
Pedia socorro em silêncio. No silêncio pedia socorro pelo simples fato de não ter mais voz diante da frustração de nunca ser ouvida. Estariam todos surdos ou estaria ela à beira de outra incerteza, daquelas que, apesar de incertas, eram tão verídicas quanto seu teor de dúvida ? Nunca se soube. Passava as tardes bolando um recomeço, rezava um terço em pensamento enquanto esculpia lágrimas no contorno dos olhos, refugiava seu medo no peito do imperfeito, que de tão perfeito simplesmente resistia ao defeito de existir. Dominada pela resposta não dita, abria novas fronteiras em seu latifúndio no campo da dúvida, onde cultivava a arte da espera com maestria, no entanto esperava em vão; ainda não haviam lhe revelado como se plantava num deserto. A música que a amaldiçoava também lhe oferecia idolatria, escondia nos seus versos todo o pranto que ousava apoderar-se do único poço que restava no terreno. Tão decidida quanto contrariada, engoliu sua salvação manipulada. Se lembrou daquela lei, onde era obrigado ser feliz. Depois escondeu seu maior segredo debaixo do travesseiro. Esqueceu-se de que aquela noite dormiria sozinha.
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