22 de junho de 2012

O pedestre

A Curitiba planejada, dos imponentes arranha-céus da Visconde, das vias exclusivas do expresso, dos bosques que vibram saúde com suas ciclovias compartilhadas que ladeiam grandes lagos. A Corityba esquecida, das ruelas do Largo, dos cines pornô e dos antigos antros da Riachuelo, do feio arrumado a fim de impressionar o gringo e tapar a insatisfação do habitante. Quando caminhava pela calçada da antiga rua Lisboa, à sua frente uma rechonchuda senhora aparentemente dançava; dos brechós de roupa seminova e lojas de casaco de pelo sintético se ouvia uma melodia intitulada Ai, se eu te pego. Embalada pela pitoresca música, a gordinha se alegrava com a sorte de todas as lojas do quarteirão estarem difundindo a mesma emissora de rádio. Na Voluntários da Pátria, um rapazote de roupa batida e semblante ultrajante lhe aponta uma banana e em tom de macheza, exclama: "Cala boca, se não te dou um tiro de banana!"; "Mas eu não falei nada", pensou, antes de ser tomado por uma discreta galhofa. E continuou caminhando pela calçada irregular, considerada a terceira melhor da nação.

3 comentários:

  1. Por isso o saudoso e genial Paulo leminski um dia escreveu: quantas Curitibas cabem num só Curitiba? Seu texto me lembra um pouco Dalton Trevisan, pela exaltação de um cotidiano que poucos vêem, ou se vêem, teimam em "não ver" ou pela singeliza das cenas belas e cotidianas! Vai fundo! Escrever pra viver... (pra continuar vivendo)!

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    1. Curitiba, assim como o Trevisan, é um grande mistério. Seus contrastes me incitam. Obrigado!

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  2. tens de ler "o flaneur" (algo como passante, transeunte, observador....)de Walter Benjamin! Muito a propósito!

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