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25 de setembro de 2012

Cecílias de agosto

E suas memórias pareciam vãs, já que conseguiu ver-se livre daquilo que já não tinha utilidade. Mais precisamente quando não notou quem sempre fez-se presente, ausente de qualquer inclinação da sua parte. Nunca mais escreveu cartas. Trocou seu perfume pelos miasmas de eternos agostos. Despiu-se na porta da Igreja, causando enorme alvoroço. Ainda ontem merecia uma flor; hoje merece uma coroa de louros, pelo crescimento acentuado na taxa de desvalorização, apontada em levantamentos recentes. Verga-se compadecida por ter optado pela meia-volta e prossegue debatendo-se contra as paredes, derrubando os quadros e estragando a mobília, a expensas de um sossego fajuto que cruzou a ponte da amizade sem revista. Com sua mais inculta modéstia, pinta a boca e realça os cílios como se pintasse o mesmo quadro todo dia. Até parece que não precisa de mim. 

4 de agosto de 2012

Refúgio e litígio

Desencontrada no mapa, permanece inaudível sua maliciosa risada que surgia acompanhada de um olhar sensual e insinuante, maldoso e dilacerante, a enfeitar seu rosto meninil que com madeixas escarlates se emoldurava. Acostumada com eternidades efêmeras, se vê em apuros assim que o sol se vai; de noite, afastada de superfícies pontiagudas, se desbota em profunda melancolia e, como de costume, acaba entregue sempre às mesmas sangrias. Em sua solidão nada mais cabe; é como um quartinho nos fundos onde se guarda de tudo  bugigangas, bicicletas, cartas sem remente, vassouras de palha, um par de asas, discos velhos, porcelanas do último casamento  e quando se arrisca procurar alguma coisa, por estar tão bagunçado o cômodo, o mais conveniente é desistir da empreitada. Ilhada na poesia morta, seu corpo se difunde com palavras inquietas e, outorgado o direito de sofrer, mais ainda se dissipam seus gritos de socorro na escura madrugada. 

20 de junho de 2012

Cecília Braun

Ah, se eu pudesse eu te ofereceria novamente uma rosa, um poema ou um buquê delas e uma coletânea deles. Pediria conselhos ao grande Chico pra entender o seu tipo, se fico ou se pisco, se escondo meu amor ou me arrisco, se viro o disco ou peço bis. Quando penso em dormir você aparece com os cabelos vermelhos  não tanto quanto os lábios   e tão bem se esconde na bagunça do quarto que da sua procura me faz desistir. Me perturba então saber que está por perto e que é certo desesperar-me enquanto você nada diz. São cartas marcadas, mas resta entusiasmo pra fingir que tudo passa, que a rosa pode ainda ser feliz mesmo maltratada num canto do jardim.


Parabéns, Grande Chico.

30 de maio de 2012

O último fim

Embora exista, a saudade pode preferir o recato, a indiferença e aquele olhar caricato de vilã mexicana fitando um ponto fixo. Mas difícil é admitir o desconforto, a sensação de que já fomos amigos, o pesar de que já foi-se a hora e que agora, pra te olhar, é preciso ter alforria. Não foi mais forte o dissabor da presença de outrem, nem sua influência dominadora e desregrada que se amarga a cada mexida. Tampouco a falta de tempo, o "tenho um compromisso" ou as dores de cabeça, a coriza da facínora rotina. E pensar que se equilibrava em meus sapatos para batizá-los, não para enlaçar mais fácil seus braços por trás dos meus ombros, como acreditava.

20 de abril de 2012

Frente inverso

A música que menos ouviu daquele álbum intitulava-se “Depressão”. Uma ironia. Quem hoje a vê sorrindo, não tem mais no que acreditar. É capaz de confundir a figura, acreditar que não mais se tortura e que é loucura deixar isso tomar-lhe tempo a pensar. Mas deverá ser ela mesma, afinal, julgará que àquela altura talvez pudesse já ter descoberto como manter controlados os músculos faciais diante da tamanha desordem de seu inside. No entanto, ela paga o amor delicado com moedas roubadas, enfeita as bordas de uma carta com ácidas lágrimas e vive com o tormento de não ter se espetado com os espinhos certos. Enquanto isso disfarça um sorriso aos que não lhe compreendem e aos que zombam dela, somente. Coleciona ponteiros de relógio, pelo menos até que algum seja atilado ao seu tempo desatualizado.

