Ela era quieta, seu silêncio já dizia tudo sem que eu precisasse movimentar os músculos do lábio. Tinha um brilho invejável, seus olhos cor-de-mel e o cabelo sem nenhuma química, lisos que iam até a metade das costas finas, e aquele jeito peculiar de andar sem precisar de ensaios pra andar de salto alto. Ela me pediu um drink, eu fiz que sim, e perguntei sua idade, acho que eram vinte, não lembro. Abaixou a cabeça, envergonhada, para o balcão com cascas de limão e sal, e voltou a fitar meus olhos. Você é uma gracinha, disse, e ela, sem se importar com o momento, me beijou. Foi doce, inconsequente, impulsivo, doce. Tomou seu drink, manteve o silêncio inviolável, escondeu o colar com uma pequena imagenzinha de alguma santa por debaixo da camiseta cinza, e segurava o copo com tamanha firmeza como se quisesse pedir mais um. Se quiser mais um pode pedir, não exitei. Ela fez que não, não aqui. Perguntei se ela queria que a levasse para casa, ou se gostaria de fazer outra coisa. Ela disse: Preciso de algum dinheiro pra voltar pra casa, minha mãe nem sabe onde estou. Vim pra cá atrás de alguém e vou voltar pra mim mesma. Depois que o ônibus partiu, nunca mais a vi. Não sei seu nome, seu telefone, seu maior sonho, maior medo. Só sei que ela era quieta e o seu silêncio me atormentava.31 de janeiro de 2011
Lei do Silêncio
Ela era quieta, seu silêncio já dizia tudo sem que eu precisasse movimentar os músculos do lábio. Tinha um brilho invejável, seus olhos cor-de-mel e o cabelo sem nenhuma química, lisos que iam até a metade das costas finas, e aquele jeito peculiar de andar sem precisar de ensaios pra andar de salto alto. Ela me pediu um drink, eu fiz que sim, e perguntei sua idade, acho que eram vinte, não lembro. Abaixou a cabeça, envergonhada, para o balcão com cascas de limão e sal, e voltou a fitar meus olhos. Você é uma gracinha, disse, e ela, sem se importar com o momento, me beijou. Foi doce, inconsequente, impulsivo, doce. Tomou seu drink, manteve o silêncio inviolável, escondeu o colar com uma pequena imagenzinha de alguma santa por debaixo da camiseta cinza, e segurava o copo com tamanha firmeza como se quisesse pedir mais um. Se quiser mais um pode pedir, não exitei. Ela fez que não, não aqui. Perguntei se ela queria que a levasse para casa, ou se gostaria de fazer outra coisa. Ela disse: Preciso de algum dinheiro pra voltar pra casa, minha mãe nem sabe onde estou. Vim pra cá atrás de alguém e vou voltar pra mim mesma. Depois que o ônibus partiu, nunca mais a vi. Não sei seu nome, seu telefone, seu maior sonho, maior medo. Só sei que ela era quieta e o seu silêncio me atormentava.
Por
Willian Aust
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