30 de novembro de 2010

Análise de uma garota obsessiva

"Marnie" (Hitchcock) / 1964

De tão pequena, tornou-se grande, imensa. De baixo, já não se
via o seu rosto, do alto, já não se via os seus pés. Havia algo
perdido em seu olhar, talvez buscasse nos pequenos vazios,
entretenimento para o grande vazio que era. Mas eis que um
dia, ela surgiu. Sem a pretensão de surgir, ou de parecer a
luz do fim do grande e interminável túnel, simplesmente surgiu.
Como pássaro que pousa sobre a bica d'água, assim, como se
fosse algo natural; mas foi diferente. Era como se a bica tivesse
pousado sobre o pássaro, libertando-o das suas gaiolas internas.
E assim por diante, veio algo que fora denominado "amor".
Como dois pássaros livres que contemplavam a paisagem num
voo distraído, daquele jeitinho juntinho, dois em um, um em dois.
O amor, querendo sem querer, os aprisionou na mesma gaiola.
Eles, loucos, se debatiam por entre os limites de ferro, mas
ainda que estivessem fadigados das tentativas de fuga, o
mesmo poleiro ainda estava lá, intacto, aguardando para o
repouso dos pássaros feridos de tanto fugirem do seu amor.
Mas ela não era um pássaro; podiam até compará-la com uma
dessas vezes que todo mundo compara, mas depois de encontrar
o seu poleiro, ela tinha se tornado uma pessoa de verdade.
Ainda muitas gaiolas internas precisavam ser desativadas dentro
de si, mas tudo tinha seu tempo. Quem esperou tanto pra achar seu
poleiro, podia muito bem esperar um pouco pra construir seu ninho.

29 de novembro de 2010

O desafio de Cecília

Não pedia nada demais, nada que fosse muito complicado de ser
resolvido, era assim, algo prático e rápido, mas lhe faltava
um pouco de coragem pra não se esmagar com as versões de
duas histórias tão intensas. De um lado ele, aquele que sempre
a ouviu e foi ouvido por ela, e do outro, aquela que surgiu tão
pequena e que em tão pouco tempo se tornou superior a tudo,
superior até ela mesma. Como separar a cama da mesa ? O trigo
do joio ? O útil do de desagradável ? E assim vamos, com as
perguntas frequentes, como se fossemos um produto importado
que ninguém sabe usar, ou como a primeira consulta com a
ginecologista. Tomada e domada pela insegurança que lhe é
devida, se perdeu novamente no labirinto de sua alma.

20 de novembro de 2010

Música: "Black is beautiful" - Elis Regina



Hoje cedo, na rua Do Ouvidor
Quantos brancos horríveis eu vi
Eu quero um homem de cor
Um deus negro do Congo ou daqui

Que se integre no meu sangue europeu

Black is beautiful, black is beautiful
Black beauty so peaceful
I wanna a black I wanna a beautiful

Hoje a noite amante negro eu vou
Vou enfeitar o meu corpo no seu
Eu quero este homem de cor
Um deus negro do congo ou daqui

Que se integre no meu sangue europeu

Black is beautiful, black is beautiful
Black beauty so peaceful
I wanna a black I wanna a beautiful