9 de outubro de 2011

O esquisito

Não era like a rolling stone, nem tinha as melhores notas da sala. Sua cabeça era um tanto quanto grande, suas orelhas pareciam duas folhas de parreira prontas para o abano, tinha o sorriso metálico, mais mesmo assim admirava-nos com seus esforços contínuos e otimistas de pronunciar as palavras corretamente. Sempre era o primeiro a chegar na aula, afinal, sua residência não ficava mais que duzentos metros da escola, caminhada suficiente para ruborizar suas enormes bochechas e deixá-lo arfante por alguns minutos, os quais ele preferia passar sozinho, olhando pra algum ponto fixo da sala ou lendo algum livro de ficção científica. Tocado o sinal do intervalo, ele era o último a respeitá-lo; após cinco minutos levantava seu traseiro gordo e rastejava-se até o bebedouro mais próximo, encarava com certa altivez as pessoas que lhe fitavam com ar de desprezo ou inconformidade, ele entendia muito bem o que se passava ali e até brincava, pensava que pelo menos as pessoas o olhavam pelo que ele era, e não tão somente pelas suas roupas, seus calçados e outros artigos essenciais no julgamento de uma pessoa nos tempos modernos. Me lembro de quando apliquei uma redação onde pedia que fossem descritos os sonhos de cada um, podia ser qualquer coisa, exceto a paz mundial e um dia com seu cantor favorito. Estranhei sua rapidez em terminar a prova, pois geralmente ele levava duas, três vezes mais tempo que os outros alunos. Foi quando resolvi verificar o que acontecera. De fato, a prova continha um ponto final, o estranho é que o ponto se localizava pouco antes do fim da primeira linha das outras vinte e cinco que vinham atrás. Ele havia escrito pela primeira vez à lápis, coisa que sempre fazia visando levar mais tempo na realização da prova, talvez motivado pelo medo de ficar mais de três minutos fora da sala. Com a caneta, contornou: "Dois de creme, um de nata e outro de goiabada, por favor."

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