15 de agosto de 2013

Paul, o mais brasileiro dos alemães

Era sempre o último a chegar à sala. Com sua corpulência toda, esparramava-se no sofá e dava o play num reggae ou hiphop alemão. Descabelado, ele contava como fora o seu dia, como era o pessoal da faculdade, o que tinha achado de tal guria ou daquele piá, as diferenças entre sua pátria amada Alemanha e o sucateado e insuspeitadamente gelado Brasil. Por alguns minutos, mantinha-se em silêncio, atento à tela do seu notebook, então levantava-se do sofá e voltava ao seu quarto, às vezes sem despedir-se. Durante o dia, geralmente dormia e só despertava de noite, com fome. Comia arroz com shoyu, arroz com legumes, macarrão alho e óleo, pão baguete chafurdado no requeijão. Quando em uma churrascaria, deleitava-se ao ver o garçom, vindo em sua direção, com um majestoso pedaço de alcatra à mão. Nas noitadas, ele era ponto de referência: um vistoso totem louro que atraía o olhar de todos, fosse pela fisionomia incomum ou pela sua grandeza. Embora não fosse de evidenciar seus sentimentos, era impossível não afeiçoar-se a ele. Teve uma vez que ele falou para um amigo que chegava à sua casa: "que bom que você veio, saudade!". O amigo deteve-se pensativo: nunca que um alemão desse tamanho poderia sentir saudades minhas. O prazer da companhia dele superava quaisquer entraves idiomáticos. Seus ouvintes eram atingidos por um misto de graça e orgulho, quando, instável, ele arriscava falar português. As frases eram um pouco inexatas, mas compreensíveis, e o sotaque, genuinamente gringo. Ontem, o dia da partida dele chegou. Era sabido que cedo ou tarde aconteceria isso nessa vida cheia de prazos. Acreditando que o veria antes do seu voo programado para às 19h50, dei-lhe um abraço que considerava ser o penúltimo. Ele acabara de emocionar-se ao receber uma bandeira brasileira contendo dezenas de dedicatórias saudosistas dos amigos que conheceu aqui, e, insolitamente, lágrimas se esvaíram dos seus pacíficos olhos. O penúltimo abraço foi difícil, afinal, antes dele, outras coisas ele havia feito pela última vez, como cozinhar seu macarrão apimentado, sujar a cozinha, executar uma música da sua playlist de músicas brasileiras, sentar-se à mesa, acariciar o gato, etc. Ninguém desejava aquilo, mas ele levantou-se, despediu-se e foi para o seu quarto, levando consigo a cintilante e rasurada bandeira do Brasil. Na tarde seguinte, receberia a trágica notícia de que o voo dele havia sido adiantado pela companhia aérea, o que obrigava-o a viajar antecipadamente. Com isso, não seria mais possível acompanhá-lo até o aeroporto para aquela despedida mexicana e emotiva. O penúltimo abraço foi eleito o derradeiro, à contra gosto. Agora, gostaria de estar sentado no sofá da sala dele, aguardando ele chegar, para dizer: "Estava com saudades. Trouxe cerveja?"

Nenhum comentário:

Postar um comentário