6 de abril de 2012

Lábios carmesins

Não era moça de se dar ao desfrute, muito pelo contrário, sabia seduzir com o ímpeto de uma ave e com a inocência de uma donzela quando lançava olhadelas que titubeavam os rapazes que pela janela passavam, recorria ao batom vermelho quando não queria ouvir mais conselhos, escondia-se do mundo como um gatinho assustado e borrifava um pouco mais de perfume pra garantir que notassem por ela. Olhava-se no espelho amiúde, seus lábios contorciam-se como os de Marylin Monroe, em suas orelhas buzinavam mais que o fom-fom do Chacrinha, seu mundo era um moinho e do pó dos seus sonhos mesquinhos ela fazia um deserto, deserto que de tão abrasado, queimava seus pés. Ela compreendia o que era o desejo – embora não soubesse disso. Enquanto suas exigências existenciais fossem mais relevantes que os prazeres amantes, como poderia ela, enfim, definir as palavras dissonantes que falavam-lhe o coração ?

15 de março de 2012

Ano dos dragões

Depois das insanidades do carnaval, Cecília precisava de um pouco mais de folia pra camuflar seu samba-canção desafinado. Como era do seu feitio, tornou a ajustar suas relações bilaterais com as lacunas de sua psique, resgatou antigos costumes como abraçar seu velho amigo Ludovico e, como se não bastasse, resolveu virar consumista. Agora além de desafiar as leis da física quântica, ela também desafiava o limite do cartão de crédito e das suas taras de garota inserida. Quem sabe assim ela pudesse se refugiar em páginas novas, bem longe das histórias mofadas que estava acostumada, cujos finais infelizes eram sempre felizes. Enquanto folhas novas chegavam prensadas, folhas velhas iam se desquitando das suas bainhas e deixando empregadas estupefatas de tanto varrer a calçada. O tempo lá fora parecia feio. Acostumada com tempestades e em esquecer a capa de chuva, ela resolveu dançar sob as poças d’água da avenida. Encheu os pulmões e quando gritou, tossiu. 

12 de fevereiro de 2012

Dos amores, o mais insano

Já não sabia o que sentia, se sentia ou se tinha permissão para sentir. Enquanto jurava, desconjurava seus recatos e no porta-retratos, com rubor nas bochechas, seu rosto ainda insistia em sorrir. Por ser o personagem o mesmo, era previsível que tudo acabaria a esmo. Daria golpes truculentos no espelho, usando seus poderes de destruição em massa contra um próprio fio de cabelo. O personagem, o velho amor, cheio de remendos e recalques, ainda insistia em prosseguir com dor, acreditando que em seu teor existia redenção para a obsessão que era seu maior desastre. Já não era do seu feitio enfeitiçar, poderia oferecer cordiais suspiros e um buquê de rosas, só lhe restava um dia o desapego, no descaminho que recusou a aprender trilhar. Mesmo repercutindo o fato de não dar em nada, sabendo que sobraria pra quem estivesse oferecendo um ombro de mão beijada, a história ainda perdurava como um conto heroico inspirado em tramas mexicanas. Felicidade, contudo, necessita de sanidade. Um amor insano é passaporte garantido para mais um engano, disso já se sabia, embora parecesse desnecessário alertar mais.

De: Anônimo

Imponente, faraônico, indestrutível amor. Sentimento dúbio que ambas indefinem, apenas vivem. Fazem dele desculpa pra estarem juntas, desculpa pra não interromperem o que já existe, desculpa pra facilitar tratamentos psicológicos, desculpa pra pedir desculpas. Todos sabem que é esse o novo velho fim, pelo menos o desta semana. Sorte a elas que não sabem o que fazem, sorte se ainda descobrirem o que se deve fazer, sorte ao aprendizado que insiste em não ser passado. 

