29 de agosto de 2012

Bordem o retrocesso

Mesmo não estando em greve, os senadores brasileiros deverão ter um aumento em seus nada modestos salários. Enquanto isso, afora da praça dos Três Poderes, o funcionalismo público protesta contra anos de desatenção por parte do Governo, paralisando serviços e evidenciando as mazelas da administração do dinheiro público, que no Brasil também pode ser chamado de "privado". Armados com suas verdades e faixas com dizeres escritos em vermelho, os manifestantes entoam, dissonantes, coros que impugnam a gestão do Estado, tentando reaver dívidas antigas, que há anos permanecem à míngua de alguma resolução. Enquanto isso, por trás da janela da repartição, Rodrigo tentava trabalhar. As vozes desarmônicas dos servidores lá fora tiravam sua atenção e o faziam se debruçar sobre a questão, inquieto: ele não possuía motivos políticos para se opor ao rebuliço, apenas nunca tinha desejado tanto viver em uma democracia factual. Enquanto ela não chegasse, o que lhe restava era tentar se acostumar com o clamor dos desprezados e com as postergações de um Estado que, democraticamente, mais parecia uma quermesse.

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