31 de janeiro de 2011

Lei do Silêncio

Ela era quieta, seu silêncio já dizia tudo sem que eu precisasse movimentar os músculos do lábio. Tinha um brilho invejável, seus olhos cor-de-mel e o cabelo sem nenhuma química, lisos que iam até a metade das costas finas, e aquele jeito peculiar de andar sem precisar de ensaios pra andar de salto alto. Ela me pediu um drink, eu fiz que sim, e perguntei sua idade, acho que eram vinte, não lembro. Abaixou a cabeça, envergonhada, para o balcão com cascas de limão e sal, e voltou a fitar meus olhos. Você é uma gracinha, disse, e ela, sem se importar com o momento, me beijou. Foi doce, inconsequente, impulsivo, doce. Tomou seu drink, manteve o silêncio inviolável, escondeu o colar com uma pequena imagenzinha de alguma santa por debaixo da camiseta cinza, e segurava o copo com tamanha firmeza como se quisesse pedir mais um. Se quiser mais um pode pedir, não exitei. Ela fez que não, não aqui. Perguntei se ela queria que a levasse para casa, ou se gostaria de fazer outra coisa. Ela disse: Preciso de algum dinheiro pra voltar pra casa, minha mãe nem sabe onde estou. Vim pra cá atrás de alguém e vou voltar pra mim mesma. Depois que o ônibus partiu, nunca mais a vi. Não sei seu nome, seu telefone, seu maior sonho, maior medo. Só sei que ela era quieta e o seu silêncio me atormentava.

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