Os domingos possuem características peculiares
que os distinguem de quaisquer outros dias da semana. Uma delas, para os
curitibanos, é o preço da passagem a 1 real. Por esse preço, um garoto de calça
batida, chinelos de dedo, moletom de capuz vermelho, cheirando à cola de
sapateiro e uns doze anos de idade utilizava uma das linhas mais importantes da
cidade. No bolso do agasalho ele carregava um maço de papeizinhos cortados que
lembravam aqueles que a professora de aritmética entregava, com exercícios de
fração e radiciação, para serem colados e resolvidos no caderno.
Com equilíbrio duvidoso, abria caminho e distribuía, sem carisma
algum, seus papeizinhos aos passageiros que, inseguros, comprimiam ainda
mais suas bolsas ao lado do corpo. Talvez por ser leigo na empreitada, ele
ainda não tivesse o domínio logístico das suas petições; muitos dos passageiros
não puderam ler seu apelo contido naqueles papeizinhos surrados, afinal ele não
dispunha de muitos. Após coletar algumas moedas, desceu na praça Eufrásio
Correia e deitou-se numa das portas da estação-tubo, onde levava a mão ao
nariz, despreocupado, e inalava uma substância que expelia odor forte e que
visivelmente ocasionava-lhe certo relaxamento; quem o via, só enxergava um
menino triste. Um senhor que também trajava calça batida e chinelos de dedo e
por cima da camiseta de algum time de futebol um casaco esportivo, o
observava com atenção. Naquele instante suspirou como um pai entristecido
com um filho, um mestre se deparando com um discípulo fracassado. Ali encostado
como quem não esperava nada além do próximo coletivo, o garoto avistou de longe
uma nova oportunidade para sustentar seu vício, e então com dificuldade se
colocou de pé e enfiou o alucinógeno para dentro do bolso do moletom. O ônibus
já chegava à plataforma quando, insuspeitadamente, o senhor que o observava lhe
cutuca e exclama: "Nesse aqui vou eu, piá!", mostrando que ele sim
era perito no mercado da esmola. Sem relutar, o garoto esperou o próximo ônibus
que vinha logo atrás e, aberta a porta 3, seu corpo miúdo perdeu-se na multidão
que disputava um metro quadrado naquele ônibus lotado.
Muito bonito devo dizer... imaginei cada segundo, como se eu tivesse, de fato, vivido. Aliás, já vivi muitas vezes cenas parecidas. =/ É triste como o descaso cria essas criaturas "esquecidas por Deus"... Uma pena.
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