20 de setembro de 2010

Pedido de hoje: um balão vermelho

Uma sensação de achado, uma sensação de perdido. Uma sensação
de domesticado. No céu, vistosos balões vermelhos chamavam nossa
atenção enquanto perdiam-se, desnorteados, pelo grande e imenso
cinza curitibano. No fundo, no fundo, gostaríamos de ser aqueles
pontos avermelhados que partiam para cada vez mais longe de
nosso olhar. Talvez, assim, Deus nos ouvisse melhor, ou quem sabe
após estourarmos na atmosfera fossemos cair em algum jardim bem
cuidado, interessado em abrigar o resto daquilo que um dia foi
chamado de balão-que-pairava-desnorteado-sob-o-céu-cinzento.
Imersos na noite que caía, sorrateiramente, nossos passos pesavam
a cada pisotear no asfalto. Nossos hospícios interiores incendiavam-
se. Abertas as janelas, era possível ouvir os gritos e gemidos dos
loucos que, arfantes e semi-carbonizados, lutavam com as suas
respectivas loucuras para respirar um pouco do ar que restava.
Seus pulmões, pretos de cigarros e fogo, se desprendiam, e seus
peitos indóceis se perdiam na chama que os consumia, raivosa.
Não era necessário entender, não era importante ou relevante
buscar algum motivo-razão-explicação para o que se passavam
por nossas cabeças carentes de algum gorro, touca (como preferir).
O Tempo já tinha dado sinais que era preciso dar-lhe um pouco de
atenção, e o relógio que era para ser esquecido, voltou a tomar
conta daquilo que, massacrantemente, chamamos de "rotina".
Faltava alguma coisa. Não sabíamos o que era. Não queríamos
nem saber. Talvez nos faltasse um balão, quem sabe ele pudesse
nos levar aonde quiséssemos, feito o guarda-chuva da Mary Poppins,
ou quem sabe um cabaré interno que tocasse jazz e que aceitasse
dois forasteiros de um hospício que virara pó. Uma sensação de
achado, após perder-me no céu cinzento, posso dizer, certamente.

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