31 de janeiro de 2012

Fruto censurado

Mais que a solidão de existir, acima do consentimento de autodestruição, puderas enganar a si mesma com controvérsias e reviravoltas displicentes, sabendo que era do seu feitio permanecer confusa e exaurida de explicações mais, burlando o sentido de sua própria existência, fatigando o mundo com o caos do seu labor. Enganou-se acreditando que aquela suculenta maçã poderia salvar sua vida. A cada dentada, ela um pouco mais apodrecia. E você só descobriu depois de ter saqueado a macieira inteira. É tão mais fácil achar pesadelos bonitos depois de saber que os sonhos são só desculpas esfarrapadas para continuar prosseguindo e que eles, por mais entusiasmantes que sejam, continuam sendo apenas sonhos, pequenas rachaduras imaginárias no plano real que parecem raios de sol invadindo a mata densa. Por isso mesmo sabes que é difícil. No entanto, a cada dia novas oportunidades de sorriso e convites para celebrar a vida batem à tua porta. Talvez você descubra isso quando parar de atender somente a porta dos fundos. Pode ser que a aurora não venha tão cedo, assim como a certeza de que ela nunca deixou de estar ali. Enquanto se reduz ao que lhe desespera, há o que lhe reluz, e traz champagne e duas taças.

9 de janeiro de 2012

Com sombra de dúvidas

Pedia socorro em silêncio. No silêncio pedia socorro pelo simples fato de não ter mais voz diante da frustração de nunca ser ouvida. Estariam todos surdos ou estaria ela à beira de outra incerteza, daquelas que, apesar de incertas, eram tão verídicas quanto seu teor de dúvida ? Nunca se soube. Passava as tardes bolando um recomeço, rezava um terço em pensamento enquanto esculpia lágrimas no contorno dos olhos, refugiava seu medo no peito do imperfeito, que de tão perfeito simplesmente resistia ao defeito de existir. Dominada pela resposta não dita, abria novas fronteiras em seu latifúndio no campo da dúvida, onde cultivava a arte da espera com maestria, no entanto esperava em vão; ainda não haviam lhe revelado como se plantava num deserto. A música que a amaldiçoava também lhe oferecia idolatria, escondia nos seus versos todo o pranto que ousava apoderar-se do único poço que restava no terreno. Tão decidida quanto contrariada, engoliu sua salvação manipulada. Se lembrou daquela lei, onde era obrigado ser feliz. Depois escondeu seu maior segredo debaixo do travesseiro. Esqueceu-se de que aquela noite dormiria sozinha.

4 de janeiro de 2012

Enquanto o carnaval não chegar

Seu sono havia durado apenas quatro horas na última noite. Como estava naqueles dias, e estes eram vividos debaixo de um incandescente sol veranil, toda sua atenção estava voltada para os giros do ventilador. Na tevê, mais um reality show mal dublado tornando abóbora, carruagem. No ar um espesso aroma de citronela, na tentativa frustrada de expulsar os insetos de verão. Longe de tudo isso, estava ela. Tendo em vista o objetivo da mudança, mas mesmo assim, nutrindo o medo de nunca mudar. Esparramada no sofá, esquecida pelo mundo, questionava à Deus que vida era aquela. Mais distante ainda estava qualquer possível fragmento de resolução, embora tentassem mostrá-lo diariamente em programas de auditório, entupidos de infomerciais apelativos, prometendo beleza extrema e aos quadris, redenção. A felicidade era dela vizinha e nunca batia-lhe à porta para fazer uma modesta visita. Ela até já tinha feito alguns confeitos, sua torta preferida, escolhera as rosas andinas mais suntuosas, a toalha de mesa rendada, tudo para que a primeira impressão fosse de uma pessoa receptiva e hospitaleira. Inútil foi esperar a felicidade observando os ponteiros se esvaindo, enquanto a desvairada extravagância da espera, como paisagem do cerrado, cumpria seu processo de desertificação. Quiçá algum dia, por descuido ou rebeldia, Cecília ainda arrombe as janelas, estoure as fechaduras ou cave um buraco diante dos seus pés. Gritando pelas ruas, nos bosques, pelos flamboyants das grandes praças: "Agora eu cobro com juros, toda a desgraça que um dia você me fez". No entanto se quedará calada, ruborizada depois de perceber que nunca houve nenhum culpado, só mesmo o pecado de sempre pecar.

