20 de julho de 2012

Cachorra

Tão inofensiva quanto ingênua, suas quatro patas lhe concediam um caminhar desengonçado, mais desnorteado que sua própria existência. Sua pelagem amarronzada tinha sutis listras pretas, seu porte era mediano; fiel, ela caminhava junto, embora estivesse distante dos manuais de adestramento e sua estirpe a léguas do devido reconhecimento. Não eram necessários assoviar, estalar os dedos ou oferecer petiscos para que ela viesse junto; ela ia, curiosa e esfomeada, sorrateira e extravagante, abanando com ímpeto sua cauda e vez em quando disparando um olhar de submissão e brandura, que parecia sobrar em seu corpo tão magrelo, quase raquítico. Vieram sugestões de nomes, mas daí já seria muita vaidade. Oito quarteirões depois ela se interessaria por um rapaz com uma cartolina branca na mão, a qual ele usaria para afastar ela e o seu olfato apurado.

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