Tristes e com os pés vermelhos sujos de terra, maravilharam-se ao perceber a chegada de um ônibus na tribo, apinhado de senhoras brancas que usavam suas câmeras Yashika como colar, entoando cânticos sacros. Mais que curiosos por conhecer gente vinda de tão longe, estavam famintos; não só de comida, é claro. Quando aberto o bagageiro do ônibus e os inúmeros pacotes de bolachas de polvilho podiam ser vistos, já formava-se uma fila nada indiana, onde o cacique — único a vestir traje típico, incluindo um vistoso cocar de penas vermelhas — ia logo garantindo seu lugar. As crianças ranhentas e as grávidas-mirins beliscavam-se e diziam "eu cheguei primeiro" no dialeto kaiowá. Procissões tomavam conta das ruelas da demarcação e as senhoras brancas agradeciam, contritas, ter o pão de cada dia. Os mais esfomeados enfrentavam a fila outra vez; uns escondendo o primeiro pacote debaixo da camiseta, outros optando pelo diálogo e recebendo, na lábia, mais um. Depois, como um agradecimento, dançaram clássicos tupi-guaranis para as senhoras brancas que faziam um coro de disparos de flash com suas Yashikas à mão.
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