14 de dezembro de 2011

A experiência taurina


Camuflava o seu vivo dourado com a cor do pecado e caminhava sem gentileza, esperando  a sexta-feira, quando encontraria seu amado num café aristocrático, atrás de um sofá de couro, numa daquelas três mesas. Uma risadinha leve, seus olhos contorcidos de incerteza, já não era ela quem cavava os buracos: eram eles que se abriam diante do seu passo sem firmeza. Os roedores insistiam em mastigar seu tempo, as loucas lhe pediam um momento, seus espectros je ne sais pas, embora eu soubesse que ela aguardava, ansiosa, a sobremesa que nunca chegava. Esmagada, revigorava-se com o brilho pueril das fotografias amaçadas, das noites abrasadas, dos lenços que viraram pano de chão e do vazio que tornara-se tão nítido quanto uma companhia. Não vendo outra forma de manter o recato, pintou de vermelho seus lábios, penteou o cabelo escarlate, pediu pra puxar o zíper do seu vestido bolchevista e perguntou “Estou bonita ?”. Fiz que sim com a cabeça e confessei “Tenho receio”, mas aí já era tarde. Ela preferia cuspir no prato do que lavá-lo com as últimas gotas d’água do seu cantil de cachaceira. Quando abriram a porteira, a multidão gritava alto, receptiva e lisonjeira. Cecília, que não era especialista na arte tauromática, percebeu logo que o bicho não era manso, muito pelo contrário, era o diabo que feito bovino, lhe fitava sem nenhuma sutileza. Ela então abriu os braços, prendeu os cabelos e vendo a fera tentou manter a calma, o que sempre era tido como uma incerteza. O animal correu no ato, atingiu em cheio seu peito cálido, agitando toda a arena. Foi quando acordou e viu que não se passava de um sonho mal educado que lhe afligira a noite inteira.

6 de dezembro de 2011

Ilustre desconhecida

Tudo parecia muito caricato sem o mal súbito da sua mente suspeita de suicídio. Foi então que seu corpo despencou de si mesma, como se sua própria mente furtasse todo o equilíbrio que a mantinha em pé. Suas mãos trêmulas apertavam, inseguras, qualquer pedaço de matéria que viesse assegurar a prudência que naquele momento inexistia, suas pernas contorciam-se de medo, o chão parecia confortável o suficiente para acomodar suas mágoas e dilaceramentos. Seu acompanhante, com um heroísmo que não lhe era de praxe, acomodou-a em seus braços e defendeu-lhe dos monstros e das potestades noturnas, embora parecessem fadas e teletubbies diante dos enclausurados fantasmas que habitavam o inconsciente cada vez mais consciente da moça. Depois da sua alma ter descido ao submundo, sua respiração parecia recuperada, os olhos encharcados de lágrima e pudor escondiam qualquer vestígio de falta de lucidez que, por ventura, pudesse ter sido perpetrado. Quem cultiva bomba-relógio, colhe bomba atômica – e ela sabia muito bem disso, inclusive especulava-se que sua safra deste ano seria recorde.

1 de dezembro de 2011

Rainha do deserto


Tinha a boca vermelha. Elegantes cílios postiços emolduravam seus pudicos olhos juvenis. Seu casaco de general, sua calça dins rasgada, seu perfume de baunilha, os batidos sapatinhos vermelhos. Sua missão: navegar ao Novo Mundo. Não que ela tivesse espírito colonizador, nem mesmo o fato dela ter cometido massacres devem ser relevados. Ela só queria mesmo era fugir dos terremotos e furacões subtropicais, dos cruéis sapateiros, das daguerreótipistas loucas, das roupas na piscina, dos príncipes desamparados e das terrificantes tarjas pretas. Colocou dentro da mala seu mundo, surpreendeu-se ao verificar que não era muita coisa, escondeu as chaves debaixo do tapete com pegadas de barro, vislumbrou com melancolia o alaranjado imóvel que abrigou sua vida, partiu sem deixar rastros e esqueceu-se de levar a escova de dentes.

