Curitiba, 4 de setembro de 2010.
No mesmo lugar de tantos encontros e desencontros, plataformas
silenciosas, de vozes aguçadas que perdem-se pelos corredores
de concreto-acinzentado-lichado, apertados, cheios de bagagem e
corpos, estou. Os velhos (e tão conhecidos) olhares espantados de
surpresa e angústia parecem contrastar-se. Estão sentados a minha
frente um senhor de uns cinquenta anos, de bigode grisalho, olhos
atentos ao relógio e as mãos ocupadas segurando o braço esquerdo
da esposa, aparentemente, mais jovem. Ela, carregada de um ar
de "conformidade", permeia seus olhos pelo ambiente cinzento.
Também há um garoto junto a eles, talvez o filho, de uns 12 ou
13 anos, cabelo tigelinha, com uma bolsa de couro carcomido nas
mãos. Faltam dezessete minutos. Como os esperei.
Em algum lugar do norte paranaense, 5 de setembro de 2010.
Os olhos entreabertos. A paisagem semi-rosada. O sol recém-
acordado, torna a nascer. Renasce sobre os infinitos trigais
norte-paranaenses e fura a película da janela do ônibus de
ar-condicionado péssimo (acho que nunca vou me adapatar à
essas coisas condicionadas). Pareço estar sendo acompanhado
por alguma gaita, trompete ou uma trombeta de algum anjo caído.
E o sol mantém sua missão de flechar seus raios por entre a
película do ônibus de ar mal-condicionado. Aqui é Arapongas ou
Apucarana ? — perguntei, depois de seis horas e meia de viagem
ao desconhecido de sapatos engraçados que sentou-se ao meu
lado. — É Arapongas. Faz catorze que eu não moro mais aqui.
Que saudades. — comentou, tentando puxar assunto nos últimos
vinte segundos de viagem. Olho janela a fora. Cheguei.
Arapongas, 5 de setembro de 2010.
Já se passam das cinco. Os cílios grandes e chamativos parecem
raios de sol. Tem um olhar intenso, misterioso, árduo. Quando
fala — realmente — é difícil não prestar-lhe atenção. É escorregadio,
íngreme, difícil. Já são quase seis. O sol insiste em salpicar suas
últimas gotas de luz no céu desta pacata cidade. Não há muito o
que fazer, mas um raio de uma inesperada esperança brota no meu
peito. Odeio explicar coisas inexplicáveis. Afinal, ainda são seis.
Arapongas, 11 de setembro de 2010.
Seria tão lacrimal acordar hoje e me dizer: "Essa noite foi um sonho",
mas não. Ela foi real. Além de mim, havia outra testemunha. Criminosos
do mesmo crime. Éramos clandestinos, mas éramos felizes. Dançamos
(ou ao menos tentamos) pelos petit-pavés amontoados que formavam um
deformado mapa múndi. Nosso único passaporte eram nossos corpos,
não precisavámos de visto, visto que nossa intenção era semear a paz
entre os povos, não a discórdia. E então, unimos as Coréias, dançamos
tangos, compramos canela nas Índias, andamos de camelo no Saara,
passeamos pelo Sena, esquecemos a hora. Parece que estamos sob
o domínio da mesma ratoeira. Pra qual lado tende a doer mais ?
fala — realmente — é difícil não prestar-lhe atenção. É escorregadio,
íngreme, difícil. Já são quase seis. O sol insiste em salpicar suas
últimas gotas de luz no céu desta pacata cidade. Não há muito o
que fazer, mas um raio de uma inesperada esperança brota no meu
peito. Odeio explicar coisas inexplicáveis. Afinal, ainda são seis.
Arapongas, 11 de setembro de 2010.
Seria tão lacrimal acordar hoje e me dizer: "Essa noite foi um sonho",
mas não. Ela foi real. Além de mim, havia outra testemunha. Criminosos
do mesmo crime. Éramos clandestinos, mas éramos felizes. Dançamos
(ou ao menos tentamos) pelos petit-pavés amontoados que formavam um
deformado mapa múndi. Nosso único passaporte eram nossos corpos,
não precisavámos de visto, visto que nossa intenção era semear a paz
entre os povos, não a discórdia. E então, unimos as Coréias, dançamos
tangos, compramos canela nas Índias, andamos de camelo no Saara,
passeamos pelo Sena, esquecemos a hora. Parece que estamos sob
o domínio da mesma ratoeira. Pra qual lado tende a doer mais ?
realmente tem a ver com o cazuza. tão ruim quanto qualquer coisa escrita por ele.
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