Mesmo não estando em greve, os senadores brasileiros deverão ter um aumento em seus nada modestos salários. Enquanto isso, afora da praça dos Três Poderes, o funcionalismo público protesta contra anos de desatenção por parte do Governo, paralisando serviços e evidenciando as mazelas da administração do dinheiro público, que no Brasil também pode ser chamado de "privado". Armados com suas verdades e faixas com dizeres escritos em vermelho, os manifestantes entoam, dissonantes, coros que impugnam a gestão do Estado, tentando reaver dívidas antigas, que há anos permanecem à míngua de alguma resolução. Enquanto isso, por trás da janela da repartição, Rodrigo tentava trabalhar. As vozes desarmônicas dos servidores lá fora tiravam sua atenção e o faziam se debruçar sobre a questão, inquieto: ele não possuía motivos políticos para se opor ao rebuliço, apenas nunca tinha desejado tanto viver em uma democracia factual. Enquanto ela não chegasse, o que lhe restava era tentar se acostumar com o clamor dos desprezados e com as postergações de um Estado que, democraticamente, mais parecia uma quermesse.
29 de agosto de 2012
27 de agosto de 2012
Sonhos vencidos
Seus olhos pairavam na manhã de inverno perdidos e famintos. Encostado na porta de aço de uma loja de tecidos de um chinês, espreguiçou-se e com dores no corpo, pôs-se de pé, antes que nele jogassem água, expulsando-o dali. Caminhando pelas ruas recém-acordadas, o cheiro do pão fresco e do café forte invadiram suas narinas fazendo-o imaginar uma mesa farta com opções de geleia e suco, torradas, pães de forma, de leite ou francês, café com leite, cappuccino ou preto, mais algumas pessoas sentadas nas cadeiras, comendo ou falando de boca cheia. No entanto, foi interrompido por um senhor rechonchudo — que abocanhava vorazmente uma coxinha tão farta quanto sua massa corpórea, cujo catupiry ladeava a borda dos lábios — que preferiu atravessar a rua a ter que cruzar com ele que somente no passado pensava. Então deu de ombros e apressou o passo, não que tivesse pressa pra alguma coisa, afinal, não tinha muito o que se esperar; mas ainda tinha sonhos, mais vistosos e apetitosos que os da vitrine refrigerada na padaria do português.
24 de agosto de 2012
Gal Costa - "Nenhuma dor"
"É preciso, ó doce namorada, seguirmos firmes na estrada que leva a nenhuma dor"
Por
Willian Aust
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