numa das minhas primeiras postagens, comentei sobre a possível candidatura de Marina à presidência. Naquele tempo, ela ainda tinha traços de mulher abatida, usava roupas mais formais e realmente, metia medo em qualquer um. No ínicio da corrida eleitoral, Marina trajava roupas mais claras, mais bem engomadas (não resisti) e ostentava acessórios que a deixavam mais "mulher", com força suficiente para conquistar também o público feminino. Sua atuação nos debates com os candidatos centralizadores foi excelente, ela soube ser madura e carismática, sem parecer estar um usando ponto eletrônico ou ter decorado as falas antes de entrar no estúdio. Infelizmente, a ex-seringueireira não conseguiu atingir o que queria, mas sem dúvidas, deixou claro que há brasileiros interessados em renovação política e novas alternativas para se governar o país. Em 2010, o Brasil teve a oportunidade. Mas será que também acontecerá isso em 2014, ou será tarde demais ?

26 de dezembro de 2010

Nota do dia

"Eu te amo, mas também me canso".
Caio Fernando Abreu

24 de dezembro de 2010

O mapa astral de Caio Fernando Abreu

Caio Fernando Abreu: Uma literatura de epifanias
Artigo publicado no jornal Zero Hora – caderno de Cultura de 20/10/2007

“Acredito em Deus e em muitas formas do mistério. Sou astrólogo, embora não profissional, há 20 anos. Tenho uma curiosidade imensa de saber por que estou vivo, o que significa o céu, o que significa morrer. Portanto, é natural que em meu trabalho estejam presentes todas essas ânsias filosóficas exaltadas. Muitas vezes o que torna digna a vida de um homem é o fato de ele olhar para o céu e dizer “Meu Deus, que coisa imensa…” E perguntar: “Por que eu estou aqui” Toda forma de criação artística é uma maneira de procurar essas respostas.”
(Caio Fernando Abreu)

Para entrar no clima de Caio F. escuto Erik Satie, que ele adorava, e observo seu mapa astrológico, feito pelo próprio, em meio a papéis datilografados de uma velha carta. Do mapa deste virginiano, artesão perfeccionista da palavra, que dizia escrever para organizar o inorganizável caos, emerge uma onipresente marca d’água: como os caminhos que faz este elemento, rumo à profundidade, como a emoção indelével que Caio deixa impressa em nós, seus leitores e amigos. Não por acaso suas configurações astrais reiteram o simbolismo aquático, que tem múltiplas conotações ligadas aos estados anímicos e ao mundo dos sentimentos, vividos intensamente na vida e na obra. Caio queria ser um mago, como ele mesmo falou em uma de suas primeiras entrevistas. Queria ser o que foi: mago, xamã, inspirado encantador de serpentes e operador de metamorfoses, sábio transmutador a tanger com seu condão aquele ponto exato em nós, nos despertando e, não raro, nos perturbando, instigando a ir mais fundo, além do ponto.

O interesse pela metafísica, pelo esoterismo, pelas filosofias orientais e pela astrologia integrava sua experiência pessoal e era vivenciado com respeito e reverência. Caio foi um profundo conhecedor da astrologia e astrólogo altamente intuitivo, compartilhando sua visão através de seus textos. Em Caio, literatura e vida não se descolam, andam juntas, caminho que se faz ao caminhar. O escritor utiliza elementos simbólicos, mitológicos e principalmente astrológicos em seu trabalho, ora como simples referência, ora como vetor na construção ficcional, de forma deliberada. O livro "Triângulo das águas" se destaca dos demais por apresentar uma estrutura narrativa norteada por princípios astrológicos. Através do simbolismo dos signos de Água — Câncer, Escorpião, Peixes –, relacionados a cada um dos três contos que constituem a obra, é representado o processo de transformação interior de seus personagens: seres à procura da verdade e de um sentido para suas existências sufocadas pela pressão urbana e pela solidão.

