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27 de julho de 2010

No último vagão

Ele devia cantar. Pular e rir, ele deveria, mas estava imóvel por
entre as quatro paredes da sua imóvel vida. Não surgiu nenhum
"muito obrigado" no canto da boca, e o sorriso amarelado fazia-se
escondido atrás dos descascados lábios de inverno. Mas ela não
se importava. Insistia, incessantemente, em pousar suas mãos
em outras tão frias e distantes. Os olhos, acostumados em serem
admirados, agora a faziam perder mais tempo na frente do espelho.
Procurava, desespederadamente, um motivo, uma razão, um cisco.
Mas não queria achar nada. Preferia agonizar frente ao seu reflexo.
Ela deveria chorar, espernear, fazer como toda mulher faz. Mas não.
No banco frio da praça, ele puxou "como num romance, o homem dos
meus sonhos me apareceu no dancing..." e ela nem se fez ouvir. Essa
vida de sobreviventes parecia estar construindo uma cruz cada vez
maior em suas costas. Saturados, fadigados deram o beijo derradeiro.
As mãos, pálidas e geladas, alimentavam o profundo desejo de acenar
o último "até mais" ou "até nunca". Mas não. Continuavam parados
na praça fria, queriam ganhar o último calor do corpo do outro, pois
sabiam que dali a frente sentiriam o frio da solidão. Nessa hora, um
"eu te amo" poderia ter surgido, avassaladoramente. Mas não, não.

3 de julho de 2010

Confusos-difusos-obtusos

Realmente, estavam perdidos num sentimento estranho.
Mas era bom. Vezenquando as mãos se desuniam, mas
isso era raro. Aqueles olhos azuis, grandes olhos azuis,
estavam atentos, confusos, emblemáticos. Os outros
cor-de-mel estavam mais confusos ainda, mas em um
momento tudo estaria resolvido. Apesar de distante de
si mesma em alguns instantes, ela sabia, estranhamente,
fazê-lo feliz. Por mais que lhes custassem a vida.

2 de julho de 2010

Feito um, só que dois

E o ventou não levou. Não levou o derradeiro momento para
as cucuias. Pelo contrário, foi intenso, rijo, vibrante. Procuravam
um esconderigio dentro dos olhos do outro, eram dois, feito um.
Realmente, parecia um livro. Mas no livro, não se pode sentir a
brisa gostosa de outono, nem procurar "fios-estranhos" dentro
de olhos, apaixonantemente, azuis. Passos leves e lerdos, afinal,
pressa era uma palavra inexistente em seus vocabulários. Mas
se acaso ela viesse a existir, era só pra apressar as reticências
desse estória. E se olharam, feito um. Um feito do outro.

29 de junho de 2010

Como uma terça qualquer

"A mi propio entierro fui, sola y llorando" - canta Mercedes
Sosa na música "Como la cigarra". Acho que não é nem uma
música para mim, e sim, um hino. Depois de um dia que pode
ser considerado normal, estou aqui tentando escrever algo.
O tradicional chá de terça saiu hoje, e veio acompanhado
(gratuitaente) de deliciosos biscoitos doces. E claro, a
companhia também estava apropriada pra essa terça-feira
ensolarada e fria de inverno. Me decepcionei por não achar
o livro do meu escritor preferido nas prateleiras da seção
de romances na Bibioteca Pública, e olha, foi difícil pra
mim achá-lo entre tantos nomes consagrados. Só sei que ele
fica perto de Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade e
Clarice Lispector. Voltando à Mercedes Sosa, ouço agora uma
outra música dela, parece tão profunda, mas cantada com uma
simplicidade invejável. E por falar nisso, uma simpática
garota disse que eu sou "bonito", cheguei até sorrir, tímido.
Assim como ontem, o céu está digno de ser admirado. Quando
deito na grama, semi-seca e recém-aparada, fico procurando
um limite pro céu. Concluo que o céu não existe, é tudo um
infinito. Infinito que, de certa forma, me deixa confuso.
Olha, a garota das mexas azuis toma chimarrão. Ainda prefiro
meu café. Ainda prefiro me exilar dentro de uma xícara.