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8 de dezembro de 2011

Marechal de Ferro

Seria de extremo mau gosto cultivar a ilusão de encontrar alguém que pudesse tomar conta de todas as suas fraquezas e frustrações. O objetivo nunca havia sido esse, é claro, ela só tinha alguns medos bobos, as unhas desfeitas e um copo de café bem adoçado. A paisagem estava bonita e limpa. Alguns estranhos passavam à sua frente, dois vieram pedir-lhe uma moedinha, um outro o seu isqueiro e outro alheio queria saber como chegava no Terminal do Guarda Lupe. Mantinha em seus pensamentos aquele que fazia seus dias felizes; ela sabia que precisava deixá-lo também sentir medo. O gesto involuntário de amá-lo enaltecia o desejo de tê-lo ainda mais no dia seguinte, mesmo que este fosse um domingo chuvoso, com os colegas do vizinho sentindo-se em casa e berrando, gorfantes, pelo condomínio a vitória do time do peito. Desejou boas festas ao Marechal de Ferro, imortalizado num busto em pedra-sabão que também servia como toalete de ovíparos voadores, cumprimentou Tiradentes, que de longe parecia um guerreiro farrapo, atravessou a rua distraída e só se deu conta da sua desatenção quando um automóvel vermelho freou bruscamente, vindo em sua direção. Escutou três estridentes buzinadas e alguns insultos comumente entoados por motoristas que deveriam fazer autoescola nas ruas de Nova Délhi. Ela continuou andando, sem virar para trás. Enquanto isso, aquele que fazia seus dias felizes construía uma canoa para duas pessoas.

22 de novembro de 2011

Autoscopia

Sentados à mesa, maquiados com pincéis atômicos, tintas guache e delineadores à prova d'água, regavam suas abastadas vidas com cerveja barata. Uma característica que tinham em comum era o hábito de sempre estarem rindo, mesmo que por bobagens aristocráticas ou por devaneios da juventude alcólica. Mantinham princípios mesopotâmicos, vestiam a carapuça que mais conviesse para com a justiça e os bons costumes do que com os sentimentos que pudessem estar envolvidos, e lógico, esqueciam que por trás dos sofisticados casacos de couro e das camisetas de linho também haviam seres tão corruptos e malfazejos quanto os que seus dedos apontavam. Mas isso já não importava mais para ela, afinal, as festas estavam chegando.

29 de setembro de 2011

Cruzados os dedos

Ainda que parecessem estranhos e temerosos quanto à sua pessoa, Penélope demonstrava interesse em roer menos unhas e suportar o medo que também era produzido por ela. Às vezes a tentativa de mostrar-se desarmado, em meio à situações adversas, pode confundir-se com os antagonismos cultivados sob um campo de prévias constatações, muitas vezes irrefletidas. A questão é que muitas vezes julgamos mais os anéis que os dedos; não oferecemos nossos narizes para certos perfumes e nos atamos no medo de sermos incompreendidos. Por mais que fossem tortuosos os caminhos, os dias eram de primavera e isso já era um grande motivo para se despreocupar. Haveriam paineiras carregadas, troncos de flamboyant mais retorcidos, corais de sábias mais audíveis e motivos sinceros pra não deixar de viver aquela efêmera eternidade. Pimenta nas unhas, amuleto no bolso, Penélope somente queria felicidade em dobro.

22 de setembro de 2011

Sonhos primaveris

Confundia a ilusão de viver com a ilusão de morrer. Assim, morria quase todos os dias; dias taquicárdicos, hepáticos, antipáticos, apáticos. Nem os novos dias primaveris a surpreendiam mais. No máximo, conseguiam dar a deixa aos pensamentos de outrora: aqueles nostálgicos que remetiam uma infância decorada com personagens Disney, florzinhas amarelas, samambaias carregadas e os reclames da mãe inconformada com a sujeira que a beleza da natureza deixava na calçada irregular. Também desfiou da memória os fios que costuravam os panos de prato que voltemeia rasgava, propositalmente, para costurar depois. O trabalho não era dos melhores, mas a mãe sempre agradecia pelo feito. Naquela época, um sonho de valsa custava cinquenta e cinco centavos e o mundo todo sorria quando ela conseguia juntar um real e dez centavos; o primeiro ela comia no caminho, como se fosse um fruto proibido, o segundo ela comia enquanto assistia Castelo Rá-tim-bum, sempre às quatro da tarde.