Na mesma carta de 20 junho de 1988, em que me enviou seu mapa, Caio comenta a intenção de escrever outros livros usando os elementos astrológicos: “Ando com uma longa história na cabeça. A se chamar 360 Graus. Queria dividi-la em capítulos, assim: 30 graus (o semi-sextil), 60 graus (o sextil) e assim por diante. É uma história de amor, claro. Na verdade ainda não decidi se será 360 ou 180 graus. Estou naquela fase de anotar e ler coisas, à espera de que a Vida (essa senhora tão temperamental) me dê mais alguns – digamos – subsídios. Tenho para mim que ela é quase, talvez, a “grande obra”. Não sei se é um livro só ou parte de um, como o Triângulo das Águas. Era um projeto antigo meu: três histórias para os signos de Água, três para o Fogo e assim por diante — até completar a mandala dos 12. Quem sabe consigo?” Esse é mais um dos tantos projetos bacanas que ficaram espalhados por anotações em guardanapos, cartas e diários, sem tempo de realizar.

A literatura de Caio — com seu mix bem temperado de amores, sexo, viagens, cidades, drogas, psicanálise, meditação, astrologia, filosofia oriental, candomblé, tarô, cultura pop, poemas, filmes & canções — mostra sua trajetória pessoal na busca de sentido e de revelação e, ao mesmo tempo, propõe ao leitor um convite para embarcar em sua própria jornada de busca de autoconhecimento, de significado da existência, de crescimento e de transcendência. É impossível ler Caio Fernando Abreu e manter aquela “mesma velha idéia formada sobre tudo”.

Por Amanda Costa. Astróloga, autora do livro “Astrologia o Cosmos e Você”, mestranda em literatura brasileira (UFRGS).

O outro lado, pelas lentes de Diane Arbus

Respeitada fotógrafa americana, Diane Arbus, impressiona a todos sem precisar ter muito trabalho para isso. São só alguns flashes e pronto, tem-se uma obra de arte. Fotografava "o outro lado", o mais angustiado e enfadado da cultura dos Estados Unidos: travestis, anões, famílias de classe média, deficientes, etc. Chegou a dizer que "o elogio é perturbador" e a ideia de mostrar seu trabalho lhe causava repulsa. Suicidou-se em julho de 1971, com cortes no pulso e porre de remédios. Em 2007, Nicole Kidman deu vida a Diane no cinema, no filme "A pele".

"Identical Twins", 1967 e as gêmeas imortalizadas, nos dias atuais




Trailer de "A Pele" (2007), com Nicole Kidman

Papai Noel, o maior mentiroso que existe

Todo mundo gosta de Natal, não tem discussão. Sempre tem um ou outro, quase todos, que ficam teclando a tecla de sempre ao dizer que Natal é estar com quem você ama e blábláblá, mas se isso fosse realmente verdade, as pessoas não deixariam apenas o dia 25 de dezembro pra se darem esse trabalho que parece tão simples. A especulação comercial, televisiva, religiosa, etecetera tem data marcada pra ganhar algo a mais que um simples "boas festas". Sem contar que o Roberto Carlos e a Xuxa tem espaços ampliados nessa época do ano. O filme de Jesus vai tapar o horário do apresentador que pegou folga, mais pessoas irão se emocionar ao ver comerciais comemorativos, o número de brigas de bar também irá aumentar e quem sabe, o mendigo das ruas do Centro encontre um pouco de pinga pra tomar essa noite. Todo mundo gosta de Natal, porque sabem que Papai Noel não existe. Pois se existisse, com certeza não pediriam presentes só uma vez por ano. Mas tudo bem, ainda bem que é final de ano, dá tempo de emagrecer o que o peru da ceia nos trouxe, e assim, poder estender o corpo num lugar ao sol numa prainha qualquer, talvez Caiobá, Camboriú e depois ter fôlego suficiente pra pular o Carnaval. Onde eu estava mesmo ? Ah, Natal! Momento feliz, de estar com a família, com os amigos, trocar presentes. Todo mundo gosta de Natal, afinal, só tem uma vez por ano e damos graças a Deus por isso.

