15 de novembro de 2011

Desenho livre

Os dedos deslizavam sob o vidro temperado. O vapor palmilhava sob as inscrições escritas. A verdade se fragmentava em gotículas de água tornando seu significado cada vez mais difícil de ser decifrado. Verdades cegas que ladrilhavam as veredas da disritmia. Cego seria se não visse além do vidro temperado; talvez algumas montanhas, uma casinha com chaminé e um sol sorridente a iluminar pessoas-palito de expressões amistosas. Verdades como o vapor: que salientava as bordas, acomodava as linhas verticais e reforçava o contorno das curvas. Enquanto em silêncio, ainda ajoelha-se, faz uma prece. Esquece do mundo. Vai deitar.

10 de novembro de 2011

Circular Sul

Os dez reais que tinha no bolso seriam suficientes pro vt e para uma carteira de cigarros mentolados. O cabelo estava bagunçado, os olhos cheios d'água, os pensamentos em algum lugar onde a reflexão não conseguia atingi-los. Era uma viagem longa para a civilização que morava nos arredores do Boqueirão, bairro com o maior número de conjuntos habitacionais por quilômetro quadrado da província. Até chegar lá, teria que pegar um ligeirinho e um expresso, os quais estavam abarrotados de almas quietas segurando o corrimão de ferro, olhando pros seus desertos internos. Enquanto fitava a janela, esquecia um pouco do seu óbito moral. A linha verde mais parecia vermelha. Quando ele chegou lá, foi recepcionado por aquela que, preocupada, fez questão de abraçá-lo como se fosse sua mãe, levando-o em sigilo para um quarto nos fundos da residência. Ele não hesitou em acariciar Madonna, uma amigável cocker que alegrava um pouco a confusão daquele lar. O que ele disse ou deixou de dizer a ela naquele momento hoje já não importa mais, mas o semblante angelo-materno da garota, o quarto com as portas fechadas, os quadros da Marilyn, as apostilas pro vestibular, o espelho que também servia de cortina, o closet que guardava roupas, seus filmes tristes, sua coleção completa de Gossip Girl e seus segredos, guardados nas estantes mais altas estariam guardados num dos altares mais vistosos que já havia feito. Fazia por ele, como se fosse pra si, encontrava algum porto seguro naqueles olhos de águas turvas e agitadas. No dia seguinte, sem saber porque, ela esparramou-se no sofá e assistia um show do Chico com um semblante de dor, uma dor que de longe notava-se que não ser física. Escutava João e Maria. Foi a primeira vez que ele a viu como nunca quisera ver. Bom, depois que essa situação se repetiu pela segunda vez, daí era rotina e todos já haveriam de estar conformados. Ela pedia silêncio da forma mais indiferente possível. Suas pupilas se contorciam com tanto desprezo que a trilha sonora mais parecia resgatar sua restante vontade de viver, esquecida em alguma estante alta do seu closet.

3 de novembro de 2011

Senhor D.

                                          

Senhor D. queria comer chocolate. Sua memória fazia questão de relembrá-lo das mordidas que estimulavam possíveis pensamentos arbitrários à sua própria vontade: ou mordia um grande pedaço e o mastigava com ímpeto enquanto a pasta alimentícia composta de cacau e açúcar se dissolvia no interior de sua boca ou mordia fragmentos menores e os mastigava como se fosse comida oriental, visando o bom aproveitamento da pasta alimentícia composta de cacau e açúcar. Senhor D. era um homem feliz. Sobretudo quando conseguia limpar 90% do pó acumulado da sua casa sem janelas pra algum quintal verdejante com alguma horta com cebolinhas, abóboras gigantes e um banco de praça decorativo debaixo de algum flamboyant de troncos retorcidos. Senhor D. conseguiria fixar o cartaz que pretendia em cima da cômoda da tevê. Ele ficaria muito feliz com isso.