30 de setembro de 2010

Uma noite sem boa noite


Deitados na cama posta sobre o chão, uma luz azul de algum
eletrônico, Fiona Apple com sua doce voz, paixão ardor torpor
entorpecimento silêncio pareciam uma rede com sorrateiros
entrelaces. Não se disseram "boa noite", estava evidente
demais que era.

25 de setembro de 2010

400km/h

(Para ler escutando "Porque a gente é assim" do Cazuza).

Curitiba, 4 de setembro de 2010.
No mesmo lugar de tantos encontros e desencontros, plataformas
silenciosas, de vozes aguçadas que perdem-se pelos corredores
de concreto-acinzentado-lichado, apertados, cheios de bagagem e
corpos, estou. Os velhos (e tão conhecidos) olhares espantados de
surpresa e angústia parecem contrastar-se. Estão sentados a minha
frente um senhor de uns cinquenta anos, de bigode grisalho, olhos
atentos ao relógio e as mãos ocupadas segurando o braço esquerdo
da esposa, aparentemente, mais jovem. Ela, carregada de um ar
de "conformidade", permeia seus olhos pelo ambiente cinzento.
Também há um garoto junto a eles, talvez o filho, de uns 12 ou
13 anos, cabelo tigelinha, com uma bolsa de couro carcomido nas
mãos. Faltam dezessete minutos. Como os esperei.


Em algum lugar do norte paranaense, 5 de setembro de 2010.
Os olhos entreabertos. A paisagem semi-rosada. O sol recém-
acordado, torna a nascer. Renasce sobre os infinitos trigais
norte-paranaenses e fura a película da janela do ônibus de
ar-condicionado péssimo (acho que nunca vou me adapatar à
essas coisas condicionadas). Pareço estar sendo acompanhado
por alguma gaita, trompete ou uma trombeta de algum anjo caído.
E o sol mantém sua missão de flechar seus raios por entre a
película do ônibus de ar mal-condicionado. Aqui é Arapongas ou
Apucarana ?
— perguntei, depois de seis horas e meia de viagem
ao desconhecido de sapatos engraçados que sentou-se ao meu
lado.
— É Arapongas. Faz catorze que eu não moro mais aqui.
Que saudades. — comentou, tentando puxar assunto nos últimos
vinte segundos de viagem. Olho janela a fora. Cheguei.


Arapongas, 5 de setembro de 2010.
Já se passam das cinco. Os cílios grandes e chamativos parecem
raios de sol. Tem um olhar intenso, misterioso, árduo. Quando
fala
— realmente — é difícil não prestar-lhe atenção. É escorregadio,
íngreme, difícil. Já são quase seis. O sol insiste em salpicar suas
últimas gotas de luz no céu desta pacata cidade. Não há muito o
que fazer, mas um raio de uma inesperada esperança brota no meu
peito. Odeio explicar coisas inexplicáveis. Afinal, ainda são seis.


Arapongas, 11 de setembro de 2010.
Seria tão lacrimal acordar hoje e me dizer: "Essa noite foi um sonho",
mas não. Ela foi real. Além de mim, havia outra testemunha. Criminosos
do mesmo crime. Éramos clandestinos, mas éramos felizes. Dançamos
(ou ao menos tentamos) pelos petit-pavés amontoados que formavam um
deformado mapa múndi. Nosso único passaporte eram nossos corpos,
não precisavámos de visto, visto que nossa intenção era semear a paz
entre os povos, não a discórdia. E então, unimos as Coréias, dançamos
tangos, compramos canela nas Índias, andamos de camelo no Saara,
passeamos pelo Sena, esquecemos a hora. Parece que estamos sob
o domínio da mesma ratoeira. Pra qual lado tende a doer mais ?

20 de setembro de 2010

Pedido de hoje: um balão vermelho

Uma sensação de achado, uma sensação de perdido. Uma sensação
de domesticado. No céu, vistosos balões vermelhos chamavam nossa
atenção enquanto perdiam-se, desnorteados, pelo grande e imenso
cinza curitibano. No fundo, no fundo, gostaríamos de ser aqueles
pontos avermelhados que partiam para cada vez mais longe de
nosso olhar. Talvez, assim, Deus nos ouvisse melhor, ou quem sabe
após estourarmos na atmosfera fossemos cair em algum jardim bem
cuidado, interessado em abrigar o resto daquilo que um dia foi
chamado de balão-que-pairava-desnorteado-sob-o-céu-cinzento.
Imersos na noite que caía, sorrateiramente, nossos passos pesavam
a cada pisotear no asfalto. Nossos hospícios interiores incendiavam-
se. Abertas as janelas, era possível ouvir os gritos e gemidos dos
loucos que, arfantes e semi-carbonizados, lutavam com as suas
respectivas loucuras para respirar um pouco do ar que restava.
Seus pulmões, pretos de cigarros e fogo, se desprendiam, e seus
peitos indóceis se perdiam na chama que os consumia, raivosa.
Não era necessário entender, não era importante ou relevante
buscar algum motivo-razão-explicação para o que se passavam
por nossas cabeças carentes de algum gorro, touca (como preferir).
O Tempo já tinha dado sinais que era preciso dar-lhe um pouco de
atenção, e o relógio que era para ser esquecido, voltou a tomar
conta daquilo que, massacrantemente, chamamos de "rotina".
Faltava alguma coisa. Não sabíamos o que era. Não queríamos
nem saber. Talvez nos faltasse um balão, quem sabe ele pudesse
nos levar aonde quiséssemos, feito o guarda-chuva da Mary Poppins,
ou quem sabe um cabaré interno que tocasse jazz e que aceitasse
dois forasteiros de um hospício que virara pó. Uma sensação de
achado, após perder-me no céu cinzento, posso dizer, certamente.