23 de dezembro de 2010

Em 2010, a música que eu mais ouvi

"French Navy", Camera Obscura


A música nem é desse ano, mas depois que a descobri em meados de setembro, se tornou uma constante execução na minha vida. É a mais ouvida das músicas da banda escocesa Camera Obscura no Last.Fm, e de alguma forma me conquistou, talvez com os arranjos de trompete, talvez com a voz de Tracyanne Campbel, talvez com a letra e o clipe que são o sonho de qualquer casal apaixonado, ou talvez por tudo isso. Apesar de triste, o clipe trás uma idealização tão boa de como seria viver um amor em Paris, com torres que podem expressar todo sentimento de uma cidade, praças e parques que parecem cuidados para recepcionar uma grande festa, igrejas que falam por si próprias, histórias de amor que tem perfume e luz própria. Não posso negar que "French Navy" me remete a outras coisas que não deviam ser lembradas, mas de alguma forma, a música se tornou muito mais forte do que o sentimento que antes ela trazia, provando que existem músicas que são produzidas para terem vida própria, não a que os produtores musicais, artistas ou nós mesmos queremos impor a elas.

Gosto de pele, de cheiro, de amor verdadeiro

Preciso muito que alguma coisa muito muito boa aconteça na minha vida, alguma coisa, alguma pessoa. Acho que tenho medo de não conseguir deixar que o passado seja passado, de aceitar verdades pela metade, de viver de ilusão! Eu preciso muito muito deixar acontecer o momento da renovação, trocar de pele, mudar de cor. Tenho sentido necessidades do novo, não importa o quê, mas que seja novo, nem que sejam os problemas. Preciso abandonar essa "mania de passado"; retirar os entulhos, deixar a casa vazia para receber nova mobília! Fazer a faxina da mente, da alma, do corpo e do coração! Demolir as ruínas e contruir qualquer coisa nova, quem sabe um castelo. Que seja doce.
(Caio Fernando Abreu)

22 de dezembro de 2010

Il est de rêve, quem sabe

Toujours rêve du jour où les Champs Elysées
à pied tenant un café à la main et de fumer
une YSL. Toujours rêve en chantant 'La vie
en rose', sous la Tour Eiffel et adopté peut dire:
'Paris, nous sommes ici.' Et tout cela, la joie,
un baiser sur votre main comme une madamozeile
et un câlin dans la ville parfumée et pleine de
lumière. Il est de rêve...

(Escrito em 14/08/09)

20 de dezembro de 2010

Uma história com dois pontos finais

Ponto final.
Começa assim mais uma história sem começo e meio, apenas com o fim. Parecia que agosto tinha tomado o calendário por completo, um completo desgosto, agosto por completo. Não existe um ponto de começo, falando a verdade, não adianta procurar pontos finais numa história que já começa com um. Mas existem parágrafos, borrões mal apagados, inúmeros rabiscos nas bordas, folhas rasgadas e silêncio, muito silêncio. O silêncio é uma exigência, a história possui monstros que hibernam, e se acordados, se mostram ferozes e tomados de expressiva fúria. Não existem princesas, príncipes, duendes, fadas ou semi-deuses, eles são desnecessários e todo mundo já sabe seus respectivos fins: a princesa e o príncipe são felizes para sempre, os duendes vão parar no jardim, petrificados, as fadas se apaixonam por soldadinhos-de-chumbo ou pegam outras fadinhas e os semi-deuses são beatificados. Além dos monstros, existem corpos frágeis que trafegam desnorteados por uma extensa alameda de árvores e plantas que permanecem em constante outono, não há veículos, não há sinalização. Corpos frágeis caminham sem saber onde é sul, onde é norte, onde é vida, onde é morte, apenas seguem, dispersos, um caminho que leva para lugar algum. No subsolo, ratos e baratas se divertem, fazem festas de arromba, permanecem fora de si durante vinte e cinco horas por dia e trocam seus asquerosos corpos por um prato de comida. Acima das nuvens cinzentas, anjos, pássaros e estrelas despistam qualquer rastro de indiferença, dor, angústia e sofrimento. Mas não fazem o trabalho direito, no fundo eles sabem que seus papéis são só de representação, de exemplo ou superioridade. Certo dia, certa pessoa atirou certa bomba que causou certa destruição, o que não foi nada certo. Depois daquele dia, monstros, corpos frágeis, ratos, baratas, anjos, pássaros e estrelas começaram a dividir o mesmo plano, o mesmo chão. Lutas por espaço, comida, festas de arromba, alamedas outonais e constelações se tornaram frequentes, e ninguém poderia os ajudar, nem eles mesmos. As bibliotecas já estavam soterradas, os rios já não eram sagrados, as muralhas já haviam se tornado ruínas, os rituais já não respeitavam as tradições, as melodias já ritmavam-se com sôfregos choros de lamentação. O que restava de alma havia terminado em metáfora, uma utopia pra se viver, só um recurso religioso pra intimamente confundir. O silêncio se cadenciava e os gritos tomavam força, as pegadas sujas e gigantes se intensificavam, tudo o que era água se tornara sangue, tudo que era sangue se tornara sede. Um som. Um som vinha de longa distância, parecia com o tocar de cordas de um instrumento que sentenciava algum estado de mudança. Todos voltados para o som que parecia se aproximar rompantemente, se quedaram imóveis. Aos poucos tudo o que era fortaleza se fortaleceu, tudo o que era desconstruído se reconstruiu, tudo o que era gravidade se inerciou. Talvez seja esse o ponto final, de uma história que só tem fim. Tudo o que era sonho se manteve sonho, tudo o que era desgosto se manteve em agosto. A alameda continuou extensa, mas experimentava uma primavera incomum, que a cada ano a deixava um pouco mais bonita.
Ponto final.

