11 de março de 2012

Quem diz é o espelho, quem chora é que peca

A palidez da pele envelhecida camuflada pelo rouge e os mil cosméticos, ofereciam-lhe certo prazer pretensioso diante do espelho. Em seus pulsos, pulseiras suntuosas de preço exorbitante logo de cara e nas orelhas carregava o triunfo, sua nova aquisição no mercado de joias. Dos seus lábios a madame era perita, não poupava o carmesim e o aspecto envernizado. Das curvas incorretas do seu corpo caído ela extraía pretexto pra enfurecer-se com o mundo que outrora exaltava seus seios, cada perímetro de suas pernas, a maciez dos seus louros cabelos, outrora preferia essas volúveis que estampam revistas de fofoca e dieta. O sorriso ensimesmado dissimulava seu eterno desgosto de nunca ter sido interpretada, cansara de ter sido personagem da cantiga de um mudo, estrela de uma constelação imodesta. Em sua reta final, não sabia afinal qual era seu público, se era o de nobres eruditos ou de empregadas domésticas.

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