
2 de agosto de 2011
Sugestões para atravessar agosto

20 de junho de 2011
14 de junho de 2011
Aconteceu na Praça XV
Caio F.
25 de março de 2011
Valer a pena, remar
Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena. Re-amar.
Amar.
Caio F.
30 de janeiro de 2011
É possível um rio secar completamente ?

— Claro que é.
— Mas será que ele não enche depois? Nunca mais?
— Alguns sim, outros não.
— Mas nunca mais?
— Sei lá, acho que não.
— Você tem certeza?
— Certeza eu não tenho. Só estou dizendo que acho. Afinal não sou nenhuma especialista em matéria de rios, secos ou não.
— Sabe?
— O quê?
— Eu tinha esperança que o rio voltasse a encher um dia.
Caio F.
26 de dezembro de 2010
24 de dezembro de 2010
O mapa astral de Caio Fernando Abreu

“Acredito em Deus e em muitas formas do mistério. Sou astrólogo, embora não profissional, há 20 anos. Tenho uma curiosidade imensa de saber por que estou vivo, o que significa o céu, o que significa morrer. Portanto, é natural que em meu trabalho estejam presentes todas essas ânsias filosóficas exaltadas. Muitas vezes o que torna digna a vida de um homem é o fato de ele olhar para o céu e dizer “Meu Deus, que coisa imensa…” E perguntar: “Por que eu estou aqui” Toda forma de criação artística é uma maneira de procurar essas respostas.”
(Caio Fernando Abreu)
Para entrar no clima de Caio F. escuto Erik Satie, que ele adorava, e observo seu mapa astrológico, feito pelo próprio, em meio a papéis datilografados de uma velha carta. Do mapa deste virginiano, artesão perfeccionista da palavra, que dizia escrever para organizar o inorganizável caos, emerge uma onipresente marca d’água: como os caminhos que faz este elemento, rumo à profundidade, como a emoção indelével que Caio deixa impressa em nós, seus leitores e amigos. Não por acaso suas configurações astrais reiteram o simbolismo aquático, que tem múltiplas conotações ligadas aos estados anímicos e ao mundo dos sentimentos, vividos intensamente na vida e na obra. Caio queria ser um mago, como ele mesmo falou em uma de suas primeiras entrevistas. Queria ser o que foi: mago, xamã, inspirado encantador de serpentes e operador de metamorfoses, sábio transmutador a tanger com seu condão aquele ponto exato em nós, nos despertando e, não raro, nos perturbando, instigando a ir mais fundo, além do ponto.
O interesse pela metafísica, pelo esoterismo, pelas filosofias orientais e pela astrologia integrava sua experiência pessoal e era vivenciado com respeito e reverência. Caio foi um profundo conhecedor da astrologia e astrólogo altamente intuitivo, compartilhando sua visão através de seus textos. Em Caio, literatura e vida não se descolam, andam juntas, caminho que se faz ao caminhar. O escritor utiliza elementos simbólicos, mitológicos e principalmente astrológicos em seu trabalho, ora como simples referência, ora como vetor na construção ficcional, de forma deliberada. O livro "Triângulo das águas" se destaca dos demais por apresentar uma estrutura narrativa norteada por princípios astrológicos. Através do simbolismo dos signos de Água — Câncer, Escorpião, Peixes –, relacionados a cada um dos três contos que constituem a obra, é representado o processo de transformação interior de seus personagens: seres à procura da verdade e de um sentido para suas existências sufocadas pela pressão urbana e pela solidão.
Na mesma carta de 20 junho de 1988, em que me enviou seu mapa, Caio comenta a intenção de escrever outros livros usando os elementos astrológicos: “Ando com uma longa história na cabeça. A se chamar 360 Graus. Queria dividi-la em capítulos, assim: 30 graus (o semi-sextil), 60 graus (o sextil) e assim por diante. É uma história de amor, claro. Na verdade ainda não decidi se será 360 ou 180 graus. Estou naquela fase de anotar e ler coisas, à espera de que a Vida (essa senhora tão temperamental) me dê mais alguns – digamos – subsídios. Tenho para mim que ela é quase, talvez, a “grande obra”. Não sei se é um livro só ou parte de um, como o Triângulo das Águas. Era um projeto antigo meu: três histórias para os signos de Água, três para o Fogo e assim por diante — até completar a mandala dos 12. Quem sabe consigo?” Esse é mais um dos tantos projetos bacanas que ficaram espalhados por anotações em guardanapos, cartas e diários, sem tempo de realizar.
A literatura de Caio — com seu mix bem temperado de amores, sexo, viagens, cidades, drogas, psicanálise, meditação, astrologia, filosofia oriental, candomblé, tarô, cultura pop, poemas, filmes & canções — mostra sua trajetória pessoal na busca de sentido e de revelação e, ao mesmo tempo, propõe ao leitor um convite para embarcar em sua própria jornada de busca de autoconhecimento, de significado da existência, de crescimento e de transcendência. É impossível ler Caio Fernando Abreu e manter aquela “mesma velha idéia formada sobre tudo”.
Por Amanda Costa. Astróloga, autora do livro “Astrologia o Cosmos e Você”, mestranda em literatura brasileira (UFRGS).
23 de dezembro de 2010
Gosto de pele, de cheiro, de amor verdadeiro