Os maiores fiascos de 2010, na minha opinião

Eleição de Dilma Roussef
Será que uma candidata inexperiente e fortemente
fabricada terá fôlego pra dirigir o Brasil ?

O papel de Larissa Maciel em "Passione"
De Maysa à filha de uma verdureira, apaixonada
por um desequilibrado e sogra de Kaike Brito

Vera Fischer: "Não sei escrever pra pobre"
E também, não sabe atuar

Rock Colorido, capa da "Atrevida"
Deus castiga

Silvio Santos no fundo do poço
Depois de rescindir contrato com a Televisa, o
empresário contrata o mesmo autor de "Mutantes"

Roberto Requião se elege senador
Depois de tanto lutar pelo bem-estar dos paranaenses,
o vilão decide ensinar receitas com mamona no Senado

Marina Silva com 20 milhões de votos
Achei pouco

Preconceito contra nordestinos e gays no Twitter
E ainda queremos ser país de primeiro mundo

Tiririca, palhaço e deputado federal
O trabalho é o mesmo, só muda o patrão
(ou no caso, os patrões)

Big Brother Brasil e A Fazenda
Todo ano, o fiasco de sempre

Brasil perde a Copa do Mundo
Ninguém no mundo é pentacampeão

Lula recusa convite da ONU
Diplomacia ao excesso causa perda de dedos

2010 ainda não acabou
O maior fiasco de todos

19 de dezembro de 2010

A melhor atriz em 2010, na minha opinião

Fernanda Montenegro
A dama suprema da teledramaturgia brasileira
Modéstia a parte, Arlette Pinheiro Esteves Torres, ou melhor, Fernanda Montenegro, merece todos os pódios quando o assunto é interpretação, seja no cinema ou na televisão. E dessa vez, ela surpreendeu (mais uma vez) ao participar de todos os capítulos de uma telenovela, sem ter uma falsa morte para sua personagem aparecer, impávida, no final. Mesmo aos 80 anos, ela nos dá lição de profissionalismo e claro, de como suas personagens podem criar vida sem precisar de apelações ou vícios. Há uma diferença considerável entre seus papéis no cinema e na tevê. Nota-se que nas telonas ela vive mulheres mais "humanas", com problemas como outra qualquer, mas quando é convidada para atuar numa novela ela nunca deixa de ser aquela viúva rica, cheia de pedrarias e roupas feitas sob medida. Mesmo com esses detalhes, Fernanda, consegue nos conquistar a cada cena, e nos dá prazer em tê-la todos os dias, na nossa frente.

