22 de novembro de 2011

Autoscopia

Sentados à mesa, maquiados com pincéis atômicos, tintas guache e delineadores à prova d'água, regavam suas abastadas vidas com cerveja barata. Uma característica que tinham em comum era o hábito de sempre estarem rindo, mesmo que por bobagens aristocráticas ou por devaneios da juventude alcólica. Mantinham princípios mesopotâmicos, vestiam a carapuça que mais conviesse para com a justiça e os bons costumes do que com os sentimentos que pudessem estar envolvidos, e lógico, esqueciam que por trás dos sofisticados casacos de couro e das camisetas de linho também haviam seres tão corruptos e malfazejos quanto os que seus dedos apontavam. Mas isso já não importava mais para ela, afinal, as festas estavam chegando.

Com escárnio

Estava mais preocupado com o que comeria no dia seguinte do que com alguma viagem requintada que pudesse fazer. Não sabia, por exemplo, se era necessário segurar-se nos corrimãos do metrô enquanto o veículo estivesse em movimento, também não sabia a diferença entre um cálice de vinho tinto e seco, embora soubesse que ambos poderiam levá-lo à boca da patente. Um dos momentos mais mágicos de sua candongueira vida havia sido no dia em que a província comemorava os trinta anos do seu último registro de neve, deveras algo aparentemente superficial a ser regozijado, mas uma máquina de neve artificial enchera seu olhar com alguma esperança de que aquilo era muito real para ser inexato. Pensava constantemente nas promessas largadas em cima da estante ou escondidas debaixo da cama em alguma caixa de sapatos, ele queria ter provado todos os sorvetes do cardápio da Sorveteria Formiga. E por trás da porta ouvia alguém dizendo que faria um longo cruzeiro pela costa norueguesa num navio de bandeira sueca, enquanto ele se recordava da primeira vez em que andou de ferry boat. Seu rosto contra o vento, o arrepio que o levava a esmo, as orações bem baixinhas, a proteção sigilosa e a estrela mais brilhante fitando-lhe, estática. As cartas sangrentas e os bilhetes rasgados que na fornalha viraram brasa e no silêncio viraram pó.

15 de novembro de 2011

Desenho livre

Os dedos deslizavam sob o vidro temperado. O vapor palmilhava sob as inscrições escritas. A verdade se fragmentava em gotículas de água tornando seu significado cada vez mais difícil de ser decifrado. Verdades cegas que ladrilhavam as veredas da disritmia. Cego seria se não visse além do vidro temperado; talvez algumas montanhas, uma casinha com chaminé e um sol sorridente a iluminar pessoas-palito de expressões amistosas. Verdades como o vapor: que salientava as bordas, acomodava as linhas verticais e reforçava o contorno das curvas. Enquanto em silêncio, ainda ajoelha-se, faz uma prece. Esquece do mundo. Vai deitar.