Tristes e com os pés vermelhos sujos de terra, maravilharam-se ao perceber a chegada de um ônibus na tribo, apinhado de senhoras brancas que usavam suas câmeras Yashika como colar, entoando cânticos sacros. Mais que curiosos por conhecer gente vinda de tão longe, estavam famintos; não só de comida, é claro. Quando aberto o bagageiro do ônibus e os inúmeros pacotes de bolachas de polvilho podiam ser vistos, já formava-se uma fila nada indiana, onde o cacique — único a vestir traje típico, incluindo um vistoso cocar de penas vermelhas — ia logo garantindo seu lugar. As crianças ranhentas e as grávidas-mirins beliscavam-se e diziam "eu cheguei primeiro" no dialeto kaiowá. Procissões tomavam conta das ruelas da demarcação e as senhoras brancas agradeciam, contritas, ter o pão de cada dia. Os mais esfomeados enfrentavam a fila outra vez; uns escondendo o primeiro pacote debaixo da camiseta, outros optando pelo diálogo e recebendo, na lábia, mais um. Depois, como um agradecimento, dançaram clássicos tupi-guaranis para as senhoras brancas que faziam um coro de disparos de flash com suas Yashikas à mão.
23 de outubro de 2012
2 de outubro de 2012
Vera
E chegou meio de lado, com alguns resquícios de um veranil inverno, a prima Vera. Debruçada na janela, ela franzia a testa só para fitar o voo do laborioso joão-de-barro e o vigor das folhas das árvores primaveris; torcia para que nelas florescessem as flores amarelas que invadiam suas copas e sujavam as calçadas, destemperando as empregadas.
1 de outubro de 2012
Confissões de um gato alviprateado
Humanos são animais difíceis de se lidar. Acham que só fazendo carinho irão garantir que em seus colos eu fique, ignoram o meu afeto às cinco da manhã, espirram água para evitarem meu suicídio — quando na verdade eu apenas observo a rua em cima do balaustrado — e se esquecem de deixar uma fresta da cortina aberta para um banho de sol eu tomar. Embora complicados, os humanos são quentinhos; gosto neles roçar meu focinho, fazer minha toalete e meu corpo repousar. Outro dia trouxeram um animal de miado estranho, com um jeito de andar desengonçado; no primeiro dia talvez ele tenha tentado ser simpático, entretanto no segundo já me perseguia como se eu também vivesse de ossos, guias e coleiras e ao terceiro eu já pensava numa das minhas sete vidas desperdiçar, me atirando do badalado balaustrado. Já não sei mais qual é meu maior predador, mas agradeço por terem trocado minha ração: aquela última em forma de peixinhos era ultrajante.
Assinar:
Postagens (Atom)