10 de novembro de 2011

Circular Sul

Os dez reais que tinha no bolso seriam suficientes pro vt e para uma carteira de cigarros mentolados. O cabelo estava bagunçado, os olhos cheios d'água, os pensamentos em algum lugar onde a reflexão não conseguia atingi-los. Era uma viagem longa para a civilização que morava nos arredores do Boqueirão, bairro com o maior número de conjuntos habitacionais por quilômetro quadrado da província. Até chegar lá, teria que pegar um ligeirinho e um expresso, os quais estavam abarrotados de almas quietas segurando o corrimão de ferro, olhando pros seus desertos internos. Enquanto fitava a janela, esquecia um pouco do seu óbito moral. A linha verde mais parecia vermelha. Quando ele chegou lá, foi recepcionado por aquela que, preocupada, fez questão de abraçá-lo como se fosse sua mãe, levando-o em sigilo para um quarto nos fundos da residência. Ele não hesitou em acariciar Madonna, uma amigável cocker que alegrava um pouco a confusão daquele lar. O que ele disse ou deixou de dizer a ela naquele momento hoje já não importa mais, mas o semblante angelo-materno da garota, o quarto com as portas fechadas, os quadros da Marilyn, as apostilas pro vestibular, o espelho que também servia de cortina, o closet que guardava roupas, seus filmes tristes, sua coleção completa de Gossip Girl e seus segredos, guardados nas estantes mais altas estariam guardados num dos altares mais vistosos que já havia feito. Fazia por ele, como se fosse pra si, encontrava algum porto seguro naqueles olhos de águas turvas e agitadas. No dia seguinte, sem saber porque, ela esparramou-se no sofá e assistia um show do Chico com um semblante de dor, uma dor que de longe notava-se que não ser física. Escutava João e Maria. Foi a primeira vez que ele a viu como nunca quisera ver. Bom, depois que essa situação se repetiu pela segunda vez, daí era rotina e todos já haveriam de estar conformados. Ela pedia silêncio da forma mais indiferente possível. Suas pupilas se contorciam com tanto desprezo que a trilha sonora mais parecia resgatar sua restante vontade de viver, esquecida em alguma estante alta do seu closet.

29 de outubro de 2011

Cecília e o zepelim prateado

Naquele prédio haviam sete andares, dois elevadores com capacidade para dezesseis pessoas ou oitocentos quilos, cada andar era vigiado por um policial com artilharia pesada suspensa no cinto que segurava as calças que, trivialmente, salientavam o preparamento físico rigoroso destes que visavam o cumprimento da ordem e disciplina dos que por ali cruzassem. Todos os aprendizes daquela Ordem trajavam uniformes de cor esverdeada; os mais evoluídos vestiam o preto, que representava o luto antecipado da próxima etapa de suas vidas: a realidade. Ela subia as escadas com seu passo pra dentro, suas madeixas louras, seu queixo engraçado, seu olhar também era desconfiado, mas que não afetava nenhum milímetro dos músculos faciais, seu uniforme preto destacava que era diferente, só não a tornava menos interessante. Não que esse seja o começo de uma história de amor, muito menos que eles tiveram final feliz algum dia. Pouco se via. Muito se questionava. Mal sabia ele que naquele três de novembro em que ela subia as escadas até o sétimo andar, que abrigava um grande auditório da Ordem e um modesto refeitório onde eram servidas iguarias do cardápio escolar, suas tentativas de ser poeta teriam algum significado. Mal sabia ele que esse significado seria ela, mal sabia ela que estava sendo observada por um indivíduo que achara nela algum significado para sua fuga adolescente. Foi quando por trás de uma porta dobrável com um triângulo de vidro ao meio, ela se virou para ele; com um olhar tímido e poético, os lábios estavam secos, a sombra e o rímel simétricos. Ele, de certa forma, teria se aproximado dela propositalmente e ela nunca haveria de saber disso. Seu cabelo estava bagunçado, seu uniforme era evidentemente verde, o que era visto como imoral àquelas horas no sétimo andar. "Oi", ela disse. Os efeitos do Picasa lhe faziam muito bem, tanto quanto o perfume de baunilha que usava. "Oi !!!!????", respondeu ele. Não era proibida a comunicação entre os indivíduos de uniformes de cores distintas, mas era atípico o contato entre eles. Nos dias seguintes, em todos os dias em que ela passasse na frente da sala dele, ele a veria fazendo um aceno pela vidraça da porta de madeira, sempre com um sorriso intrigante, com a impressão de que pra eternidade levaria o que naquele instante não passava de corriqueiro.

