11 de novembro de 2010

Literatura: Caio Fernando Abreu

Eu fui descendo pelo caminho cercado de pedras. A mochila nas costas, Cazuza entre as mãos. Ele dormia, parecia confiante em nosso futuro. Eu, nem tanto. Na luz do amanhecer, as pedras não eram cristais nem brilhantes, safiras ou esmeraldas, topázios nem ametistas. Pedrinhas comuns, de beira de rio, arredondadas pelas águas. Guardei uma, verde, no bolso. Do outro lado do rio, o sol começava a nascer. Dava apenas para ver um semicírculo vermelho acima do horizonte, subindo aos poucos para iniciar seu caminho pelo céu de todas as cores. Quando cheguei ao portão, à beira da estrada que fazia uma curva, depois desaparecia no caminho de Estrela do Norte, do aeroporto, do sul do Brasil, antes de ir embora, como eu gostava sempre de fazer, ainda olhei mais uma vez para trás. Toda de branco, Dulce Veiga estava parada na porta da casa, ao lado do cachorro. Uma arara pousou na árvore perto dela. Os primeiros raios do sol faziam brilhar aquela estranha coroa − tiara, diadema − que tinha entre os cabelos louros. Pisquei, ofuscado. Ela ergueu o braço direito para o céu, a mão fechada, apenas o indicador apontado para o alto, feito seta. Depois gritou qualquer coisa que se esfiapou no ar da manhã. Parecia meu nome. Bonito, era meu nome. E eu comecei a cantar.

Trecho final do livro "Onde andará Dulce Veiga ?" de Caio F.

Um comentário:

  1. bonito blog, bom gosto. bom gosto também pras músicas. o desenho do layout é teu? é fantástico!

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