21 de agosto de 2012

Tarifa domingueira

Os domingos possuem características peculiares que os distinguem de quaisquer outros dias da semana. Uma delas, para os curitibanos, é o preço da passagem a 1 real. Por esse preço, um garoto de calça batida, chinelos de dedo, moletom de capuz vermelho, cheirando à cola de sapateiro e uns doze anos de idade utilizava uma das linhas mais importantes da cidade. No bolso do agasalho ele carregava um maço de papeizinhos cortados que lembravam aqueles que a professora de aritmética entregava, com exercícios de fração e radiciação, para serem colados e resolvidos no caderno. Com equilíbrio duvidoso, abria caminho e distribuía, sem carisma algum, seus papeizinhos aos passageiros que, inseguros, comprimiam ainda mais suas bolsas ao lado do corpo. Talvez por ser leigo na empreitada, ele ainda não tivesse o domínio logístico das suas petições; muitos dos passageiros não puderam ler seu apelo contido naqueles papeizinhos surrados, afinal ele não dispunha de muitos. Após coletar algumas moedas, desceu na praça Eufrásio Correia e deitou-se numa das portas da estação-tubo, onde levava a mão ao nariz, despreocupado, e inalava uma substância que expelia odor forte e que visivelmente ocasionava-lhe certo relaxamento; quem o via, só enxergava um menino triste. Um senhor que também trajava calça batida e chinelos de dedo e por cima da camiseta de algum time de futebol um casaco esportivo, o observava com atenção. Naquele instante suspirou como um pai entristecido com um filho, um mestre se deparando com um discípulo fracassado. Ali encostado como quem não esperava nada além do próximo coletivo, o garoto avistou de longe uma nova oportunidade para sustentar seu vício, e então com dificuldade se colocou de pé e enfiou o alucinógeno para dentro do bolso do moletom. O ônibus já chegava à plataforma quando, insuspeitadamente, o senhor que o observava lhe cutuca e exclama: "Nesse aqui vou eu, piá!", mostrando que ele sim era perito no mercado da esmola. Sem relutar, o garoto esperou o próximo ônibus que vinha logo atrás e, aberta a porta 3, seu corpo miúdo perdeu-se na multidão que disputava um metro quadrado naquele ônibus lotado.

Um comentário:

  1. Muito bonito devo dizer... imaginei cada segundo, como se eu tivesse, de fato, vivido. Aliás, já vivi muitas vezes cenas parecidas. =/ É triste como o descaso cria essas criaturas "esquecidas por Deus"... Uma pena.

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