O indecifrável desconhecido irreconhecível

Toda vez que ouvia falar dele eu o imaginava minuciosamente como um protótipo de herói charmoso de filme de quinta categoria, que mesmo com todas as adversidades da barata produção, conseguia oferecer alguma curiosidade derradeira. Sempre era retratado por seus longos pelos faciais, seu agasalho de lã vermelha, sua maneira intrínseca de esconder algum possível e surpreendente sentimento que viesse depois de um proferido "olá" de algumapessoa que ainda mantinha nos olhos uma secreta harmônia com os dele, e por último, pelas cicatrizes da sua alma, que ele parecia esconder enquanto fazia da sua vida um funeral com muitos copos-de-leite e rosas vermelhas espalhadas pelo ambiente asqueroso e fétido. Ele, de certa forma, parecia ser um sujeito legal. Embora sempre acabasse sendo visto como um indivíduo com poderes sobrenaturais na arte de ser questionado. As pessoas encostariam suas cabeças nos travesseiros de penas de cisnes brancos das lagoas artificiais de uma das muitas fábricas de almofadas e travesseiros, e dividiriam qualquer pensamento pré-importante com a imagem dele exposta em mais de 51% dos seus cérebros congestionados de fumaça e pensamentos nocivos à decadente população de neurônios. A origem de toda essa minha besta curiosidade é incerta, talvez fosse por obra de algum comentário ou vários deles que contam por aí. "Às vezes não é muito difícil adivinhar que ele seria o mais difícil de ser adivinhado" -pensei eu, enquanto adivinhava ele, novamente, numa roda de prosa um tempo atrás. A adolescência ao fim chegaria, com ela a lembrança de um jovem segredo, que tinha corpo de homem e que estava ali pra cumprir a missão de ser segredo pra todos que ousassem achá-lo indecifrável.

6 de outubro de 2011

A rapariga loura e seus sushis

Ao mesmo tempo que eram unha e carne, também eram unha na carne. O faqueiro da casa não possuía lâminas tão afiadas quanto as dos maldizeres proferidos a cada conclusão de ciclo, nem as rosas eram tão cheirosas quanto o perfume das palavras contidas nas cartas de reconciliação. E era de fato assim, o néctar daquele sentimento não existiria se não houvessem podas regulares com pequenas primaveras a ordenar sua nova redenção. Aquele amor, servido pela garçonete do restaurante japonês e apreciado pela rapariga de cabelos louros, fugia de toda e qualquer interpretação. Como podia ser feito de amor, dor, torpor, temor e ainda ditar regras, caminhar na chuva, levar na estação-tubo, dizer que ama e mesmo assim dizer que não ? E toda vez que se abraçavam de volta é como se estivessem voltando ao primeiro dia em que se abraçaram mais forte, talvez um abraço tímido, mas com o desejo de cumprir no segundo o que deixaram de demonstrar no primeiro. Mesmo sabendo que why she had to go, I don't know, she wouldn't say, partiam inseguras e discretas pro ato final, que logo voltaria a ser prólogo e assim por diante. Pelas armadilhas do tempo, ainda há quem questione: será que a rapariga loura só queria comer sushis ?

1 de outubro de 2011

Desconhecidos

Um dia passarás do outro lado da alameda, caminhando com os passos pra dentro, teu velho all star vermelho e o cheiro de baunilha a dissipar pelo poluído ar. Não me olharás como preverei antes de ver-te, esquecerei dos infortúnios do passado e em questão de segundos pensarei que poderias naquele segundo lançar um olhar em direção a mim, o qual seria suficiente pra fazer daqueles segundos os melhores do dia. Todavia não me olharias, nem que fosse de relance, não dando chance pro destino insistir em resistir ao que já havia perdido força há muito tempo. No entanto, me alegraria a sensação de ter te visto, embora soubesse que era o ingresso para outro dilema a se argumentar com os botões antes de dormir. Minuciosas e sorrateiras seriam as lembranças tuas: o teu cabelo com talco, os teus mais obscuros segredos, o teu karma desregrado. Você.