16 de março de 2012

O poeta

Poeta é aquele que se entrega, sendo vítima do próprio desespero que impregna, que o seduz, que solemente se resume em dar trela pr'aquilo que tanto lhe afeta, que lhe deixa ruborizado ou transtornado diante daquilo que lhe reluz, introduz ou reverbera. Com tantas musas e desculpas, o poeta se faz de preguiçoso e incorpora o que lhe resta; sejam migalhas de amor ou regalos de uma festa. Por hora, sabe-se que ele não tem pressa, mas enquanto houverem refrões musicais persuasivos, especularão quanto tempo lhe resta. O poeta não pede perdão, escrevinha. Em suas preces faz poesia, de sua vida faz verbetes, em seus receios planeja rubra solidão, no recreio observa o destempero dos coleguismos em vão. Ora ele chora, ora ele ri, é feito de encanto e de eternos fins, tem coração franciscano e admite que é inseguro, mas não resiste em expressar o que lhe deveras é astuto. Afina o dissonante esfarrapado e compreende seu consoante anseio de ser mal interpretado. Ruboriza bochechas alheias, enche de lágrimas olhos ressecados, na mata densa abre clareira e em corações gelados promete afável afago. 

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