Diálogo circular entre A e B

A:— Mas cara, eu não sei amar pela metade.
B: — Tá, mas o que eu tô sentindo nesse momento não é um cem por cento.
A: — Mas a gente nunca vai atingir esses cem, nunca, cara.
B: — Ôquei.
A: — "Ôquei" ? E você, o que está fazendo pra atingir os cem por cento ?
B: — Rá. Você não percebeu ? Gente... Ai.
A: — Cara, eu já te disse que quando estiver falando contigo, quero olhos nos olhos.
B: — Mas eu tô te olhando.
A: — Eu não gosto quando você ri do que eu digo. Sinto que você tá se achando um palhaço, eu sei.
B: — E por que acharia ?
A:— Você podia tão bem, estar lá, curtindo sua vida com pessoas muito melhores e mais interessantes que eu.
B:— Eu tô aqui com você, não estou ?
A: — Eu sei, eu te sinto, você é meu.
B: — Eu não sou seu, eu pertenço a mim mesmo. Eu estou com você.
A: — Assim você acaba com a minha metáfora.
B: — Pois é, nem tudo na vida é sonho.
A: — Deixa eu sonhar contigo, cara, deixa.
B: — Quando a gente acordar a gente descobre que esse sonho era ilusão.
A: — Eu sei que sonhar é um verbo ótimo pra conjulgar contigo.
B: — Pega um cigarro pra mim, é o último da noite.
A: — Antes vamos terminar essa conversa.
B: — Tá bom. Diga, diga tudo o que quer dizer.
A: — Mas eu já não te disse ? Eu te amo, e vou lutar cada dia por você. Te juro. Só te peço que me entenda também.
B: — Não me machuca mais, eu já sofri tanto, não sei se aguento mais uma.
A: — Você pode se dizer pertencer a si mesmo, mas meu coração é teu, cara. E saiba que eu te amo.
B: — Também.

18 de dezembro de 2010

O melhor filme de 2010, na minha opinião

A Suprema Felicidade
Resgatando alguma esperança no cinema brasileiro

Sem dúvidas, o trabalho de Arnaldo Jabor em A Suprema Felicidade merece todos os meus elogios. Apesar da história ser um pouco detalhada demais, as interpretações magníficas de artistas como Marco Nanini e Maria Flor devem ser consideradas. O ambiente carioca, a malícia e a malandragem do berço cultural brasileiro foram mostrados com maestria. Todo o novelo de histórias estrelaçadas na história, parecia dar um ar teledramatúrgico à película que contou com a essência dos varões do teatro brasileiro misturada com a dos novatos. A cena que mais me chamou a atenção foi quando o protagonista (que é neto da minha cantora brasileira favorita, Maysa) chega em uma zona, onde putas de todas as cores, idades, cheiros se ofereciam ao rapaz, que só buscava prazer, prazer e nada mais que isso. A volta de Jabor ao meio cinematográfico trouxe também uma esperança ao cinema nacional, que a cada dia que passa se torna mais comercial e apelativo.

Jayme Matarazzo numa cena épica do cinema brasileiro.

Os meus melhores de 2009

No ínicio desse ano, resolvi listar os melhores do ano anterior. Agora, nesses últimos suspiros de 2010, irei colocar os meus melhores em determinadas categorias desse ano. Com isso, pretendo ver o quanto minha opinião muda, sim, porque eu e você fazemos parte de uma geração em constante evolução, tanto social, quanto cultural ou intelectual. Abaixo, os meus melhores de 2009.

Melhor filme: "Divã"; Melhor clipe: "Habbit heart (Raise it up)" / Florence + the Machine; Música-tema: "Poker Face" / Lady GaGa; Artista do ano: Chico Buarque; Melhor peça: "Liberdade" de Adriana Sottomaior; Revelação: Banda Monaco Beach, Curitiba.

Esse ano, vou colocar mais categorias.

Quando janeiro chegar

Quando janeiro chegar, temos de estar preparados para prováveis decaptações, enforcamentos, genocídios e insônias. Talvez a Imprensa se torne mais tendenciosa, os políticos se virem contra quem os colocou no poder, as novelas apelem mais ao sexo e o prazer para conquistar audiência, os movimentos sociais se tornem mais violentos, os ditadores conquistem o que querem disfarçados de "pai dos pobres", o número de assassinatos aumente, o casamento entre pessoas do mesmo sexo continue engavetado, os negros continuem a fazer parte das cenas de senzala na novela das seis, o transporte rodoviário aumente, a Coréia do Norte resolva atacar brutalmente, os chineses se tornem a nação mais poderosa do planeta, o Justin Bieber seja comparado a Elvis Presley, apareça outro "fenômeno musical" muito bem fabricado e que conquiste os corações direcionados à mesmice, o Zeca Camargo continue sendo o apresentador do "Fantástico", o Fábio Assunção vire protagonista de uma minissérie sobre o dia-dia de um narcótico, a presidente contrate um tradutor para traduzir o que ela diz, o desejo infeliz de separatismo do Sul seja realizado ou que a gente descubra que tudo isso não passa de um sonho (ou um pesadelo). Quando janeiro chegar, temos de estar preparados. Preparados pra não sermos esmagados por todos os outros meses que seguirão. Quando janeiro chegar, atente, embora pareça paulo-coelhístico demais, tudo pode acontecer, se você deixar.

