Bom, a volta da rotina da solidão trouxe consigo algumas possíveis respostas para os tantosquestionamentos que a gente carrega nas costas, na garganta, no coração. Nada precisa
ser revolucionário pra ser intenso. Quando a gente se propõe a construir uma casa,
gente sabe que está vulnerável a qualquer tipo de coisa: atropelamento, falência,
acidente vascular cerebral, bala perdida, morte e quem sabe até amor. Ela era
interessante, tinha um jeito discontraído de tratar as pessoas e a si mesma. Não
demorou muito pra eu dizer que era apaixonado por ela e ouvir um "eu digo o mesmo",
ainda me lembro daquele bar fétido, tocava alguma sapatão na tevê, os espelhos na
parede como se fossem aumentar o minúsculo ambiente e dois coração prestes a
serem isca de selvagens famintos no fundo de um grande poço. Quando vimos já
estávamos tão íntimos que ela até adivinhava onde eu sempre botava meus discos
dos Ramones, os quais nunca sabia onde estavam. Mas sabe, ela tinha muito tijolo
e eu não tinha cimento algum. Depois de desfrutarmos o paraíso, pecorremos
desertos extensos, muitas vezes distantes um do outro. Acho que sempre foi assim,
essa distância entre as personalidades de cada um falou mais alto. Esses dias eu
pedi um fim, o que adiantaria eu gostar do cabelo dela, da gaveta de filmes, dos
lençóis cheirosos e das habilidades em jardinagem e culinária, se a única coisa que
me pediam era "amor" e eu não sabia nem com qual roupa seria enterrado. Sabe,
teve uma vez que a gente conversou por longas horas, madrugada a dentro, e
ficávamos observando os movimentos que os faróis dos carros na rua fazia em nossa
parde. Ela disse, fingindo algum sentimento de espanto e horror, que ela já tinha
visto aquela cena em algum outro momento. Depois daquilo, tivemos nossa última
noite juntos. Ela era de poucas palavras, jeitinho difícil, com uma mochila de sonhos
nas costas. E não era minha. Quando voltei era tarde demais, o banco da praça continuava
vazio e as bitucas dos nossos últimos cigarros ainda estavam lá. Acho que eu também
tinha muitos tijolos, mas nenhum de nós tinha o cimento necessário para nossa Torre
de Babel. Doutor, eu não sei o que fazer agora. Nem Ramones, nem barzinhos sujos,
nem CVV, nem mulheres, nem homens, conseguem me focar pra frente. Me ajuda!
Tenho de estar suficientemente bem para quando ela estiver sentada naquele banco.
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