26 de agosto de 2010

De lua

O telefone tocou.
Já não reconhecia aquela velha voz doce e meiga. Ouvia agora uma
voz dolorida, pesada, ofegante, asmática. Eram as mesma promessas,
as mesmas dores, a mesma pessoa de sempre, a mesma cruz. Eu
vou mudar, tenho de ser àquela velha pessoa fria-calculista-assustadora
de antes. Não vai
eu lhe disse — Não dá pra mudar agora algo que
nunca poderia ter sido mudado. É como um café, você pode adoçá-lo
o quanto quiser, mas se colocar açúcar demais vai parecer que um
enxaguador bucal está correndo pela sua garganta. Você era que nem
a lua, cheia de fases, só que agora parece que um buraco negro te
engoliu, e te suga cada vez mais pra dentro dele. E te reduz a pó. Insistia,
(e como insistia) em persistir na ferida aberta e escancarada, feito uma
cratera, que perfurava cada vez mais e trazia com ela tudo o que via pela
frente. Agora ela se equilibra com as suas pernas bambas, carregando
todo o peso do mundo. Só lhe restam algumas trouxas de roupa, umas
cartas doentias e as memórias de um tempo que se perdeu no relógio.
O telefone tocou de novo.

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