17 de dezembro de 2010

Tudo o que Cecília queria, mas não queria saber

Como fogos de artifício que brilham no céu, esplendorosos,
que nos surpreendem com sua magnitude, e também com a
sua inesperada insensatez. Tinha poderes mágicos: convertia
lágrimas em sorriso, e vice-versa. Acordava todas as manhãs
se perguntando se estava um pouco mais fria e insensível do
que no dia anterior. Caminhava, digo, rastejava seu corpo
pesado como se carregasse uma cruz, um mês de agosto.
Seus braços agora eram os cavaletes que seguravam a enorme
pintura surrealista que seu coração havia pintado com sangue.
Como eu pude me tornar isso, dizia a si mesma.
Seu corpo sortia em um desespero masoquista que se abria,
como uma rosa andina, para o desagradável desejo árduo de
simplesmente se conformar. Há muito tempo seu veneno
preferido havia se tornado combustível, vício, dependência.
Já era hábito recorrente cometer suicídios diários, sobretudo
nos finais de semana. E aquele cinza sombrio tornava-se, aos
poucos, pólvora em seus seus olhos semi-acordados, e insistia
insistia insistia em insistir na insistência de insistir. Talvez uma
palavra, um gesto, um revólver, resolvessem tudo. Talvez não.
Por trás de todo o poço de frieza, um sorriso e um "eu te
amo e nunca duvide disso", a deixava de pernas bambas.
Ela só precisa ser Cecília de volta, só isso.
(Escrito em 31 de agosto de 2010)

Teatro: "Amor e Ponto"

Na última sexta, realizei um dos meus sonhos: assistir uma peça de um dos escritores que mais admiro. Digamos que esse sonho se realizou, e transbordou pelas bordas de tão intenso e verdadeiro. Faltavam olhos para tantas lágrimas. O espetáculo foi dirigido pela diretora Adriana Sottomaior, que soube transformar com maestria contos que eu julgava impossíveis de serem adaptados para uma peça, como "Os sobreviventes" e a "Dama da Noite", em retratos tão próximos do nosso cotidiano, histórias tão Caístas em cenas urbanas tão reais, sempre com o mesmo fim, esse ponto que o amor insiste sempre em dar. "Amor e ponto", pra quem conhece o Caio, pode ser a peça mais dilacerante que existe, mas também, pode ser um recado, embora indireto, de que o amor existe, mesmo mascarado de ódio e fúria, sua existência está aí, e nos acompanha cautelosamente. E o "escritor da paixão", como disse Lygia Fagundes Telles, sempre soube nos alertar dessa existência tão perturbadora de uma forma tão viva e árdua.

16 de dezembro de 2010

Aleatoriedades de uma tarde de quinta

Basta uma xícara de café.
Sem saber o que se quer ao certo, a velha idealização de tudo, as mesmas buscas desnorteadas de sempre, o mesmo sorriso amarelo e o cotidiano "sei lá". A gente sempre aponta o caminho mais difícil, aparentemente o mais bonito e mágico, com flores e tapetes de camurça vermelho nos primeiros metros, mas cheio de espinhos e pedregulhos cortantes depois que largamos nossos sapatos. Deixa ser como será, cantaram os Los Hermanos, e acabamos sempre por dizer amém.

