3 de setembro de 2011

Inebriados ouviremos

E ele continuava a falar dos seus amores partidos, da sua labuta exaustiva, do seu chefe emotivo e de como era forte, ambicioso e implacável. Naquele instante, era muito mais interessante observar o movimento dos seus lábios do que realmente prestar atenção no que eles proferiam; eu disparava caretas de conformidade a cada final de frase e resmungava palavras que poderiam englobar todos os temas que ele entrava, os quais geralmente se relacionavam aos dissabores de sua escabrosa vida de merda. Ele molhava a boca com a cerveja barata, como se lambeasse, voraz, um prato de comida tendo desnutrição, o mais interessante foi vê-lo não vergar-se ao êxtase da embriaguez, continuava a contar suas histórias trágicas com personagens facínoras, monstros em forma de gente e fadas-madrinhas de uma ordem maligna. Me encolhi dentro do meu estado absorto e pensei na vida.

26 de agosto de 2011

Fleur de coton: les jours de lumière

E me deu vontade de ir correndo pro teu ombro, o que era comum nos dias da nossa sexta série. Me lembro de caminhar em sua direção, em volta as criaturas verdes de nike shox e perfume importado me apontavam com desprezo; quando você franzia a testa e me disparava um olhar preocupado, eu esvaziava os peitos da dor e me encolhia na grandeza do seu abraço que, acompanhado de palavras amigas e pedidos de calma, me fazia um pouco mais forte, ou dependente. Eu sei que era visto diferente e convicto sou de que você nunca chegou a usar os olhos para me ver; enquanto uns procuram ter olhos na cabeça, seu coração mantinha um bem aberto dentro dele. Tivemos dias difíceis, mas não me lembro de nenhum retorno não acompanhado de lágrimas e fins de recreio na capela vazia; algumas vezes precisamos ser mais fortes do que acreditávamos ser e em outras almoçávamos duas coxinhas do Xixo. Você parecia forte e rija desde cedo, o que hoje me faz pensar se você, em outra vida, não foi uma guerreira amazona ou uma rainha autoritária. Meses atrás, na última vez que eu te vi, eu tinha a mesma idade de quando te conheci; também tinha o mesmo dar de braços, o velho andar simétrico e o mesmo coração bobo, que queria se proteger no encanto do nosso encontro. Você estava virando uma mulher, já não era a menina de pernas finas que eu conheci, isso me enfureceu um pouco, foi então que resolvi me colocar no seu lugar e pensar que também era novo pra você ter que aceitar que aquele ser ao seu lado não era o mesmo que te escrevia bilhetinhos na primeira e última página do seu caderno. Me lembro da minha primeira conversa no msn, que foi com você, que também esteve na minha primeira festa de debutante e me deu um dos meus primeiros conselhos sobre o amor. Depois que você me abraçava, as criaturas verdes ainda estavam lá (e talvez ainda estejam), mas as labaredas pareciam mais baixas e no meu rosto até conseguia disfarçar um sorriso. E repito isso até hoje quando te lembro.

Para Fran.