20 de julho de 2012

Cachorra

Tão inofensiva quanto ingênua, suas quatro patas lhe concediam um caminhar desengonçado, mais desnorteado que sua própria existência. Sua pelagem amarronzada tinha sutis listras pretas, seu porte era mediano; fiel, ela caminhava junto, embora estivesse distante dos manuais de adestramento e sua estirpe a léguas do devido reconhecimento. Não eram necessários assoviar, estalar os dedos ou oferecer petiscos para que ela viesse junto; ela ia, curiosa e esfomeada, sorrateira e extravagante, abanando com ímpeto sua cauda e vez em quando disparando um olhar de submissão e brandura, que parecia sobrar em seu corpo tão magrelo, quase raquítico. Vieram sugestões de nomes, mas daí já seria muita vaidade. Oito quarteirões depois ela se interessaria por um rapaz com uma cartolina branca na mão, a qual ele usaria para afastar ela e o seu olfato apurado.

9 de julho de 2012

Disritmia de inverno

O frio, tossiu
Culpou o resfriado
Tripudiou, depois calou
Daí cuspiu no chão do bonde
E os sonhos de monte
Montanhas, avalanche
O velho horizonte borrado


Bebeu água do chafariz e partiu infeliz
Reclamando do mundo
Do cheque sem fundo
Queria ter sorte, o amor mais profundo
Um tostão pra apostar na Mega
Mas a faca era cega
Não menos que os olhos
Não mais que o coração

3 de julho de 2012

Vinho e água

Agostina e Escolástica estão sentadas à mesa para almoçar. Como de costume, Agostina toma uma, duas, três taças de vinho tinto antes da refeição, deixando a irmã disparar um olhar de crítica e moralismo, que lhe era devido. Escolástica é adepta de uma vida saudável, embora esqueça disso aos sábados quando, impetuosa, chafurda-se na feijoada cheia de toucinhos. Agostina acostumou-se a servir uma mesa farta para cinco pessoas e sempre gostou de temperos fortes, da riqueza calórica e claro, da obrigatória garrafa de vinho. Quando as duas almoçam juntas, o silêncio inglês somente é quebrado por comentários ácidos feitos de modo imperativo. Agostina sempre pergunta pra onde sal fugiu e Escolástica sempre relembra a irmã de que ela precisa cuidar mais da pele, que retruca: "Vou tomar mais banhos de cal". Desfeita a mesa, é servido o tradicional café; pelo menos nessa hora as duas baixam a guarda, discutem política e reclamam daquele aumento que nunca saiu.