
O campo verdejava diante do olhar impiedoso e desconfiado do velho homem. Ele, do alto dos seus muitíssimos anos, observava as crianças bem vestidas a correr despreocupadas pela grama bem aparada. Em cada linha do seu rosto escondia-se uma história mal contada, em cada fio branco do seu ralo cabelo restava o veneno de algum dissabor vivenciado, em cada palavra proferida pela sua ressecada boca residia o desconsolo que o abraçava com gosto. Duas alianças contrastavam-se no seu dedo enrugado enquanto o velho gesticulava. Tinha movimentos lerdos e minuciosos, mas possuía uma cordialidade aristocrática que imitava os tempos onde a boa educação era tratada como a mais pura normalidade. Contou que preferiu construir um balanço ao invés de uma piscina em sua residência. Sempre havia preferido o ar à água. Não é à toa que nos tempos da mocidade, o então jovem futuro velho triste, havia tido uma breve passagem pela Aeronáutica. Apesar do amor pela liberdade dos céus, resolveu vender torneiras. Ótimas torneiras, por sinal. Vendeu tantas que chegou um momento de sua vida que ele podia escolher entre ter um balanço ou uma piscina no jardim, quem sabe ambos, mas felizmente ele era astuto em identificar extravagâncias. Certo dia, resolveu sentar-se no balanço enferrujado, ouviu rangidos medonhos, o cachorro latiu. Soltou um indecente palavrão e resmungou: “Eu devia ter feito uma piscina, sabe. Minha falecida esposa teria adorado”. Alguns segundos depois, completou: “Mas foi melhor não tê-la feito. Ela tinha corpo de bailarina e a janela do vizinho nunca estava fechada”.
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