4 de agosto de 2012

Refúgio e litígio

Desencontrada no mapa, permanece inaudível sua maliciosa risada que surgia acompanhada de um olhar sensual e insinuante, maldoso e dilacerante, a enfeitar seu rosto meninil que com madeixas escarlates se emoldurava. Acostumada com eternidades efêmeras, se vê em apuros assim que o sol se vai; de noite, afastada de superfícies pontiagudas, se desbota em profunda melancolia e, como de costume, acaba entregue sempre às mesmas sangrias. Em sua solidão nada mais cabe; é como um quartinho nos fundos onde se guarda de tudo  bugigangas, bicicletas, cartas sem remente, vassouras de palha, um par de asas, discos velhos, porcelanas do último casamento  e quando se arrisca procurar alguma coisa, por estar tão bagunçado o cômodo, o mais conveniente é desistir da empreitada. Ilhada na poesia morta, seu corpo se difunde com palavras inquietas e, outorgado o direito de sofrer, mais ainda se dissipam seus gritos de socorro na escura madrugada. 

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