Não era like a rolling stone, nem tinha as melhores notas da sala. Sua cabeça era um tanto quanto grande, suas orelhas pareciam duas folhas de parreira prontas para o abano, tinha o sorriso metálico, mais mesmo assim admirava-nos com seus esforços contínuos e otimistas de pronunciar as palavras corretamente. Sempre era o primeiro a chegar na aula, afinal, sua residência não ficava mais que duzentos metros da escola, caminhada suficiente para ruborizar suas enormes bochechas e deixá-lo arfante por alguns minutos, os quais ele preferia passar sozinho, olhando pra algum ponto fixo da sala ou lendo algum livro de ficção científica. Tocado o sinal do intervalo, ele era o último a respeitá-lo; após cinco minutos levantava seu traseiro gordo e rastejava-se até o bebedouro mais próximo, encarava com certa altivez as pessoas que lhe fitavam com ar de desprezo ou inconformidade, ele entendia muito bem o que se passava ali e até brincava, pensava que pelo menos as pessoas o olhavam pelo que ele era, e não tão somente pelas suas roupas, seus calçados e outros artigos essenciais no julgamento de uma pessoa nos tempos modernos. Me lembro de quando apliquei uma redação onde pedia que fossem descritos os sonhos de cada um, podia ser qualquer coisa, exceto a paz mundial e um dia com seu cantor favorito. Estranhei sua rapidez em terminar a prova, pois geralmente ele levava duas, três vezes mais tempo que os outros alunos. Foi quando resolvi verificar o que acontecera. De fato, a prova continha um ponto final, o estranho é que o ponto se localizava pouco antes do fim da primeira linha das outras vinte e cinco que vinham atrás. Ele havia escrito pela primeira vez à lápis, coisa que sempre fazia visando levar mais tempo na realização da prova, talvez motivado pelo medo de ficar mais de três minutos fora da sala. Com a caneta, contornou: "Dois de creme, um de nata e outro de goiabada, por favor."
9 de outubro de 2011
6 de outubro de 2011
A rapariga loura e seus sushis

Ao mesmo tempo que eram unha e carne, também eram unha na carne. O faqueiro da casa não possuía lâminas tão afiadas quanto as dos maldizeres proferidos a cada conclusão de ciclo, nem as rosas eram tão cheirosas quanto o perfume das palavras contidas nas cartas de reconciliação. E era de fato assim, o néctar daquele sentimento não existiria se não houvessem podas regulares com pequenas primaveras a ordenar sua nova redenção. Aquele amor, servido pela garçonete do restaurante japonês e apreciado pela rapariga de cabelos louros, fugia de toda e qualquer interpretação. Como podia ser feito de amor, dor, torpor, temor e ainda ditar regras, caminhar na chuva, levar na estação-tubo, dizer que ama e mesmo assim dizer que não ? E toda vez que se abraçavam de volta é como se estivessem voltando ao primeiro dia em que se abraçaram mais forte, talvez um abraço tímido, mas com o desejo de cumprir no segundo o que deixaram de demonstrar no primeiro. Mesmo sabendo que why she had to go, I don't know, she wouldn't say, partiam inseguras e discretas pro ato final, que logo voltaria a ser prólogo e assim por diante. Pelas armadilhas do tempo, ainda há quem questione: será que a rapariga loura só queria comer sushis ?
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Willian Aust
1 de outubro de 2011
Desconhecidos

Um dia passarás do outro lado da alameda, caminhando com os passos pra dentro, teu velho all star vermelho e o cheiro de baunilha a dissipar pelo poluído ar. Não me olharás como preverei antes de ver-te, esquecerei dos infortúnios do passado e em questão de segundos pensarei que poderias naquele segundo lançar um olhar em direção a mim, o qual seria suficiente pra fazer daqueles segundos os melhores do dia. Todavia não me olharias, nem que fosse de relance, não dando chance pro destino insistir em resistir ao que já havia perdido força há muito tempo. No entanto, me alegraria a sensação de ter te visto, embora soubesse que era o ingresso para outro dilema a se argumentar com os botões antes de dormir. Minuciosas e sorrateiras seriam as lembranças tuas: o teu cabelo com talco, os teus mais obscuros segredos, o teu karma desregrado. Você.
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Willian Aust
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