
Estava mais preocupado com o que comeria no dia seguinte do que com alguma viagem requintada que pudesse fazer. Não sabia, por exemplo, se era necessário segurar-se nos corrimãos do metrô enquanto o veículo estivesse em movimento, também não sabia a diferença entre um cálice de vinho tinto e seco, embora soubesse que ambos poderiam levá-lo à boca da patente. Um dos momentos mais mágicos de sua candongueira vida havia sido no dia em que a província comemorava os trinta anos do seu último registro de neve, deveras algo aparentemente superficial a ser regozijado, mas uma máquina de neve artificial enchera seu olhar com alguma esperança de que aquilo era muito real para ser inexato. Pensava constantemente nas promessas largadas em cima da estante ou escondidas debaixo da cama em alguma caixa de sapatos, ele queria ter provado todos os sorvetes do cardápio da Sorveteria Formiga. E por trás da porta ouvia alguém dizendo que faria um longo cruzeiro pela costa norueguesa num navio de bandeira sueca, enquanto ele se recordava da primeira vez em que andou de ferry boat. Seu rosto contra o vento, o arrepio que o levava a esmo, as orações bem baixinhas, a proteção sigilosa e a estrela mais brilhante fitando-lhe, estática. As cartas sangrentas e os bilhetes rasgados que na fornalha viraram brasa e no silêncio viraram pó.
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