14 de dezembro de 2010

Dias de tudo, dias de nada. Diálogo entre A e C

- Perguntas demais, pra respostas de nunca. Dias assim, que cumprem seu ciclo por obrigação de uma mente superior que ostenta todo poder em nos tornar vítimas de seus castigos e viciados em sua graça. Agora eu te digo, meu bem, não adianta você parecer assim tão insegura, tão acostumada com as pontadas da vida. Não te quero ver chorando pelos cantos como garota que pede socorro, me ajude, sendo que você não fez nada pra reverter essa situação. Não adianta nada, baby, a gente leva, a gente toma, toma bem tomado, tomados de tanto tomar é que vemos que temos muitos cálices para beber. Cecília, me escuta. Eu sei que está me ouvindo, não é ? Pois então. Todo mundo tem seus dias de paraíso e outros de consolação, a avenida Paulista tem eles todos dias, mas ela é ela. Você é você. É tão bom te ver assim, pra que quando eu for te ver feliz da vida poder pensar: "mais uma vez, ela se superou". Mas não adianta dizer coisas bonitas, utopias, sonhos demais e ter atitudes de menos. De belas palavras, as bibliotecas estão cheias. Talvez ainda te falte algo, embora não te falte nada. Chega disso, o bonde vai passar logo e você precisa encarar sua vida. - Posso te dizer uma coisa ? - Claro, Cecília. - Obrigada, mesmo. - Por nada.

13 de dezembro de 2010

A noiva


 Para Anna Xavier

Sorriso intenso, faceiro. Louca, diziam. Sempre querendo um atalho pra querer viver, jeitinho distraído como se nada estivesse acontecendo, uma mentira. Olhos azuis, tão azuis que pareciam flutuar sobre as córneas. Cabelos louros, como se fossem pintados um por um. Parece um segredo, tão bem guardado, que quem ousar descobrir terá de desvendar todos os outros que cercam sua alma. Não desista, meu bem, eu disse. Ainda virá teu Picasso pra te pintar com aquarela viva, te emoldurar num delicioso abraço e expôr nas paredes de um bandido coração espanhol.

11 de dezembro de 2010

A síncope da mulher de vestido negro

Carregava nas costas, todo peso do mundo. Suas mãos já estavam fartas de envelhecer de tanto esperar por serem tomadas. Era discreta, quarenta anos, metade deles mal vividos. Um cigarro atrás do outro, e a espera de sempre: a de sempre esperar. Tinha dias de luxo, quando decidia que ia parar de chorar. Morava num apê modesto no centro da cidade: janelas grandes, vazamentos, baratas, cheiro de mofo, vizinha evangélica, porteiro cearense com sotaque paraibano, correspondências acumuladas em cima da mesa, elevador pré-histórico, relógio digital no terraço do prédio da frente. Amou, talvez não como quisesse, mas amou, amou de tal maneira que decidiu nunca mais amar, amar é pra quem gosta de sofrer, gostar de sofrer é pra quem não quer amar por achar que vai gostar de sofrer. Durante o dia assumia o seu papel de funcionária pública exemplar, sete e cinquenta e nove na mesa tomada de processos e um porta-retrato sem foto. Onze e cinquenta e nove, com as unhas mal-pintadas, suas mãos carimbavam o último processo antes de se afogar no amargo café da repartição. Três da tarde, repetia a cena com maestria: levantava-se de sua cadeira giratória de tom amarronzado e partia na direção da garrafa térmica florida pra tomar mais um amargo café da repartição. Naquela tarde, especificamente, por obra do acaso ou do destino ou de Deus ou do demônio, um rapaz forte, crioulo, dentes negros de tão brancos, perfume de desodorante aerosol, foi tomar café nas mesmas três da tarde do amargo café da repartição dela. Você não é de muito papo, disse o rapaz. Relutante por palavras, impressionada com o tamanho dos seus braços, respondeu que não, que não queria parecer antipática, antisocial, anticultural, antiga, só que lugar de trabalho é lugar de trabalho. Quer sair comigo essa noite, eu sei que estou sendo um tanto quanto íntimo, mas é que cheguei a pouco tempo na cidade e não conheço muito bem os lugares, disse a ela enquanto seus braços eram observados com tamanho ímpeto por aqueles olhos. E ela: Olha cara, eu não tenho mais idade pra sair com um moleque da tua idade, quantos anos você tem ? Uns vinte, talvez vinte e cinco, vinte e três, que seja. O rapaz fingiu esconder a decepção, mas insistiu e disse que só queria ser amigo, que só queria conhecer gente bacana, novas amizades, você sabe. Tá bom, cara, às oito naquele barzinho na esquina do Mercado Municipal, disse ela, escondendo o enorme desejo de possuir aqueles lábios rosados que de tão delicados, não pareciam esconder por trás deles uma voz tão máscula e penetrante. Calçou os sapatos vermelhos que nem lembrava quando haviam sido comprados, vestiu o mais belo de todos os vestidos: o vestido negro. Ela já não conseguia esconder a súbita alegria, nem tinha percebido que tinha fumado apenas metade da carteira de cigarros, nem se tocou que a privada estava entupida, tampouco se importou com seus dezoito anos de profissão, sete anos de divórcio, quarenta anos de merda, cinco dias sem uma trepa, quarenta anos de certidão de nascimento. Eram oito e dez, e nada dele. Uma dose de vodca, por favor. Oito e meia, um negro alto passou, braços miúdos, não era ele. Tem alguma coisa mais ardente aí, perguntou. Nove e quinze: Porra, já devem ser umas três da manhã e esse maldito não chegou, vou esperar só mais quinze minutinhos, daí vou me mandar. Já passavam da uma, e ela, estirada sob a mesa de plástico, foi tocada pelo garçom que disse que o bar estava fechando, se ela queria mais alguma coisa, se ela queria uma última dose de caipirinha, ela fez que não com a cabeça e perguntou quanto foi, e ele disse que foram cento e vinte e quatro reais. Mas cara, eu não tenho toda essa grana, você deve estar enganado, eu não gastei tudo isso! Mas façamos o seguinte, eu te deixo aqui minha bolsa com todos os meus documentos, meu celular, e alguns preservativos, e só venho resgatá-la quando tiver todo o dinheiro, disse ao garçom que lamentava o estado da mulher. A porta de casa estava aberta, devia ter esquecido de trancar devido aquela empolgação de umas seis horas atrás. Naufragou no sofá, e como se estivesse à deriva, só pediu que dali não saísse viva, que tudo é uma grande merda, que os amores não tem cor, que os amores só servem pra aumentar o lucro dos donos de bar, que os amores que sobrevivem aos maremotos já nasceram com nadadeiras, que os amores só levam a velha espera de sempre: a de sempre esperar. Nunca mais ouviram falar da mulher do vestido negro, da funcionária pública exemplar, da mulher de quase um século de histórias mal contadas. Alguns arriscam a dizer que ela esperou todas as noites pelo crioulo na mesa do bar da esquina do Mercado Municipal, outros pensam que ela se matou, mas o que ninguém sabe é que quando ela usa seu vestido negro, seu único desejo é amar.