17 de agosto de 2011

Paradoxo in comum

E Penélope continuava a ouvir "Noviça Rebelde"; era o que fazia há algumas horas. Enquanto isso, o velho mendigo abria os olhos que pareciam grudados, enquanto suas orelhas acompanhavam a sinfonia urbana de buzinas, arrancadas, freadas, rádio sertaneja, passos nervosos dos transeuntes fazendo parceria com os barulhos vindos de seu estômago. Foi quando Penélope decidiu que ela mesma iria comprar as flores. O maltrapilho tinha as juntas danificadas, os dentes podres, as sobrancelhas fartas, os olhos sofridos, mas claros, essencialmente, claros. Carregava no saco de lixo o seu mundo: o pouco do passado que não havia desfeito e um futuro que não tinha. O seu presente era guardado nos olhos cansados, sedentos pelo colírio da Morte. Penélope havia descansado pouco a noite, talvez o medo dos corriqueiros pesadelos fosse mais cômodo que o amargo do café; mas ela era recompensada com filmes europeus com travestis velhas, Ingrid Bergman e umas três, quatro de duração. Já composto, o velho descia pelas ruas com o rosto de lado, não que tivesse medo de ser identificado, ele tinha medo era de ser percebido. Mas também admirava as belas curvas das moças desse tempo, as roupas bonitas e os carros modernos, no entanto, no fundo do seu silêncio, ele desfiava os tempos onde as histórias eram bordadas a mão, onde os meninos e adolescentes eram meninos, adultos eram velhos e os velhos eram raridade; de quando papai era tropeiro e trazia pedrinhas da beira do Tibagi pra aumentar sua coleção. Penélope foi comprar rosas vermelhas na floricultura de sempre e a atendente, atrapalhada, retirava os espinhos como se lixasse a ponta de uma agulha. As rosas ela iria levar no túmulo da vó, falecida recentemente. O pobre mendigo sentira que aquele seria seu último dia de vida, o que na verdade ele sentia diariamente; só faltava-lhe agora a sua consumação. Pensava que a vida, - que vida!? - pensava ele assim, quando ensaiava em pensar na possibilidade daquilo, a vida. Já um pouco cansado da caminhada, senta-se num banco de praça e, aflito, suspira aos céus e cochicha com Deus. Penélope ficou inconformada por ter que pagar uma taxa a mais pela poda, e saiu da floricultura sem pegar o troco. Seus passos eram cada vez mais apressados, as horas cada vez mais valiosas e a distração cada vez mais inconveniente. Foi quando ao chegar numa praça, seu arranjo de rosas se desfez pelo chão. Desesperada, ainda acaba se espetando com um espinho mal retirado, o que a faz praguejar até a décima geração da atendente da floricultura. Segurou as rosas e decidiu se sentar num banco, ao lado de um senhor mal vestido que tinha um olhar aflito, o qual apontava para cima. Conversando com Deus, o velho mendigo sentiu um aroma doce de perfume feminino e notou uma bela jovem, de feição irritada, sentada ao seu lado. Até pensou em falar algo, porém, a irritação da moça com um machucado na mão parecia colocá-la numa redoma à prova de diálogos com alheios à sua dor. O homem fecha então os olhos e começa a cantar uma velha canção que remete os tempos de infância: "Nananana... Edelweiss... Edelweiss, every morning you greet me, small and...", e é interrompido pelo esquecimento da letra. Quando tentava recuperar fôlego para levantar-se, Penélope é surpreendida com uma música conhecida que a voz rouca e quase inaudível do maltrapilho parecia querer que ela ouvisse, ou ao menos, escutasse. Manteve-se intacta e, emocionada com qual música cantava, levou uma de suas rosas ao colo do mendigo que parecia não saber cantar o resto da melodia. O mendigo sentiu algo espetá-lo; parecia espinho ou ponta de alfinete, mas mesmo assim, manteve os olhos fechados e buscava recordar-se da letra da melodia nostálgica e adormecida. Penélope bordou um sorriso no rosto e pensou em como a vida era boba e insensata, mas que nunca esquecia de oferecer uma melodia inesperada ou desesperada pra tentar fazê-la abrir um sorriso. A voz do mendigo se cadenciava no som do balanço dos carvalhos que enfeitavam a praça, ele sentia o corpo mole, a visão não muito nítida e uma rosa posta em seu colo. E então fechou pela última vez os olhos; Deus o havia escutado.