17 de dezembro de 2010
Teatro: "Amor e Ponto"
Na última sexta, realizei um dos meus sonhos: assistir uma peça de um dos escritores que mais admiro. Digamos que esse sonho se realizou, e transbordou pelas bordas de tão intenso e verdadeiro. Faltavam olhos para tantas lágrimas. O espetáculo foi dirigido pela diretora Adriana Sottomaior, que soube transformar com maestria contos que eu julgava impossíveis de serem adaptados para uma peça, como "Os sobreviventes" e a "Dama da Noite", em retratos tão próximos do nosso cotidiano, histórias tão Caístas em cenas urbanas tão reais, sempre com o mesmo fim, esse ponto que o amor insiste sempre em dar. "Amor e ponto", pra quem conhece o Caio, pode ser a peça mais dilacerante que existe, mas também, pode ser um recado, embora indireto, de que o amor existe, mesmo mascarado de ódio e fúria, sua existência está aí, e nos acompanha cautelosamente. E o "escritor da paixão", como disse Lygia Fagundes Telles, sempre soube nos alertar dessa existência tão perturbadora de uma forma tão viva e árdua.
11 de novembro de 2010
Literatura: Caio Fernando Abreu
Trecho final do livro "Onde andará Dulce Veiga ?" de Caio F.
3 de setembro de 2010
Uma história de fadas
Era uma vez, também, nesse tempo (que nem tempo antigo, era, não; era tempo de agora, que nem o nosso), um homem que acreditava. Um homem comum, que lia jornais, via TV (e sentia medo, que nem a gente), era despedido, ficava duro (que nem a gente), tentava amar, não dava certo (que nem a gente). Em tudo, o homem era assim que nem a gente. Com aquela diferença enorme: era um homem que acreditava. Nada no bolso ou nas mãos, um dia ele resolveu sair em busca do País das Fadas. E saiu.
Aconteceram milhares de coisas que não tem espaço aqui pra contar. Coisas duras, tristes, perigosas, assustadoras, O homem seguia sempre em frente. Meio de saia-justa, porque tinham dito pra ele (uns amigos najas) que mesmo chegando ao País das Fadas elas podiam simplesmente não gostar dele. E continuar invisíveis (o que era o de menos), ou até fazer maldades horríveis com o pobre. Assustado, inseguro, sozinho, cada vez mais faminto e triste, o homem que acreditava continuava caminhando. Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. E sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava.
Um dia, chegou à beira de um rio lamacento e furioso, de nenhuma beleza. Alguma coisa dentro dele disse que do outro lado daquele rio ficava o País das Fadas. Ele acreditou. Procurou inutilmente um barco, não havia: o único jeito era atravessar o rio a nado. Ele não era nenhum atleta (ao contrário), mas atravessou. Chegou à outra margem exausto, mas viu uma estradinha boba e sentiu que era por ali. Também acreditou. E foi caminhando pela estradinha boba, em direção àquilo em que acreditava.
Então parou. Tão cansado estava, sentou numa pedra. E era tão bonito lá que pensou em descansar um pouco, coitado. Sem querer, dormiu. Quando abriu os olhos — quem estava pousada na pedra ao lado dele? Uma fada, é claro. Uma fadinha mínima assim do tamanho de um dedo mindinho, com asinhas transparentes e tudo a que as fadinhas têm direito. Muito encabulado, ele quis explicar que não tinha trazido quase nada e foi tirando dos bolsos tudo que lhe restava: farelos de pão, restos de papel, moedinhas. Morto de vergonha, colocou aquela miséria ao lado da fadinha.
De repente, uma porção de outras fadinhas e fadinhos (eles também existem) despencaram de todos os lados sobre os pobres presentes do homem que acreditava. Espantado, ele percebeu que todos estavam gostando muito: riam sem parar, jogavam farelos uns nos outros, rolavam as moedinhas, na maior zona. Ao toquezinho deles, tudo virava ouro. Depois de brincarem um tempão, falaram pra ele que tinham adorado os presentes. E, em troca, iam ensinar um caminho de volta bem fácil. Que podia voltar quando quisesse por aquele caminho de volta (que era também de ida) fácil, seguro, rápido. Além do mais, podia trazer junto outra pessoa: teriam muito prazer em receber alguém de que o homem que acreditava gostasse.
Era comum, que nem a gente. A única diferença é que ele era um Homem Que Acreditava.
De repente, o homem estava num barco que deslizava sob colunas enormes, esculpidas em pedras. Lindas colunas cheias de formas sobre o rio manso como um tapete mágico onde ia o barquinho no qual ele estava. Algumas fadinhas esvoaçavam em volta, brincando. Era tudo tão gostoso que ele dormiu. E acordou no mesmo lugar (o seu quarto) de onde tinha saído um dia. Era de manhã bem cedo. O homem que acreditava abriu todas as janelas para o dia azul brilhante. Respirou fundo, sorriu. Ficou pensando em quem poderia convidar para ir com ele ao País das Fadas. Alguém de que gostasse muito e também acreditasse. Sorriu ainda mais quando, sem esforço, lembrou de uma porção de gente. Esse convite agora está sempre nos olhos dele: quem acredita sabe encontrar. Não garanto que foi feliz para sempre, mas o sorriso dele era lindo quando pensou todas essas coisas — ah, disso eu não tenho a menor dúvida. E você?
11 de agosto de 2010
Cinema: "Dama da Noite"
1 de agosto de 2010
Sugestões para atravessar agosto

24 de julho de 2010
Transformações (uma fábula)
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24 de fevereiro de 2010