1 de julho de 2013

Não foi um junho qualquer

                                                                (foto: Amanda Queiroz)
Um triunfante mês de junho trouxe ao Brasil as esperanças que haviam sido extraviadas há muito tempo e uma estação de flores após um inverno que parecia ter sido eterno. Haviam nas ruas mais cartazes de protesto do que bandeirinhas juninas e as quadrilhas não eram de dança, mas de arruaceiros depredando o patrimônio público. Mais delicioso que vencer a Espanha na final da Copa das Confederações, foi ver a sociedade brasileira, a plenos pulmões, entoar a mudança que queria assistir. O preço da passagem de ônibus que paga todos os dias até a hora que fica adoentada e sofre para ser atendida no postinho, surtiu na inundação humana das ruas mais simbólica desde os tempos da recém-nascida democracia. Antes, o jogo da seleção brasileira era desculpa para transferir a votação de um projeto nas duas casas do Congresso Nacional para outra data. O que mais importava o Governo era articular a todo custo sua permanência no poder e produzir campanhas publicitárias mostrando 'um Brasil róseo', como falou um líder da oposição. Mas o patrão ficou furioso; cansou cada biênio ter que contemplar o sorriso trampolineiro dos candidatos na urna eletrônica e continuar enfrentando os rotineiros ônibus custosos e lotados, assistindo alunos a escrever piadas em redações e não amargarem um redondo zero, o atendimento subsaariano no hospital onde faltam gazes, seringas, médicos. O mesmo grito valia para a oposição —que também governa—, contra a discrepante distância entre os anseios do povo e os ouvidos dos políticos. Até contra o PSTU, que já é contra tudo. Prestes a cair na goela do lobo, o Congresso cedeu à voz do povo e apressou a votação de projetos há anos engavetados, fazendo o jogo da seleção brasileira parecer menos importante do que nada mais que a obrigação. Dilma, que ordena o comandante do seu avião oficial fazer longos desvios de rota para evitar turbulências, não imaginava que seu cálice transbordaria tanto numa convulsão em terra firme. Dito e feito. Nunca leu-se uma sequência de manchetes tão bem-vindas numa mesma semana: recompensa justa para quem trocou o ativismo virtual pelo presencial. Foi bonito o país vibrar uma impensada vitória no futebol, em casa, numa das grandiosas arenas que dispensam fossos e grades entre a arquibancada e o campo. Entretanto, os protestos dos últimos dias deixaram evidentes a vontade dos brasileiros em serem árbitros do próprio futuro e o lembrete de que nesse campo só admitirão quem tiver chances de emplacar um gol certeiro.

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