23 de julho de 2011

Tarde de sábado

Era uma tarde de sábado, eles sentados na grama com o sol no céu e o amor na Terra e as horas que pareciam não passar. Falavam de coisas aleatórias, mas tão aleatórias que Penélope não conseguia deixar de canalizar cada palavra proferida para que, quando fosse dormir, pudesse recordar de sua meio rouca voz. E assim foi, colocou o mundo debaixo do travesseiro, fez uma prece, sentiu o corpo cansado e tentou dormir, sem sucesso. Levantou da cama e foi olhar na janela como a cidade era bonita de noite, sem suas astérias urbanas e o barulho infernal. Era outra tarde de sábado, eles sentados na grama com nuvens cinzas no céu e um Deus nos acuda na Terra e as horas, estúpidas horas. Ela falava a ele como era bonita a cidade de noite, de como gostava de tomar chá, de como era bom se sentir superior por saber assobiar direito, de como Bonequinha de luxo tornou-se seu filme romântico preferido, de como era bom assim com ele ficar. Mas não durou muito.

20 de julho de 2011

Penélope Sangria

Era covarde, deixado de lado, pisoteado pelas notas da canção. Doido varrido, medíocre, cuja única função era preencher parágrafos e salientar a necessidade de todos saberem quem era ele. Andava pros lados com o rosto acabado e uma garrafa de cerveja barata na mão, a esquerda. Porque na direita ele segurava com classe e charme discutíveis mais um dos seus muitos cigarros de selo paraguaio, os quais sucumbia para dentro do peito como lâmina afiada num breu de silêncio. Seu caminho era tortuoso e o levava para um destino incerto que certamente o levaria a lugar nenhum a não ser que ele viesse a levantar suas nádegas do sofá financiado nos Móveis Usados da Riachuelo e fosse a luta como bravo homem que era ou julgava ser e que ainda dependia das projeções aritméticas dos astros e orixás para sentir-se seguro de suas possíveis e raras ações. Nas noites sóbrias ainda conseguia soletrar o nome daquela que nada sóbria esculpia os seus dias, a chamavam de Penélope Sangria, metade mulher metade amargura, que fazia de seu corpo âmago de poesia, embalava alegria no verso que era pra ser triste e o protegia dos falsos provérbios que serpenteavam pelo eufemismo daqueles dias. Indomado, um dia saiu de casa pra nunca mais voltar, só pensando que vida era aquela que pra ele queriam dar. Partiu para o mundo, conheceu novas mulheres, tatuou-as no peito, escreveu poesia e deixou com durex no espelho, comprou novas rosas e vida de cigarra achou que levaria. Hoje é suspeito pra dizer que amar é defeito, segue no mundo com seu jeito imperfeito e ainda surpreende-se com lua cheia, reza um bocado, faz silêncio dobrado pra algum dia não ter que acordar de novo assim. Foi quando o despertador tocou.

Ilustração: Hanna Viktorsson