9 de dezembro de 2010

A confissão de uma mulher sentada ao meu lado

Por ela já passaram muitos que só queriam se tornar princípes, que só queriam ouvir, que só queriam se esconder mais do que se escondiam, que só queriam provar a jovialidade eterna, que só queriam lhe conhecer, que só queriam amar, que só queriam se promover, que só queriam se diminuir, que só queriam se aventurar, que só queriam beijar, que só queriam tocar o mais fundo, que só queriam ser mais do que amigos, que só queriam algum dinheiro (pra roubar), que só queriam se tornar um erro, que só queriam sentir, que só queriam provar que era uma merda, que só queriam ser capazes de sonhar alto, que só queriam se adulterar, que só queriam uma companhia tímida para a noite, que só queriam mostrar como o ser humano é materialista, que só queriam ser um símbolo de suprema beleza, que só queriam torna-lá inferior ao que realmente era, que só queriam esquecer do passado, que só queriam roubar a inocência, que só queriam fugir da rotina, que só queriam realizar um desejo implorado pelo olhar, que só queriam assistir um filme, que só queriam saborear o sabor da outra província, que só queriam a pegar em flagrante, que só queriam tocar o próximo que parecia tão distante, que só queriam descrever a doçura dos seus beijos num pedaço de guardanapo, que só queriam ser anjos iguais a sua protegida, que só queriam se tornar homens, que só queriam desvendar um segredo guardado, que só queriam dizer coisa impensadas enquanto dançavam sob o mundo, que só queriam apalpar, que só queriam se aproveitar da timidez, que só queriam lhe fazer princesa, realizar seu desejo de sempre caminhar, mesmo nos caminhos sombrios, a eterna busca de procurar. Apenas uma queria que nada disso tivesse acontecido.

8 de dezembro de 2010

Tudo é o olhar

Não te amo mais
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis
Tenho certeza que
Nada foi em vão
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada
Não poderia dizer mais que
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais

(Agora, leia de baixo para cima)

Clarice Lispector