16 de fevereiro de 2012

No encalço de Celina

Celina vivia tão perdida quanto uma peça de dominó num tabuleiro de xadrez. Seu tempo era decorado pela ilusão enquanto a rotina fordista lembrava os tempos da Rainha de Diamantina. Suas companhias eram tão verdadeiras quanto personagens de um pastelão galhofeiro, os inimigos eram levemente mais fortes e havia tempos que ela não ganhava uma rosa. Seu pai, Lúcio, um esfaimado apreciador da comida de Eva, uma diarista que cobrava exorbitantes oitenta reais diários, era torcedor fanático do Clube Atlético Paranaense, embora sua esposa, Raquel, torcesse pelo oponente. Eva gostava de tomar whisky escocês. Sempre levava uma garrafa daquele que se acha a Pedra da Gávea por debaixo do casaco de pelo sintético quando ia ao toalete. Certa vez Lúcio, sóbrio, lembrou do fato de não ter bebido na noite anterior por ter se comovido com um apelo compadecido da esposa pedindo que não fosse deitar com o hálito habitual, afinal, eles tinham uma vida perfeita, casa própria com piscina, churrasqueira e garagem pra quatro carros, sem contar os vinte e um anos de matrimônio: praticamente uma vida adulta tentando fingir que eram realmente isso, quando percebeu que sua garrafa tinha anoitecido pela metade. Depois tomou uma dose do conteúdo da mesma e sentou-se no sofá a esquecer de tudo que havia vivido aquele dia, por ventura, também aquilo que acabara de ter evidenciado. Na residência também vivia Camila, uma voluptuosa adolescente bem maquiada. Cindy e George eram os quadrúpedes. Triste era a realidade de Celina, onde mesmo havendo motivos suficientes pra ela ao menos fingir que era feliz e realizada, tudo palpitava para o silêncio das noites inquietas e ao brilho apagado de pequenos divertimentos afetivos, levianamente compreendidos. Não era de usar drogas. Masoquista que era, possuía distrações mais viciantes e irretrocedíveis que alguns papeizinhos holandeses.

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