Seu sono havia durado apenas quatro horas na última noite. Como estava naqueles dias, e estes eram vividos debaixo de um incandescente sol veranil, toda sua atenção estava voltada para os giros do ventilador. Na tevê, mais um reality show mal dublado tornando abóbora, carruagem. No ar um espesso aroma de citronela, na tentativa frustrada de expulsar os insetos de verão. Longe de tudo isso, estava ela. Tendo em vista o objetivo da mudança, mas mesmo assim, nutrindo o medo de nunca mudar. Esparramada no sofá, esquecida pelo mundo, questionava à Deus que vida era aquela. Mais distante ainda estava qualquer possível fragmento de resolução, embora tentassem mostrá-lo diariamente em programas de auditório, entupidos de infomerciais apelativos, prometendo beleza extrema e aos quadris, redenção. A felicidade era dela vizinha e nunca batia-lhe à porta para fazer uma modesta visita. Ela até já tinha feito alguns confeitos, sua torta preferida, escolhera as rosas andinas mais suntuosas, a toalha de mesa rendada, tudo para que a primeira impressão fosse de uma pessoa receptiva e hospitaleira. Inútil foi esperar a felicidade observando os ponteiros se esvaindo, enquanto a desvairada extravagância da espera, como paisagem do cerrado, cumpria seu processo de desertificação. Quiçá algum dia, por descuido ou rebeldia, Cecília ainda arrombe as janelas, estoure as fechaduras ou cave um buraco diante dos seus pés. Gritando pelas ruas, nos bosques, pelos flamboyants das grandes praças: "Agora eu cobro com juros, toda a desgraça que um dia você me fez". No entanto se quedará calada, ruborizada depois de perceber que nunca houve nenhum culpado, só mesmo o pecado de sempre pecar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário