3 de agosto de 2010

A sala de janelas indiscreta

Por que todos homens ? pergunto-me, confuso, enquanto
brinco de escrever atrás de uma folha com um retrato meu,
carinhosamente feito pelas mãos pseudo-artistícas de minha
amiga. A sala de grandes vitrais, a sala machista, a sala dos
interessados em poeira-mofo-velharia na Biblioteca Pública.
Um senhor de cabelos totalmente embranquecidos, boné
incrivelmente branco, calça verde-oliva e relusentes sapatos
cor-de-cacau conversa, ofegante, com outro senhor de meia
idade, talvez uns cinquenta e cinco, de blusa de lã azul-mar
e a camisa social branca semi-aberta por baixo. Deviam estar
falando de política, aposentadoria, benefícios do INSS ou sexo.
Olha, uma mulher acaba de sentar-se na mesa ao centro da
sala. Moletom verde-mostarda (mostarda não era amarela ?),
cabelos alaranjadamente-ruivos, com uma beleza que podia
ser carregada no bolso. Me parece familiar. Será que é amiga
da minha mãe, uma professora do primário... Vanessa! esse
era seu nome. Embrulha um pacote cor-de-papelão, o que haverá
dentro ? Um diário secreto, o "Manifesto da Feiura", talvez um
romance inédito do Caio F. Abreu. Sentado ali, um mulato vistoso
e elegante, chuto uns cinquenta e três. Olha atento ao jornal,
aparentemente, carioca. Tem as mãos bonitas, parece até de um
princípe do Congo. Na outra mesa, o senhor de calças e casaco
jeans folheia a revista de atualidades diante das grandes lentes
dos seus óculos setentistas. Uma bandeira do Reino Unido no
braço direito, e um símbolo hippie em suas costas, costurados,
quebram a imensidão azul de suas vestes. O mulato vistoso e
elegante acaba de trocar de mesa. Deve estar insatisfeito com
a carrancuda face do outro senhor com quem dividia o ar.
Também há um garoto, curioso, intrigado. Dispara olhares para
todos os cantos da sala, talvez procure refúgio em qualquer
detalhe que lhe chame a atenção. Esse garoto, sou eu.

Nota: Acabo de me lembrar, Vanessa foi minha professora de Ensino
Religioso enquanto substituía a professora titular, grávida, em 2008
.

3 comentários:

  1. Vivo pela biblioteca pública (agora um pouco menos, pois tenho de distribuir meu tempo entre ela e os livros do Paço da Liberdade) e passo boa parte do tempo observando as pessoas. Quando passo muito tempo lendo, meus olhos embaçam. Tenho de tirar os óculos e descansar o olhar. E as pessoas são ótimas de se observar, principalmente quando estão imersas em universos paralelos, como fazem quando estão a ler. Enfim. Programão de se fazer.

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  2. se o caio fernando abreu soubesse que ia dar nisso, teria descolado uma aids bem antes de escrever algo.

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  3. GOSTARIA DE ATENTAR PARA O FATO DO TEXTO SE CHAMAR A SALA DE JANELAS INDISCRETA A REFERÊNCIA AO HITCHCOCK E A LICENÇA POÉTICA SÃO BEM EMPREGADAS MAS ASSIM PODERIA QUEM SABE VIR A SER ALGUMA COISA TAMBÉM NÃO ACHA?

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